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O caminho marítimo para Amarante

Um título pode ser construído a partir de um absurdo aparente. Sobretudo quando parece absurdo considerar apenas aparente o absurdo contido na hipótese de um itinerário marítimo até Amarante. Dispensam-se, por inúteis, lições práticas de geografia. A terra de Amadeo de Souza-Cardoso foi um dia absurdamente parisiense. Mais parisiense, até, do que o absurdo cosmopolitismo contido naquele antro onde, de Modigliani a Picasso, de Appolinaire a Picabia ou Chagall, se atropelavam os génios capazes de transformar a vivência quotidiana num irreal alforge de mundos novos. E outros.

As inesquecíveis e singulares cores da vida advêm do inesperado. Do improvável. Do inverosímil. Nunca seríamos o que somos, nunca teríamos chegado onde chegámos, se o paradoxo não nos fosse tão natural como o respirar. Há sempre um longo caminho a percorrer entre o momento inicial de uma ideia, na aparência sem sentido, e a reconfortante confirmação de que, afinal, o processo de construção do qual resulta a sua concretização, nos faz sentir apaziguados. Depois de tanta turbulência gerada, o triunfo do inesperado é, mesmo na mais insignificante das ações, a confirmação de que a vida é o maior dos segredos alguma vez construídos pela espécie humana.

No passado fim de semana aconteceu em Amarante, pelo segundo ano consecutivo, algo de similar ao incessante desejo de demonstrar as infinitas delícias jorradas por esse mundo ilógico no qual tanto gostamos de navegar.

O festival MIMO tinha tudo para não dar certo. É de graça para o público, e isso só pode ser decisão de loucos num mundo todo ele assente na lógica do lucro e da sacralização do dinheiro. Decorre numa cidade do interior, sem tradição de organização de festivais similares, e isso poderia ser o caminho mais curto para o desastre. É concebido por uma brasileira, Lu Araújo, que começou por organizar uma iniciativa similar em Olinda, e isso só poderia descambar, ou em arrogância de quem chega, ou em menorização por parte de quem está. Promove o património, organiza concertos em igrejas ou museus, e isso poderia transformar-se no descalabro absoluto, com incontroláveis turbas a violarem os sagrados templos, da religião ou da cultura.

A procura do novo e diferente está para lá da simples noção de aventura. Contém, antes, o desejo de rasgar outros trilhos para desvendar o que, sendo para nós desconhecido, não é menos relevante ou indispensável à construção de uma identidade coletiva. O outro, afinal, somos nós. Depende do ponto de observação.

O MIMO constrói-se desse indomável desejo de provocar o gosto pela diferença, mesmo quando não dispensa algumas âncoras musicais capazes de contribuírem para um sentido mais global de pertença. Espetáculos a roçar o sublime, como o da inglesa Ala.Ni, no final da tarde de domingo no claustro do Museu Amadeo Souza-Cardoso, as guitarras tuaregues dos Tinariwen, que não vimos, mas nos dizem terem constituído um dos momentos mais comoventes do festival, ou ainda Céu, Herbie Hancock e Rodrigo Amarante, bem como o cada vez mais surpreende Manuel Cruz, cujo universo criativo está já muito para lá da simples produção musical, provocaram uma espécie de abalo sísmico emocional na envolvente do rio Tâmega.

Lu Araújo não é, e presume-se que não pretenda ser, uma Madre Teresa de Calcutá, pelo menos na sua parte simpática e menos polémica. O MIMO é o resultado de uma aposta empresarial, com todas as consequências daí inerentes. Ainda assim, soube construir uma espécie de estado de graça, pelo modo como, sem perder de vista a necessidade de, no final, pagar as contas, ou os ordenados das inúmeras pessoas que contribuem para o por de pé, consegue colocar a promoção cultural, a valorização dos espaços, um novo aproveitamento do património, no epicentro do que acaba por se transformar numa declaração de amor a toda uma região. Até pelas novas mundividências geradas entre a população local.

Os benefícios diretos da realização do festival não abrangem apenas Amarante. A cidade de Pascoaes e Agustina será a mais beneficiada, por razões óbvias, mas há todo um conjunto de estruturas dos concelhos vizinhos, em particular na área hoteleira e da restauração, a sentirem o impacto positivo deste evento anual.

No próximo ano o festival regressa nos dias 20, 21 e 22 de julho. Lu Araújo atreveu-se, do outro lado do Atlântico, a imaginar uma travessia da qual resultou este encontro de um caminho marítimo para Amarante. Aportou por ali e mostrou como um absurdo aparente é apenas um aparente absurdo.