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Cultura

51 propostas de DVD/Blu-ray, livros e discos que podem ficar para sempre ligados aos dias quentes de 2017

A felicidade também passa por aqui

ILUSTRAÇÃO Fatimorri

Filmes

Textos Francisco Ferreira, Jorge Leitão Ramos e Vasco Baptista Marques

Uma sugestão especial

VISITE OU MÉMOIRES 
ET CONFESSIONS
De Manoel de Oliveira
2 DVD Epicentre Films

Gostava tanto de aqui ter trazido, não este “Visite...” en français, mas uma cópia portuguesa de “Visita Ou Memórias e Confissões” que, mais de dois anos volvidos sobre a morte de Oliveira, todavia não existe. Este sublimíssimo filme de fantasmas em torno de uma casa não chegou sequer a estrear nas nossas salas. A sua exibição comercial foi acertada com um canal de TV para assinantes, coisa para cobrir quem de direito de vergonha e, já agora, o país inteiro. Mas a Epicentre, que há muito distribui Oliveira em França, fez o que era preciso fazer: levou-o à tela e lançou-o num DVD impecável de dois discos. O primeiro vem com a derradeira curta, “O Velho do Restelo”. O segundo traz o documentário de João Botelho “O Cinema, Manoel de Oliveira e Eu”, uma recolha de depoimentos, “Oliveira vu par ses proches” (os filhos José Manuel e Manuel Casimiro, Botelho, João Mário Grilo, José Manuel Costa, entre outros) e uma entrevista-análise, não muito exata, mas sempre entusiasmada, do crítico Hervé Aubron. O mínimo de gratidão que a nós se exige é encomendar esta bela edição e esgotá-la quanto antes. Para que outras se façam. Até que outras se façam.
Francisco Ferreira

ALIADOS
De Robert Zemeckis
NOS

Em flirt com os melodramas de guerra americanos dos anos 40, “Aliados” aterra na Londres da II Guerra Mundial para seguir um casal de espiões cuja relação é abalada por uma suspeita (a de que a mulher poderá ser uma agente dupla). O filme passou algo despercebido na sua estreia mas merece ser redescoberto em DVD. / V.B.M.

CINZENTO E NEGRO
De Luís Filipe Rocha
Midas Filmes

Começa em Lisboa, culmina no cenário vulcânico da ilha açoriana do Pico, esta história de amor e vingança com um quarteto de intérpretes onde nos indecidimos quem mais destacar, mas onde as mulheres avultam no jogo: Joana Bárcia, Mónica Calle, Filipe Duarte, Miguel Borges. Um grande filme português. / J.L.R.

EU, DANIEL BLAKE
De Ken Loach
Midas Filmes

Daniel é um marceneiro de meia idade de Newcastle que, depois de um enfarte, pede pela primeira vez ajuda ao Estado, esbarrando numa via sacra de burocracias da Segurança Social. Pelo caminho, cruza-se com Katie, jovem mãe solteira, no limiar da miséria. E decide ajudá-la. Palma de Ouro de Cannes em 2016. / F.F.

GIMME DANGER
De Jim Jarmusch
Leopardo Filmes

Numa altura em que a nova ficção de Jim Jarmusch está nas salas (“Paterson”), destacamos a edição deste seu último documentário: um trabalho de fundo sobre os Stooges (a célebre banda rock liderada por Iggy Pop), que tem o grande mérito de colocar a história do grupo em permanente relação com a sua e a nossa cultura. / V.B.M.

IDENTIFICAÇÃO 
DE UMA MULHER
De Michelangelo Antonioni
Alambique Filmes

A penúltima longa de Michelangelo Antonioni socorre-se da sua história fragmentada (a das relações amorosas de um cineasta de meia idade, divorciado e em crise), para retomar um dos temas centrais do seu cinema: a alienação do homem moderno, que, aqui se mostra dividido entre a vida e a arte, o desejo e o dever... Sem extras. / V.B.M.

JACKIE
De Pablo Larraín
Cinemundo

Pablo Larraín acerca-se da América com um filme brilhante feito sobre um momento de fratura moral de um país e de edificação de um mito duradouro: o assassínio de Kennedy e os dias imediatos, centrados na figura da mulher do Presidente e da planificação dos funerais e de um legado que marcou o imaginário da História. / J.L.R.

