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O planeta dos demagogos

Trump caricaturado na Marcha pela Ciência, em Nova Iorque, em abril

Foto RHODODENDRITES

Como é que o consenso mole do centrão do século passado abriu alas a demagogos e populistas? Um jornalista britânico tenta responder

É fácil, hoje e já desde há uns anos, rir da ingenuidade dos que acreditaram, como Francis Fukuyama, no “fim da História” e na democracia liberal e capitalista como desígnio último da Humanidade. Se não antes, pelo menos a última década deu a todos (incluindo ao académico americano de origem nipónica, que veio corrigir-se) motivos de sobra para perceber o logro em que caíra grande parte do Ocidente, persuadida, como escreve a “New Statesman”, de que “a questão crucial já não era que partido iria mudar o sistema, mas qual o melhor para geri-lo”. À direita autocomplacente juntava-se a esquerda que a imitava.

A sugestão desta semana é da lavra de um antigo editor de política desta revista britânica, canhota no pensar. Steve Richards recorda como a crise financeira global pôs fim à ilusão do crescimento perpétuo e aponta o dedo aos governantes que nada fizeram durante anos para evitar um rebentar de bolha inevitável, dos que “escolheram ser fracos”. E, não menos, aos que a ela reagiram com o mantra da austeridade, motor de parte da reviravolta populista.

A “New Statesman” elogia, ainda assim, a forma “empática” como o autor escreve sobre os políticos e os dilemas que enfrentam. “A brecha entre a forma como os eleitos são vistos e a realidade do seu exercício do poder, neurótico e por tentativas, é sombriamente cómica”, comenta. Abdicar do tom cínico tão em voga (e tão detestável) não lhe rouba espírito crítico. “Não há observador mais arguto do que se passa no Reino Unido”, escreve “The Guardian”.

Como passámos do consenso entre um Blair que não se importava que Thatcher o considerasse legado seu, um Clinton que enaltecia Reagan e, pelo globo fora, Guterres, Aznar, Chirac ou Schroeder para um mundo em que despontam Syriza, Podemos, Beppe Grillo, Farage, Corbyn, Le Pen, Sanders, Macron e, oh ignomínia, Trump? O que erodiu o centrão reinante? Se o subtítulo do livro de Richards é “The Rise of the Outsiders” (a ascensão dos intrusos), ele conta também a queda dos de dentro, dos resignados ao status quo insustentável, dos cegos que não quiseram ver e a quem compara com “personagens de film noir”.

Razões para otimismo?

Que a multiplicidade de origens geográficas referidas no parágrafo anterior não engane o leitor: a obra distingue, garantem os críticos, casos, percursos e ideologias. O radicalismo de Corbyn contrasta (como a aliança improvável de Costa, acrescentaríamos) com o desaire da social-democracia em grande parte da Europa, incapaz de se reinventar no pós-Terceira Via e reduzida a resultados eleitorais de um dígito. Estilhaçada a bússola que nos orientou na segunda metade do século XX, surgem vozes protecionistas à direita, flexibilidades políticas não desprovidas de oportunismo, em que o mais importante para o êxito foi “vir de fora” ou pelo menos fingi-lo de forma credível. “O debate sério e aprofundado torna-se quase impossível”, escreve Richards.

Além do sucesso de populistas ou demagogos e das respetivas causas, o autor pondera também consequências, como o impacto nos partidos convencionais e a reação dos que conseguiram tê-la. E perscruta o papel da comunicação social, da tecnologia e dos próprios cidadãos no novo panorama.

The Rise of the Outsiders”, Steve Richards, Editora: Atlantic Books; Páginas: 320 páginas; Preço: £18,99 (21,45€)

The Rise of the Outsiders”, Steve Richards, Editora: Atlantic Books; Páginas: 320 páginas; Preço: £18,99 (21,45€)

Sempre otimista, Richards prevê a autodestruição das figuras cuja subida meteórica analisa neste livro. “Intimidantemente fortes”, são “transparentemente fracos” e condenados a desapontar quando alcançam o poder (Trump e o Brexit são prova disso, diz). Acredita que a maioria dos que se dedicam à política é bem intencionada, por mais que deplore a falta de qualidade em bancadas parlamentares cada vez mais preenchidas por gente que nunca fez outra coisa, formatada por assessores e curtida nos aparelhos partidários. É caso para dizer que o diagnóstico está mais que feito e que só volta a fazer de morto-vivo quem quiser.