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Evocação de Leitão de Barros nos 50 anos da morte de um dos mais talentosos do século XX português

Leitão de Barros teve enorme popularidade através 
do cinema, do teatro, do jornalismo, da organização 
de espetáculos, das festas da cidade que enchiam as ruas de Lisboa... Cinquenta anos depois da sua morte, muito poucos são os que o conheceram no convívio pessoal 
e menos ainda os que se recordam da atividade 
que exerceu e do impacto que provocou

António Valdemar *

O “Diário de Notícias” foi a sua última tribuna. Escrevia a crónica semanal ‘Os Corvos’, que saía aos domingos, sempre na mesma página. Tinha repercussão nos mais diferentes estratos sociais. De Salazar ao merceeiro e ao barbeiro da esquina. A colaboração de Leitão de Barros não trazia assinatura e vinha paginada num espaço próprio e com caracteres tipográficos próprios. Todos sabiam quem era o autor.

O título remetia, evidentemente, para Lisboa. Leitão de Barros, porém, ocupava-se do que lhe apetecia e do que se passava em qualquer parte do país e até no estrangeiro. Homem de muitos ofícios, lecionou Desenho, Geometria Descritiva e Matemática nos liceus Camões e Passos Manuel. Isto constituiu apenas um modo de sobrevivência económica. Os seus interesses repartiam-se por outras áreas. Soube, contudo, atingir o renome intelectual — conforme diversas vezes me disse — para ganhar “o dinheiro que desejo para não pensar no dinheiro”.

Ficou na história do cinema. Os seus filmes e documentários marcaram uma época. Desde “Malmequer” (1918) até “Vendaval Maravilhoso” (1948), passando por “Severa”, extraído da peça e da narrativa romanceada de Júlio Dantas e que foi, em 1931, o primeiro filme sonoro português. Fixou o cenário marítimo e piscatório da Nazaré e da Póvoa de Varzim, o universo rural de “As Pupilas do Senhor Reitor”, o pitoresco dos bairros humildes de Lisboa e a realidade telúrica e humana das populações dos arredores.

Ficou ainda na história do jornalismo da primeira metade do século XX. António Cortez Pinto apresentou, em 2015, na Universidade Nova de Lisboa, uma tese de doutoramento acerca da orientação que desempenhou em dois semanários. Fundou e dirigiu “O Domingo Ilustrado” (1925-1927) e “O Notícias Ilustrado” (1928-1935), que se afirmaram pela renovação gráfica, pela abundância de temas relatados e comentados e pela diversidade da colaboração.

As revelações do espólio

E como era Leitão de Barros no dia a dia com qualquer um de nós? Ou com o poder político e económico? Ou com os diretores dos jornais? Imprevisível. Umas vezes agradável, outras desagradável. Muito simpático ou ostensivamente antipático. E como era, ainda, Leitão de Barros com a família? Com a mulher, os filhos, os netos, as cunhadas e os cunhados?

Joana Leitão de Barros e Ana Mantero, duas netas que privaram ainda com o avô, procuraram-me, recentemente, para obter informações e aclarar dúvidas que lhes suscitou a leitura de um artigo meu de 1996, no dia do centenário do nascimento de Leitão de Barros.

Preparam um livro que se baseia em documentação inédita encontrada no espólio, um acervo de muita correspondência, recebida e enviada; de muitas fotografias, de muitos recortes de jornais e revistas. Ao serem divulgados e contextualizados, vão surgir — garantiram-me — “revelações até agora desconhecidas a propósito do homem e da obra”.

Gameiro, Barros e Barata

José Leitão de Barros nasceu em Lisboa, a 22 de outubro de 1896, e entrou na “ínclita família” dos Gameiros pelo casamento, em agosto de 1923, com Helena, uma das filhas de Alfredo Roque Gameiro, que seguiu o pai na aguarela e no desenho (José tinha 27 anos e Helena 28). Raquel, outra filha de Roque Gameiro, principiou mais cedo na ilustração e na aguarela e atingiu maior notoriedade. Ainda outra filha, Maria, casou com Martins Barata e proporcionou novas ramificações. Havia mais dois filhos, Manuel e Rui. Este último, escultor, em agosto de 1935, com 29 anos, morreu, juntamente com a mulher (que estava grávida), na estrada de Sintra, num choque entre a moto que conduzia e um automóvel.