SILÊNCIO
De Martin Scorsese
NOS

É o mais mal-amado filme do ano, esta obra em que Scorsese se abeira da missionação jesuíta portuguesa no Japão e nas perseguições sofridas – até ao martírio ou até à apostasia. Espantosa obra sobre o silêncio de Deus, a ver numa magnífica edição em Blu-ray, com a alta definição que a fotografia de Rodrigo Prieto merece. / J.L.R.

SONHOS 
COR-DE-ROSA
De Marco Bellocchio
Alambique Filmes

Adaptação livre de um romance autobiográfico de Massimo Gramellini, estes ‘sonhos’ centram-se em quatro décadas de vida daquele jornalista e na misteriosa morte da sua mãe, no final dos anos 60, tinha ele nove anos de idade. Bellocchio constrói um filme de fantasmas e de mergulhos no escuro a partir daquele trauma de infância. / F.F.

Livros

Textos José Guardado Moreira, José Mário Silva, Luís M. Faria, Luísa Mellid-Franco e Pedro Mexia

Uma sugestão especial

Viagem ao Sonho Americano
Isabel Lucas
Companhia das Letras, €19,30

Costuma dizer-se que os textos do jornal de hoje, por muito bons que sejam, estão condenados a forrar o caixote do lixo amanhã. De vez em quando, porém, encontramos na imprensa trabalhos que não merecem desaparecer no abismo da efemeridade jornalística. É o caso do projeto que Isabel Lucas levou a cabo, durante um ano, nas páginas do “Público”. Uma vez por mês, publicava uma prosa longa, entre a reportagem e o ensaio literário, em que narrava as suas deambulações pelos Estados Unidos da América, entrevistando escritores e percorrendo os lugares de romances célebres, mas também fixando a atmosfera instável de um país mais dividido, política e socialmente, do que nunca — o país que elegeu para Presidente o inclassificável Donald Trump. Partindo de Nova Iorque, em março de 2016, Lucas percorreu num ano mais de 97 mil quilómetros, esteve nas maiores cidades e nas vilórias dos estados agrícolas, andou pelas montanhas do Idaho e pelos confins do Alasca, ouviu pessoas de todos os tipos, vislumbrou as muitas Américas que coexistem na América. Sempre com livros essenciais na mão — fios de Ariadne para a travessia do labirinto. Nesta jornada intimista, encontramos uma aventura de escrita pessoalíssima, ao mesmo tempo humana e intelectual.
José Mário Silva

INVERNO NO PRÓXIMO ORIENTE
A. Schwarzenbach
Relógio D’Água, €14

Em 1933, uma jovem fotógrafa e jornalista suíça acompanhou durante seis meses um grupo de arqueólogos numa viagem pela Turquia, Síria, Iraque e Pérsia. Este diário relata esse encontro com o Próximo e Médio Oriente desconhecidos, sob o signo da “melancolia”, essa palavra que tanto a perseguiu durante a sua breve e agitada vida. / J.G.M.

WALDEN E KTAADN
Henry David Thoreau
Relógio D´Água, €18

O filósofo, naturalista e poeta americano (1817-1862), um dos cultores do transcendentalismo, além de defensor do direito à desobediência civil e de um modo de vida independente, deixou nesta obra os relatos de duas das suas mais profundas experiências de comunhão com a Natureza, longe dos miasmas da civilização urbana. / J.G.M.

REGRESSO À PEQUENA ILHA
Bill Bryson
Bertrand, €18,80

Uma viagem pelo Reino Unido, escrito com o intuito de descobrir as paisagens e as singularidades de um povo fechado sobre si próprio, num registo bem-humorado, do canal da Mancha às altas terras da Escócia. O resultado é uma desconcertante aceitação do “parque mais vasto do mundo, o seu jardim natural mais perfeito”. / J.G.M.

FLORENÇA RENASCENTISTA
Charles Fitzroy
Bizâncio, €15

A cidade de Lourenço, o Magnífico, nos finais do século XV, era um centro único que conjugava opulência, cultura e arte, considerada o berço do Renascimento italiano. Nomes como Miguel Ângelo e Leonardo deram-lhe uma aura de encantamento. Este guia leva-nos a esses tempos não tão distantes, “por cinco florins por dia”. / J.G.M.

