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A girândola pachecal

brangendo 35 anos, a correspondência de Luiz Pacheco para Laureano Barros, seu mecenas, fixa com bastante verve a existência precária 
do escritor

Luís Barra

“O Grilo na Varanda” reúne a correspondência do escritor Luiz Pacheco, destinada a Laureano Barros. O seu conteúdo permite fazer um retrato bastante fiel da existência mais do que precária do autor de “Comunidade”

É difícil imaginar dois homens mais distantes, no estilo de vida e no temperamento, do que Luiz Pacheco e Laureano Barros — respetivamente o escriba e o destinatário desta correspondência, organizada e anotada por João Pedro George, o biógrafo de Pacheco. Abrangendo um período de 35 anos, entre 1966 e 2001, o material epistolográfico (62 cartas; 52 postais) reunido em “O Grilo na Varanda” permite traçar um retrato bastante fiel da existência mais do que precária do autor de “Comunidade”, mas também da relação forte entre um artista e o seu mecenas.

De um lado, temos o escritor pobretanas, editor falido, espírito quezilento, crítico literário implacável, polemista de levar tudo adiante, asmático, alcoólico, sempre a mudar de casa, sempre “à rasca” para pagar a renda, com oito filhos de várias mulheres, mais uma série de processos judiciais à perna e um corrupio de internamentos hospitalares (por causa de um enfisema pulmonar, ou para desintoxicações). Enfim, um homem na corda bamba, habituado a fazer da vida instável a matéria-prima da sua escrita. Do outro lado, um bibliófilo com tendência para a melancolia, colecionador de preciosidades bibliográficas clássicas e contemporâneas, exemplo de integridade e sentido cívico, um matemático brilhante que foi expulso da Universidade do Porto por ter criticado a prisão de uma aluna pela PIDE, herdeiro de uma grande fortuna que se instalou numa quinta em Ponte da Barca, onde construiu com esmero e sabedoria uma das melhores bibliotecas privadas da segunda metade do século XX.

Na excelente “Introdução” a este livro, João Pedro George dá-nos a conhecer os dois homens, bem como os seus contextos individuais, destacando depois o traço comum que os aproximou: o amor pelos livros e pela literatura. Laureano Barros escreveu a Luiz Pacheco a pedir que este lhe enviasse tudo o que houvesse disponível da Contraponto, a sua editora. Era o princípio de uma relação epistolar que só conhecemos aqui pela metade, porque as cartas de Barros se terão provavelmente perdido nas muitas deambulações de Pacheco, de casa em casa, de cidade em cidade.

Os dois homens encontraram-se poucas vezes, mas nunca perderam o contacto epistolar. Na maior parte dos casos, o propósito de Pacheco é só um: pedir ajuda financeira, seja para desencalhar uma edição presa na gráfica, tirar a máquina de escrever do prego, ou pagar os medicamentos. Conhecido pela sua arte do cravanço, Pacheco faz destas cartas um verdadeiro “manual da pedinchice”, tema “desgostante” mas “contumaz em escribas tesos”, como ele. Ainda assim, a não ser quando o tempo lhe falta, obrigando-o a ser mais direto, o escritor acompanha os pedidos explícitos de dinheiro “com um certo paleio”. Em troca da generosidade, fala de tudo e mais alguma coisa, dos seus achaques e das tricas do meio literário, da sua miséria e do estado do país, da arte da sobrevivência e das obras que sonha escrever ou editar, dos seus grandes ordálios e das suas pequenas alegrias. E agradece os cheques e os vales com que o “Prezado Amigo” o vai livrando de aflições e enrascadas.

De vez em quando, há “túneis de silêncio”, longos períodos de mutismo. Mas logo a conversa se reata. Entre os dois, além do respeito intelectual mútuo, nasceu uma confiança absoluta. É assim que Barros se torna o “fiel depositário” de muitas pastas e dossiês, material precioso em risco de se perder na “girândola pachecal” (e absolutamente necessário para que pudesse surgir um livro como “Pacheco versus Cesariny”, por exemplo). Mas Laureano Barros é também o interlocutor com quem o escritor partilha desalentos e frustrações, seja a incapacidade de voltar a juntar a sua “Tribo” de filharada dispersa, seja o adiamento sistemático do grande livro que não chegou a escrever (com ironia, desabafa que lhe exigem “uma obra de fôlego, esquecendo-se que sou asmático hereditário”).

Para João Pedro George, é na epistolografia e nos diários, uma escrita “ao correr da caneta”, que está a “arte maior” de Luiz Pacheco. Pungentes ou escarninhas, lúcidas ou aflitas, escritas com “sangue e nervos”, estas cartas dão-lhe razão.