Aos Gameiros juntou-se a dinastia dos Barros. Uma irmã de José casou com o arquiteto Cottinelli Telmo, sogro de Daciano Costa. E outra irmã, Teresa, formada em Letras, lecionou, no tempo áureo das Guardiolas, no Liceu Maria Amália, três ou quatro gerações que, em grande parte, guardaram deplorável memória das suas aulas; integrou o júri do polémico concurso organizado por António Ferro em que Fernando Pessoa enviou a “Mensagem”; e, antes e já depois do 25 de Abril, trabalhou na biblioteca e no arquivo do “Diário de Notícias”. Era feia e assumidamente reacionária. Tinha bigode e vestia mal. Desde o chapéu até aos sapatos.

Almada e os “Painéis”

Em agosto de 1960, entrei como repórter para o “Diário de Notícias”. O lendário chefe da secretaria, Mário Barros — uma das raras pessoas vivas que privaram com o poeta Gomes Leal; que pertencera a uma tertúlia do Café Chave d’Ouro ligada ao 28 de Maio e de que fazia parte o general Gomes da Costa; e que conhecera, de perto, toda a geração do “Orpheu” (tratava por tu Almada Negreiros e Alfredo Guisado) —, disse-me, enquanto marcava, pelo telefone, um serviço de agenda: “O Leitão de Barros quer conhecer-te, por causa dessa trapalhada da questão dos ‘Painéis’, das tuas entrevistas com o Almada. Ele está convencido de que, no ‘Diário de Notícias’, é a única pessoa que pode falar e escrever sobre os ‘Painéis’ e que o que é preciso saber é quem foi que os pintou e para onde se destinavam os ‘Painéis’.” Em ‘Os Corvos’, Leitão de Barros tinha dado algumas alfinetadas que haviam irritado Almada, que me comentou com acidez: “Só faltava agora este preopinante...”

Dias depois, em plena redação, tivemos a primeira aproximação. Eu preparava-me para sair e ele chegava com o texto de ‘Os Corvos’ para publicar no domingo. Dirigi-me ao seu encontro e identifiquei-me. A conversa prolongou-se até às 4h ou 5h da madrugada. Era a ‘Nau Catrineta’. Tinha sempre muito que contar (era um conversador fascinante, como Almada, Nemésio, o professor Vieira de Almeida, António Pedro e poucos mais).

Estou a ouvi-lo. Principiou ao ataque: “Como é que tu, que és tão novo, mais ainda do que eu julgava, te atreves a escrever sobre os ‘Painéis’? Já leste o livro de José de Figueiredo? Como é que o monstro sagrado do Almada te deu as entrevistas que nunca me quis dar? Ele, se calhar, não quis foi discutir geometria comigo...”

Deixei-o falar à vontade. Descarregou os nervos. Referi-lhe que passei alguns meses no Museu Nacional de Arte Antiga, apresentado por Almada ao dr. João Couto, que me explicou as várias teses e me pôs à disposição o essencial e o acessório que havia na biblioteca.

A festa de despedida

A nossa relação pessoal passou a ser assídua. Uma ou duas vezes tentei entrevistá-lo: “Quanto é que tu me pagas? Vais receber dinheiro com um texto feito com as minhas ideias? Resolvi dizer o que penso apenas nos ‘Corvos’. Começo a ficar seco e não desejo repetir-me”, declarou com um ar desconcertante.

Apareceu recentemente no espólio, inventariado pelas netas, uma carta minha, que revela a proximidade que tivemos, a propósito da festa que Leitão de Barros ofereceu, cerca de um ano antes de falecer, na Casa do Banzão, em Colares. Foi, ao pressentir a morte, uma despedida dos amigos e de algum mundo oficial. Teve o aparato barroco dos cortejos históricos: GNR a cavalo e com uniforme de gala, à chegada dos visitantes, em redor da moradia e da torre...

Reuniu quase todo o mundo das letras, das artes, da música, do teatro e do cinema. Incluiu, ainda, gente do Governo e da oposição. Do reviralho republicano. Compareceram, como é óbvio, do “Diário de Notícias” o diretor Augusto de Castro, a coordenadora do suplemento “Artes e Letras” Natércia Freire, o chefe da redação João Coito, o jornalista Artur Maciel. Surpreendeu-me a distinção do convite que Leitão de Barros me fez pelo telefone e o cartão que mandou, pelo correio, para minha casa. Não vi mais ninguém do “Diário de Notícias”. Estiveram, possivelmente, administradores.

Leitão de Barros

Leitão de Barros

Arquivo Pessoal

Aposta no institucional

Para a necrologia de Leitão de Barros, preparada com razoável antecipação, li ‘Os Corvos’, no livro e no jornal. Voltei a lê-lo para o artigo que escrevi no centenário do seu nascimento. Consultei, ainda, número a número, a coleção de “O Domingo Ilustrado” e de “O Notícias Ilustrado”. Encontrei, por exemplo, textos de Fernando Pessoa e desenhos e textos de Almada Negreiros.