Itália — Práticas de Viagem
António Mega Ferreira
Sextante, €16,60

Erudito e bon vivant, Mega Ferreira faz das suas deambulações italianas uma aventura intelectual, combinando o prazer da viagem com o fascínio diante de obras de arte e vidas de escritores. Um livro para juntar, na estante, a outro do mesmo autor: “Roma — Exercícios de Reconhecimento”, também publicado pela Sextante (2010). / J.M.S.

A História 
do Mundo...
Emma Marriott
Presença, €12,90

Escrita para “pessoas com pressa”, esta obra propõe-se resumir os últimos 5000 anos de História em 200 páginas. Sem pretensões de grande profundidade analítica, o livro cumpre o seu desígnio, oferecendo sínteses dos factos essenciais. Recomenda-se como visão abrangente e ponto de partida para leituras mais exaustivas. / J.M.S.

O Rapaz 
e o Pombo
Cristina Norton
Oficina do Livro, €16,10

Num campo de concentração, um rapazinho judeu com o seu pombo. Pode parecer um tema pouco indicado para leitura de férias. Divirjo, porém, e recomendo a leitura destas outras vidas, reduzidas à mínima expressão, como a das escravas sexuais cujos relatos permaneceram seladas no coração e nos olhos de quem as padeceu. / L.M.-F.

A Mulher-sem-cabeça e o...
Gonçalo M. Tavares
Bertrand, €15,50

Direcionadas, simultaneamente, à imaginação e à inteligência do leitor, estas histórias remetem para uma oralidade atávica e para uma lógica fortíssima — que conforma, por si só, personagens construídas entre o paradoxo e o contrassenso —, sem nunca abandonar a sua plausibilidade ficcional. Uma festa para o verão. / L.M.-F.

A Construção 
do Vazio
Patrícia Reis
D. Quixote, €14,90

Magnetizante, divertido, este primeiro romance prenuncia uma voz nova, mas não light, nas letras portuguesas. Sem flutuações na qualidade, a narrativa ressoa à leitura como passos num soalho antigo, transportando vozes remotas e o seu eco no espírito do lugar. Um sopro de vivacidade no morno panorama de estreias recentes. / L.M.-F.

A Casa das Tias
Cristina Almeida Serôdio
Teorema, €14,90

Magnetizante, divertido, este primeiro romance prenuncia uma voz nova, mas não light, nas letras portuguesas. Sem flutuações na qualidade, a narrativa ressoa à leitura como passos num soalho antigo, transportando vozes remotas e o seu eco no espírito do lugar. Um sopro de vivacidade no morno panorama de estreias recentes. / L.M.-F.

Magalhães
Stefan Zweig
Assírio & Alvim, €17,70

Além de ficcionista e ensaísta, Zweig foi um biógrafo prolífico. Neste volume dedicado a Fernão de Magalhães, comandante da primeira viagem de circum-navegação, tenta compreender tanto o homem como “o seu feito”, descrito pelo escritor austríaco como sendo “talvez a mais gloriosa odisseia da história da Humanidade”. / J.M.S.

Da Pintura
Eduardo Lourenço
Gradiva, €13,50

Na maioria inéditas, estas “meditações picturais” de Eduardo Lourenço fixam a aproximação do filósofo à arte, sobre a qual teoriza, sem deixar de falar dos pintores que mais admira (Picasso, Kandinsky, Klee, Almada Negreiros, entre outros). São fragmentos de sabedoria, por um pensador que reflete sobre o ato de ver. / J.M.S.

Dinastia
Tom Holland
Vogais, €24,99

Roma é daqueles temas, como o Terceiro Reich, que continuam a alimentar a indústria da História popular. A diferença é que foi há dois mil anos. Não importa. Nomes como Calígula e Nero ainda hoje são facilmente reconhecíveis, entre outros na grande dinastia fundada por Augusto, cuja evolução o autor de “Rubicão” conta nesta obra. / L.M.F.

Manual 
de Etiqueta
Vilhena
E-Primatur, €14,90

Para muita gente, Vilhena ficou associado à “Gaiola Aberta”, uma revista satírica tão ordinária como inteligente. Mais importantes são as dezenas de livrinhos que publicou antes do 25 de Abril. Nestas radiografias da sociedade portuguesa, a escrita revela elegância por trás (ou à frente) da brejeirice. Vide a amostra junta. / L.M.F.

