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O fim da macacada

Caesar, o macaco alfa dominante, em fuga dos humanos que o querem exterminar

O terceiro tomo da saga “Planeta dos Macacos” resulta num blockbuster em luta contra a amnésia

Em 2011, Rupert Wyatt recriou um espaço mítico da ficção científica: o planeta dos macacos, que, entre 1968 e 1973, foi o palco de uma série de filmes distópicos, que souberam vertebrar os medos do seu tempo. A obra que aí nos reinstalou (“... A Origem”) limitou-se a cumprir a missão de forjar o ground zero de uma nova saga símia, que deveria ser capaz de pormenorizar — à base de CGI — a génese do planeta dos macacos. Quem, em 2014, deu sequência ao projeto foi Matt Reeves, com um filme (“... A Revolta”) que combinava o fantástico e o trágico, Spielberg e Shakespeare, história de um pacto rompido entre símios e humanos. O terceiro tomo da nova série (de novo realizado por Reeves) multiplica por mil as ambições do seu antecessor, articulando um discurso político que revisita as feridas da América.

Prova disso é o início do filme. Nele, seguimos um batalhão de infantaria através da selva onde, alegadamente, os símios se escondem. A câmara foca então as palavras de ódio inscritas nos capacetes, que trazem à memória aquelas com que os soldados americanos exorcizavam o medo na Guerra do Vietname. Quando, logo depois, um militar alude aos macacos como “os Kongs” (num óbvio trocadilho com “Viet Cong”), percebemos que a semelhança não é acaso. De facto, se há coisa que “... A Guerra” explicita é o seu desejo de sondar o passado e o presente políticos da América, forçando amiúde os macacos a operarem como duplos das suas vítimas: os índios, os negros (procurem os black power fists), os mexicanos... Ora, embora permaneçam sempre no plano visual, estes gestos de evocação pecam pelo seu carácter demasiado vincado. Tudo se passa como se Reeves quisesse chamar a atenção para a sua própria consciência política, oferecendo-nos para isso um catálogo de traumas sublinhados a traço duplo (e todos colocados ao mesmo nível).

O curioso é que o filme não carecia de um subtexto político tão cerrado para se fazer valer, destacando-se pela sua dramaturgia. Sintetizemos a narrativa: após um ataque desferido contra a sua cidade, os macacos fogem para o deserto, enquanto o seu líder (Caesar) parte rumo ao quartel-general dos humanos para matar o coronel responsável pela chacina (um decalque caricatural do coronel Kurtz de “Apocalypse Now”). Porém, ao chegar ao destino, Caesar descobrirá que a sua tribo foi capturada pelos humanos, que, num ápice, também o aprisionarão, obrigando-o assim a planear em cativeiro a evasão dos seus congéneres. Trata-se de uma história elementar, que Reeves trabalhará de forma muito contida, reduzindo as unidades de espaço ao mínimo, e recusando quase sempre usar as 3D para produzir espetáculos de pirotecnia digital (elas são sobretudo usadas para dar profundidade visual aos planos).

Mais estimulante do que isso é, todavia, o modo como o filme enceta um diálogo constante com a história do cinema americano e, em especial, com o western. São inúmeros os elementos que para ele remetem: a criança muda que os ‘macacos-índios’ adotam, a referência ao Monument Valley (um dos lugares comuns dos westerns de Ford)... Estamos perante um conjunto de descaradas piscadelas de olho que, longe de funcionarem como citações, atestam da devoção de Reeves pelo género, que contamina o ritmo sereno e o fôlego épico do seu filme — um potencial campeão de bilheteira que, para variar, permite que os planos se demorem no estudo das personagens e dos espaços. O resultado é pois paradoxal: um blockbuster protagonizado por símios, que dispensa quase por completo a macacada. Nada mau.