Leitão de Barros não hesitou publicar, em “O Domingo Ilustrado”, uma versão do último manifesto de Almada Negreiros, “Pa-Ta-Pon”, uma catalinária fulminante contra Martinho Nobre de Melo, catedrático da Faculdade de Direito de Lisboa. Jovem ministro da Justiça de Sidónio, na altura, Martinho era um dos dirigentes da ditadura militar que, pela primeira vez, incluiu no Governo o ainda desconhecido Oliveira Salazar. Entretanto, Leitão de Barros teceu rasgados elogios a Almada, classificando-o “o maior nome da arte modernista”.

Contudo, as preferências de Leitão de Barros, ao recolher opiniões para um inquérito ou qualquer outro destaque, recaíam em Afonso Lopes Vieira e António Correia de Oliveira, entre os poetas; em Carlos Malheiro Dias e Antero de Figueiredo, entre os escritores; e em Carlos Reis e Roque Gameiro, entre os artistas plásticos. Nos momentos solenes, o Dantas era infalível.

Apostava, portanto, nos valores institucionais. Não se apercebeu do significado das vanguardas europeias nem da importância do “Orpheu”. Enredou-se nas anedotas de café, na chicana das gazetilhas, nas ferroadas das caricaturas.

Não reparou, ignorou ou encolheu os ombros quando — dois ou três anos antes do “Manifesto Anti-Dantas” de Almada — Fernando Pessoa, ao criticar o “Bartolomeu Marinheiro” de Afonso Lopes Vieira, escrevia sem papas na língua: “Os portugueses de amanhã, se forem educados na estupidez pela leitura das obras infantis como o ‘Bartolomeu Marinheiro’ [...], terão por Shakespeare o sr. Júlio Dantas, por Shelley o sr. Lopes Vieira e... serão espanhóis.” (Não ficámos espanhóis, mas Afonso Lopes Vieira, durante o salazarismo, era um dos poetas que figuravam nos livros de instrução primária... ilustrados por Raquel Roque Gameiro.)

A dispersão contínua

A opção que Leitão de Barros tomou, no decurso de uma dispersão contínua, por fazer muitas coisas e ao mesmo tempo, se impediu que ficasse reduzido a pão e laranjas, mas sem o conforto financeiro que pretendia, em termos culturais transformou-o, como artista plástico, escritor e homem de teatro, num epígono de epígonos. Uma tarde, no ateliê da Rua D. Pedro V, perguntei-lhe se já tinha refletido na ascensão de artistas, poetas e escritores da sua idade ou ligeiramente mais velhos (casos de Fernando Pessoa, Almada, Eduardo Viana, Jorge Barradas e António Soares), uma vez que ele se colocara à margem de uma geração com um contributo inovador em que poderia ter participado?

A resposta foi imediata: “Não tenho nada a ver com o Amadeu Cardoso e muito menos com o Picasso.” E pormenorizava: “O Viana é um pintor excecional. O Almada é e foi sempre o Almada. O Barradas só ganhou projeção nacional, aos 50 anos, ao abandonar as colaborações nos jornais e ao dedicar-se à cerâmica. Formou uma nova escola de ceramistas. Mas, por exemplo, o António Soares, os seus óleos, guaches e desenhos situam-se antes do Picasso e do Amadeu. Lá fora, é claro, pois aqui estávamos agarrados ao Silva Porto e ao Pousão, ao Columbano e ao Carlos Reis. E quem frequentou a Escola de Belas-Artes era triturado pela severidade do desenho lecionado pelo Condeixa e pelo Luciano Freire. O Soares teve a sorte de não passar por lá...”

A obsessão do Soares

“Eu poderia ter escolhido outro caminho... Todos gostam imenso do Soares, embora seja um indivíduo intratável. É o autor da maior parte das capas dos principais livros do António Ferro. Foi duas vezes Primeiro Grande Prémio de Pintura, atribuído pelo Ferro nos Salões de Arte Moderna do SNI. Consagrado na Exposição Internacional de Paris. O Almada nunca perdoou isso ao Ferro.

O Soares fez um retrato estupendo do cardeal Cerejeira, outro retrato estupendo da rainha Leonor de Gusmão, para o Paço Ducal de Vila Viçosa. Não te esqueças do retrato da Natacha e do retrato da irmã. Não têm nada a ver com o modernismo, com o retrato do Fernando Pessoa feito pelo Almada ou com os retratos do Mário Eloy. Se lho encomendassem, o Soares teria retratado o Salazar e o Dantas. Eu sabia e sei fazer o mesmo que o Soares faz e que vai repetindo há 40 anos com pequenas variações.

