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“O MIMO é um festival de novas visões e de novas músicas”

Lu Araújo inventou o MIMO no Brasil e lançou uma ponte sobre o Atlântico até Amarante

Lucília Monteiro

Amarante recebe a partir desta sexta-feira a segunda edição do MIMO, um festival singular nascido em Olinda, no Brasil, e concebido por Lu Araújo: dura três dias, é gratuito e tem um cartaz com nomes como Herbie Hancock, Manel Cruz, Nação Zumbi, Céu, Mayra Andrade, Ala.Ni ou Rodrigo Amarante

A dois dias do início de mais uma edição nota-se uma especial tensão no rosto de Lu Araújo, 50 anos, curadora e diretora-geral do MIMO, um festival gratuito cujo nome por extenso lhe denuncia as origens: Mostra Internacional de Música de Olinda. Foi lá, naquela cidade brasileira, que tudo começou, a partir de uma ideia à partida extravagante. Ninguém a conhecerá já assim, mas, um dia, Lucineia Lucas, a Lu desta história, filha do dono de uma loja de discos e fotografia no Rio de Janeiro, numa curta deambulação por Olinda e a majestade do seu património, acontece-lhe a inspiração de propor uma celebração da música em comunhão com a imensidão de histórias contida nos edifícios. Sem bilheteira. Esse era e é o ponto, a marca distintiva de uma iniciativa que o ano passado aterrou em Amarante e arranca amanhã com a segunda edição. A um cartaz rico do ponto de vista musical, feito de uma curiosa simbiose entre o já conhecido e o espaço para a descoberta, junta-se uma programação de cinema, com a exibição dos documentários “Mudar de Vida – José Mário Branco, Vida e Obra”, de Nélson Guerreiro e Pedro Fidalgo, ou “Tim Maia”, de Mauro Lima. Acresce a componente educativa, um fórum de ideias, a chuva de poesia e um roteiro cultural. Lu explica nesta entrevista porque é que o MIMO é um festival que representa “uma inversão de valores”.

Há uma marca distintiva para a edição deste ano?
O ano passado foi o ensaio geral. Correu tudo bem. O MIMO pôde mostrar o que pretende. Agora é o ano da confirmação. Mantém-se o desafio de fazer uma programação diversificada e perceber se isso, definitivamente, é o que o público quer e espera. Em Portugal consigo fazer coisas que às vezes não consigo no Brasil, porque os grupos e artistas nem sempre querem fazer uma viagem tão longa para apenas um ou dois concertos. Esta programação talvez tenha sido uma das melhores dentro da diversidade que o MIMO se propõe. Tem noites com características diferentes, com 'world music' na primeira noite, mais jazz, com Herbie Hancock, e música brasileira na segunda. No último dia sai para uma coisa pop mais contemporânea com novos valores. Mesmo o Manel Cruz, sendo um artista que já tem estrada, percebe-se sempre um reinício nele quando pega um projeto novo. A própria Céu é uma artista que está a entrar num lugar de confirmação na música brasileira e até no mercado internacional. Depois há o Rodrigo Amarante, que desconstrói toda uma relação com o grupo dele.

Como se explica um festival completamente gratuito para o público?
Há quem conteste muito isso. Tenho amigos produtores que reclamam de oferecermos tudo gratuitamente. Não é pacífico, mas é um conceito. Penso que o festival não chegaria onde chegou no Brasil se fosse pago. Talvez já nem existisse. Ao longo desses anos pude formar um público ou ter um público já interessado em novas visões e novas músicas. Faço-o há catorze anos. Principalmente em Pernambuco, onde nasceu e está há mais tempo, este projeto já não estaria vivo. Nos primeiros anos trabalhava mais com música clássica e música instrumental, mas no Brasil a música erudita é quase só frequentada por terceira idade.

Isso levou-a a uma mudança de estratégia?
Sim. O MIMO fez circular por regiões do Brasil artistas que não iam lá. Chick Corea, por exemplo. A primeira vez que foi a Pernambuco foi pelo festival. Como McCoy Tyner, Chucho Valdés, Philip Glass. Não iam ao Nordeste. Porque não poderia fazer um festival nestas condições? É só uma inversão de valores. As marcas podem gastar em vários luxos ou num festival que tem esse conceito que oferece música e de qualidade. Não é fácil fazer perceber isto, mas tenho conseguido empresas que entendem. Será que se fizesse um festival destes em Amarante, mas pago, teria a mesma repercussão? A gratuitidade também me dá uma possibilidade que certamente, como produtora que dependeria de uma bilheteira, eu iria questionar. Que é arriscar a novidade. Isso é o papel de um festival, e não repetir o que o artista faz na sala de concertos. Tem de ser diferente.

Não há artistas que olham com reserva um festival de entrada livre?
O artista quando chega ao palco, normalmente fica feliz. O Herbie Hancock uma vez passou por S. Paulo e consegui que fosse a Paraty. Mais tarde soube que ele disse que o espetáculo de Paraty foi uma coisa histórica para ele. Chick Corea também tem uma história engraçada. Quando deu os dois primeiros acordes de 'Spain', o público todo começou a solfejar. Chick pediu à banda para parar. De repente tinha umas oito mil pessoas a fazer aquilo. Ficou muito emocionado. Tinha gente que tinha vindo de Fortaleza, de Belém do Pará, só para o ver. Temos noção de que este é um conceito novo. Às vezes ainda há empresários que perguntam: quanto custa o ingresso? Quantos lugares tem?