Diário de um 
Zé Ninguém
G. & W. Grossmith
Tinta da China, €19,90

Se alguém quisesse defender a tese de que a banalidade é a fonte última do humor, poderia encontrar neste livro, escrito pelos irmãos George e Weedon Grossmith, o exemplo perfeito. O empregado de escritório Charles Potter, com a sua casa normal e a sua família normal, considera a sua vida digna de registo. Como discordar? / L.M.F.

O Inspector da Pide que Morreu...
Gonçalo Pereira Rosa
Planeta, €16,95

Que o jornalismo abunda em fait-divers mais ou menos substanciais ninguém põe em dúvida. Mas, mesmo nesta era de incessante autopromoção, ainda existe algum pudor em contá-los. Gonçalo Pereira Rosa, diretor da “National Geographic” e académico na área, não tem essa reserva. Os resultados parecem dar-lhe razão. / L.M.F.

História Natural da Destruição
W. G. Sebald
Quetzal, €15,50

À imagem das divagações geográficas e temporais das suas ficções, Sebald estuda neste ensaio a experiência alemã dos bombardeamentos Aliados durante a II Guerra. Tentando perceber como foi tratada, ou omitida, essa “humilhação nacional sem precedentes”, o que investiga é também a denominada “literatura das ruínas”. / P.M.

George Steiner no The New Yorker
George Steiner
Relógio D’Água, €17

Steiner publicou centena e meia de artigos na “New Yorker”. O ensaísta gosta de textos admirativos e provocatoriamente “elitistas”, mas também se debate com figuras que (em geral) admira, mesmo quando não gosta delas: o amargo Thomas Bernhard, Chomsky-enquanto-linguista, as jeremíadas aforísticas de Cioran. / P.M.

Cenas da Vida Americana
Clara Ferreira Alves
Clube do Autor, €18,50

Somos todos americanos, porque todos temos na cabeça imagens da América. Mas estas viagens de uma europeia liberal, dos anos Reagan ao malfadado Trump, mostram-se invariavelmente agridoces: como é possível elogiarmos a América cosmopolita e inovadora sem lamentarmos a América intolerante e ignorante? / P.M.

Memórias Póstumas de...
Machado de Assis
Relógio D’Água, €10

Viagem à roda de um homem fracassado que faleceu, contada post-mortem pelo próprio, “Brás Cubas” é um dos maiores romances em língua portuguesa: “rabugens de pessimismo” em capítulos curtos e inventivos. Um tour de force que merece ficar ao lado do “Tristram Shandy” de Sterne, que Machado tanto admirava. / P.M.

Música

Textos João Santos, Lia Pereira, Luís Guerra, Mário Rui Vieira e Rui Tentugal

Uma sugestão especial

SPACE, ENERGY & LIGHT
Vários
Soul Jazz/VGM

Subtítulo: “Experimental electronic and acoustic soundscapes 1961-88”. A primeira das “Eight Electronic Pieces” de Dockstader, de 1961, é a carta fora do baralho nesta compilação. O seu conceptualismo concretista soa deslocado num disco que descende mais dos paisagistas de “I Am The Center” do que dos experimentalistas de “OHM” (onde só ele e Laurie Spiegel constavam). Com uma escolha a recair essencialmente sobre americanos (8), a Soul Jazz começa esta história verdadeiramente em 1973 com Mother Mallard’s Portable Masterpiece Company, o pioneiro trio de sintetizadores que testava aparelhos emprestados por Robert Moog, passa pela new age com os olhos postos no interior da Terra e do ser humano (o grego Iasos em 1975; Steven Halpern, em 78; Michael Stearns em 81; e Kevin Braheny, em 88 — o inventor do sintetizador modular “Mighty Serge”, que Stearns usa), vai aos seguidores da Escola de Berlim que praticam uma eletrónica ambiental com os olhos postos no espaço (o inglês Tim Blake, em 77, após ter respondido pelo nome Hi T Moonweed The Favourite nos Gong e antes de voltar a tempo inteiro para os Hawkwind; o italiano J.B. Banfi em 78; o francês Richard Pinhas, no mesmo ano, inspirado por “Duna”; Michael Garrison, em 79, inspirado pelas “viagens infinitas das Voyager 1 e 2”) e fecha com umas raridades vindas da cassette culture dos anos 80 aqui pela primeira vez em CD (o inglês Carl Matthews, em 82; o duo alemão Stratis, em 83; e a americana-canadiana Beverly Glenn-Copeland, em 86).
Rui Tentúgal