Ele compra revistas francesas da moda e de turismo: pega naquilo, dá uma volta e aparecem aquelas mulheres, deslumbrantes e esquisitas, de Paris, num cabaret, lábios pintados, um cigarro na mão ou entre os lábios; ou, então, numa terrasse de Montmartre, com blusas e casacos lindíssimos. Quem é que não gosta?”

Sete dias e meio...

“Conheces aquela história do Soares imaginada pelo Bernardo Marques? Uma delícia!” É evidente que já a ouvira ao próprio Bernardo Marques e a Abel Manta ou a Jorge Barradas. Disse que a ignorava, e Leitão de Barros, como um gato arrepiado e com rasgos impetuosos de farsa, à maneira de Gervásio Lobato, recriou com humor cáustico:

“O Mário Ribeiro, dono do Bristol Club, instalado onde está a sede do Benfica, arranjou, dentro do edifício, um ateliê para o Soares e, mais tarde, outro para o Guilherme Filipe. O Mário Ribeiro adorava as pinturas e desenhos do Soares. Entrava em êxtase com as mulheres nas capas do ‘ABC’. Pagou ao Soares uma viagem a Paris para ele ir mesmo a Paris. Tinha muito dinheiro. As roletas chegavam a funcionar 24 horas. Nenhum artista ou escritor amigo do Mário Ribeiro pagava nada no Bristol. Comiam e bebiam à vontade. Só pagavam às putas se fossem com elas para a cama. Como era possível o Soares a impingir-nos Paris sem nunca ter posto lá os pés?

Então o Soares andou em Paris quinze dias para ver mesmo Paris. Mas, como viveu sempre de noite e se levantou sempre às 5h ou 6h da tarde, o Bernardo dizia, com imensa graça e toda a verdade, que ele ficou apenas sete dias e meio...

Daí para cá o Soares cria mulheres e faz paisagens de Paris quando, afinal, são vestidas e despidas, à noite e de madrugada, na casa onde mora, na Rua de Santo António dos Capuchos, cujas traseiras dão para as traseiras do Patriarcado. É assim que ele e o Cerejeira se cumprimentam. O retrato do Cerejeira foi executado a partir de fotografias escolhidas pelo padre Moreira das Neves. O Cerejeira nunca posou, é inimaginável, às horas em que o Soares trabalha...”

Amália Rodrigues participou no filme “Vendaval Maravilhoso”, realizado por Leitão de Barros em 1948

Amália Rodrigues participou no filme “Vendaval Maravilhoso”, realizado por Leitão de Barros em 1948

Direitos Reservados

O legado de Ramalho

Um dos mestres de Leitão de Barros era o Ramalho Ortigão das “Últimas Farpas” e de “O Culto da Arte em Portugal”. Incutiu-lhe, a ele e a muitos outros jovens da sua geração, desiludidos e inconformados com a I República, a chama do nacionalismo e o fervor do regionalismo, a urgência da salvaguarda e recuperação do património, da conservação e restauro de monumentos.

Ramalho também fez despertar a nova geração para o aprofundamento das raízes históricas e culturais que emergem dos cancioneiros medievais, dos ‘Amadizes’, da obra lírica e épica de Camões, do teatro de Gil Vicente, do teatro, da poesia e da literatura de viagens de Garrett.

Este legado, que ganhou forte expressão em Afonso Lopes Vieira e em Roque Gameiro, também perdura em Leitão de Barros e na atividade que este desenvolveu no cinema, no teatro, no jornalismo, nos cortejos históricos e na Exposição do Mundo Português.

Lançamento de Salazar

Espectador e crítico dos primórdios do século XX, Leitão de Barros assistiu à desagregação da monarquia e a sucessivos episódios trágicos que derrubaram a República. Apoiou o consulado de Sidónio Pais e também o golpe de 28 de Maio de 1926, que implantou a ditadura militar e preparou a ditadura do Estado Novo. Participou no lançamento e consolidação da imagem de Salazar.

António Ferro, por sugestão de Mário Barros a Eduardo Schwalbach, diretor do “Diário de Notícias” (Augusto de Castro estava, na altura, em Bruxelas, à frente da Legação de Portugal), fez as entrevistas, depois publicadas em livro e traduzidas em várias línguas, que revelaram os objetivos políticos de Salazar como chefe do Governo.

Leitão de Barros, diretor de “O Domingo Ilustrado” e de “O Notícias Ilustrado”, acompanhou essa promoção de Salazar e também a completou no cinema, por exemplo, em documentários acerca de algumas das instituições do salazarismo, como a Mocidade Portuguesa e a Legião Portuguesa.