Como não há entradas pagas também não há controlo de assistência. Isso não pode prejudicar a qualidade do espetáculo?
Nunca tivemos nenhuma grande surpresa. Às vezes preocupo-me um pouco com cidades maiores. No Rio de Janeiro estou a viver uma situação desse tipo. Este ano vou para um lugar com todas as garantias e vou poder limitar, para que as pessoas possam ter conforto. É que não se trata só da música. Se temos uma música de excelência, não faz sentido não ter uma luz, um som de excelência. Quando ocupo uma igreja, não estou a ocupar uma sala de concertos que está lá com toda uma estrutura. Eu levo toda uma estrutura. Tenho uma equipe para planear isso: como iluminar, como sonorizar, como lidar com o património. O equipamento de luz tem de ser previsto com o que tem de mais moderno para não prejudicar aquele espaço.

Como surge pela primeira vez a ideia de vir para Portugal e depois Amarante?
Portugal sempre esteve nos meus projetos. Em 2010 comecei a perceber que não tinha mais braço para fazer isto sozinha. Nesse momento surge uma personagem importante nesta história, que é o meu sócio no Brasil, o Luís André Calainho, investidor na área da cultura que me desafiou a conceber um projeto a dez anos. Na altura não cabia a internacionalização, mas eu tinha sempre essa perspetiva. Há 3 anos vim ao Porto e adorei a cidade. Já conhecia Évora, Lisboa, mas decidi que queria fazer o festival no Porto. Falei com o Paulo Cunha e Silva, falei com o bispo, procurei a embaixada do Brasil. Fui bem recebida mas foram-me sempre dizendo que o Porto já tem muita coisa. Mas aquilo era apenas um projeto. No meio disso, tenho um amigo, Adriano Santos, que vive no Porto, mas é de Amarante. Convenceu-me a ir lá. Achei que Amarante tinha um tamanho legal para o que queria fazer aqui. Senti-me mais aconchegada do que no Porto. Depois houve um encontro com presidente da Câmara, mas apenas exploratório. Nem falamos de valores. Era só uma ideia, mas ele disse-me que gostaria de ter um projeto como este em Amarante. Até me disse que nem se importava de fazer com o Porto. Acabei por escolher Amarante. Foi uma decisão minha. Quando decidi, fui para Amarante para explorar os espaços. Ver o que faria e onde. Tem o museu Amadeo Souza Cardoso, que é incrível, igrejas de estilo medieval, barrocas, o museu de arte sacra. Além disso tem algo que me interessa muito: é uma cidade com história. Além do Amadeo, tem Teixeira de Pascoaes, tem Agustina. Tem um património natural. O Turismo do Porto e Norte achou a escolha interessante, até porque há uma saturação do Porto. No Brasil comecei por fazer um projeto no Nordeste que depois ganhou o sudeste. O festival hoje está presente em Olinda, Rio de Janeiro, Paraty, Tiradentes e Ouro Preto.

Como resolveu o problema do financiamento?
No Brasil temos uma lei que favorece muito a possibilidade de as empresas canalizarem financiamentos para o apoio à cultura. Aqui estudei os fundos europeus. Apercebi-me das potencialidades do fundo 20/20. Incluía uma nova categoria sobre qualidade ambiental que parecia feita à medida para o MIMO. O Turismo do Porto e Norte adotou o evento como importante para a região Norte. Trabalhamos também com a comunidade intermunicipal do Tâmega e Sousa, que tem onze municípios e estão interligados. Só para se ter uma ideia, Amarante não consegue acolher toda a nossa equipa. Se fôssemos para lá, não havia estadia para mais ninguém. Quase todos os artistas ficam em Penafiel. Vamos dinamizando outras regiões. A Direção Geral de Artes do Porto também foi muito importante. Depois há apoios pontuais de privados. Este ano começamos realmente um trabalho comercial de apresentar o que é o MIMO. Fechamos a Santa Casa da Misericórdia, que é um parceiro importante. A ideia é nos próximos anos ir diminuindo o apoio das estruturas do Estado, para as substituir por privados.

Como é pensada a programação para festivais em cidades tão diferentes?
Essa é a parte mais difícil. É mesmo mais difícil do que arrumar dinheiro. Tenho muitas possibilidades de coisas que são boas, mas que às vezes não combinam umas com as outras. O grande mistério disso tudo é como é que se cria uma tela que tem uma textura. Como se faz com que a música de um grupo de música sacra faça sentido com um grupo de Maracatu e do pop. Vou tentando fazer esses processos de harmonia e fazer esse equilíbrio e ter um pouco de tudo. Se eu tivesse de escolher só uma coisa do MIMO para fazer, eu faria programação. A música acalma-me. Faz-me viajar. Faz-me conhecer novas culturas. Tudo isso é essencial para colocar de pé um festival como este, feito de novas visões e de novas músicas.