Enquanto esteve no jornal “O Século”, nos anos 30 e 40, entre numerosas iniciativas que desenvolveu, Leitão de Barros criou “O Século Ilustrado” e a Feira Popular de Lisboa; entrevistou Salazar e também, no Castelo de Bellevue, nos arredores de Paris, a rainha D Amélia, que enalteceu as obras do Estado Novo e a ação de Salazar.

O poleiro de ‘Os Corvos’

Leitão de Barros ficou na história do “Diário de Notícias” dirigido por Augusto de Castro. Fez crónicas e reportagens na Inglaterra, na Espanha e no Brasil. Mas, durante os 15 anos de permanência no jornal, assinalou-se fundamentalmente através da coluna semanal ‘Os Corvos’. Eram textos que se aproximavam da intimidade alfacinha introduzida nos folhetins do século XIX, de Júlio César Machado e Gervásio Lobato, e da mordacidade satírica de “As Farpas”, de Ramalho, e de “Os Gatos”, de Fialho.

‘Os Corvos’ denunciam o temperamento irrequieto de Leitão de Barros. Ele conciliava a efusão lírica, a toada elegíaca e o entusiasmo patriótico com erupções irreprimíveis de sarcasmo. Era feroz — e regra geral oportuno — perante a mediocridade, o mau gosto e o vazio da pompa académica. Mas não ponderou a advertência de Fernando Pessoa num texto de acaso de Álvaro de Campos: “O poeta superior diz o que efetivamente sente. O poeta médio diz o que decide sentir. O poeta inferior diz o que julga que deve sentir.”

Esse foi um dos erros que cometeu ao apreciar os poetas, escritores e artistas do seu tempo. E de outros tempos.

Cercado de invejas

‘Os Corvos’ — de que há uma reduzida seleção, feita pelo próprio Leitão de Barros, em 1959 e 1961, dois volumes ilustrados por João Abel Manta — mobilizaram a curiosidade e interesse de milhares de leitores. Refletiam as tendências estéticas, os modelos literários e as opiniões políticas e sociais de Leitão de Barros, que registou de 1953 a 1967, no “Diário de Notícias”, o que ocorria na cidade, no país e alguma coisa do que chegava até nós.

Insistiu, alguns meses antes de falecer, na autópsia possível da realidade do Portugal que tivemos. Debatia-se com a degradação física, o envelhecimento progressivo, a consciência aguda da morte. Procurava ajustar ideias e projetos para enfrentar um mundo bastante diferente daquele em que assumira intervenção decisiva. Tinha propostas para Lisboa: valorizar a Avenida, recuperar Alfama, as ruínas do Carmo; cuidar dos jardins e dos miradouros; incentivar o turismo e a hotelaria; ajudar as crianças e os velhos. Contudo, mesmo na agonia do salazarismo, eram outras as conceções na arquitetura, na urbanização, na educação e no ensino, na segurança social, nas exigências das populações. Em especial dos jovens.

Morreu, como viveu, cercado de invejas. Não lhe perdoavam nem o talento nem o êxito. Numa carta inédita — no espólio, a cargo das netas —, Eduardo Malta descreve, com minúcia, citando nomes, a sabotagem para inviabilizar uma votação para Leitão de Barros ser eleito sócio correspondente da Academia de Belas-Artes. Não era uma questão de currículo, mas aversão pessoal. Faltou-lhe até, naquela altura, para ter quórum, a solidariedade de uma pessoa muito próxima e da família. Em nova votação admitiram-no. Era tarde. Não tomou posse. Estava moribundo...

Posteridade inexorável

José Leitão de Barros, cidadão de Lisboa, falecido há 50 anos, a 29 de julho de 1967, recebeu as maiores homenagens e teve um enterro imponente, da Basílica da Estrela para um jazigo no Cemitério dos Prazeres. Estou certo de que ele gostaria de ter feito a notícia da sua morte e a reportagem do funeral, distribuindo os adjetivos de luxo para verter as lágrimas e acentuar as condolências

Teve honras na toponímia, com o nome numa rua em São Domingos de Benfica. É pouco para quem deu muito. Não é única a situação. Em diversas circunstâncias, já verificáramos outros casos de retumbante prestígio oficial ou oficioso que se eclipsaram decorrido meio século ou talvez menos. Mergulharam no esquecimento. O mesmo que envolve a memória de Leitão de Barros. Manter na íntegra, depois da morte, o protagonismo atribuído em vida não é fácil. A posteridade é inexorável.

* Jornalista e investigador