AZD
Actress
Ninja Tune/Symbiose

Há muito que é um dos projetos eletrónicos mais arrojados do Reino Unido e volta agora para reconfirmar esse seu estatuto. Actress é Darren J. Cunningham e em “AZD” leva-nos numa viagem desconcertante por território experimental, acelerando o nosso batimento cardíaco (‘X22RME’, ‘Dancing in the Smoke’ e ‘Visa’) ou fechando-nos em introspeção (os hipnóticos ‘Blue Window’ e ‘Falling Rizlas’). M.R.V.

DROPS
Lince
EP Ed. autor

Lince destaca-se entre as fresquíssimas propostas portuguesas no feminino com um EP de estreia que coloca a nu a sua visão delicada mas intensa da pop. Conhecemo-la nos We Trust e vemo-la a aventurar-se agora sozinha numa coleção de canções que saltita entre a simplicidade orgânica de ‘Call Me Home’, ‘Infinite’ e ‘I Was Loving You Instead’, a efervescência eletrónica de ‘Earth Space’ e o brilho de ‘Puzzles’. / M.R.V.

HOPELESS FOUNTAIN KINGDOM
Halsey
Astralwerks/Universal

Depois de se estrear com “Badlands” (2015) e de se tornar uma estrela com ‘Closer’ (dos Chainsmokers), Halsey oferece um dos álbuns pop mais certeiros do verão. “Hopeless Fountain Kingdom” toca nas teclas certas: produções de Greg Kurstin e Benny Blanco, uma bela balada de Sia (‘Devil in Me’) e um arrebatado dueto com Lauren Jauregui das Fifth Harmony (‘Strangers’). / M.R.V.

Capacity
Big Thief
Saddle Creek

Andrógina e misteriosa, Adrianne Lenker é a alma dos Big Thief, banda de Brooklyn que acaba de lançar o segundo álbum no espaço de um ano. Apesar dos frescos 25 anos, a autora já viveu o suficiente — criada no seio de um culto religioso, aos 8 anos tinha morado em 14 casas — para escrever canções fascinantes como ‘Mythological Beauty’. Indie pop lo fi, enevoado e cheio de coração. / L.P.

Vem
Mallu Magalhães
Sony

Será difícil encontrar um hino mais irresistível, no verão que agora começa, do que ‘Você Não Presta’, o samba que abre o novo disco da brasileira Mallu Magalhães. Mas o resto de “Vem” oferece sucessivos motivos de alegria, como ‘Casa Pronta’, ‘Pelo Telefone’ ou ‘Gigi’, dedicada à sua mãe. Mallu canta com um sorriso (e a produção-maravilha de Marcelo Camelo) e isso faz toda a diferença. / L.P.

Not Even Happiness
Julie Byrne
Basin Rock

Aprendeu a tocar guitarra aos 17 anos, quando o pai adoeceu e deixou de poder fazê-lo. O que começou por ser uma forma de homenageá-lo transforma-se, ao segundo álbum, numa vocação rara para canções de folk cristalina e tão deslumbrante como os parques naturais onde a cantora e compositora americana já trabalhou. / L.P.

The Weather
Pond
Marathon Artists/Popstock

Depois do pujante “Hobo Rocket” (2013) e do coquetel psicadélico pop de “Man If Feels Like Space Again” (2015), os australianos cortam nas proteínas mais roqueiras, tonificando um corpo mais sintético, alimentado a sintetizadores. Estende-se um tom pardo e, por vezes, dormente que apela a um ‘lado B’ dos anos 80 — menos eufórico e borbulhante que as memórias pop. Um novo capítulo. / L.G.

The Reflektor Tapes
Arcade Fire
2 DVD Eagle Vision/Universal

Numa altura em que os canadianos mostram, a conta-gotas, o sucessor de “Reflektor”, o documentário de Kahlil Joseph sobre a criação do álbum de 2013 fixa-se num DVD que contém também um concerto em Londres. Um bom compasso de espera antes de “Everything Now”, o aguardado quinto álbum de Win Butler e companheiros, que chega no fim do mês. / L.G.

The Definitive Blind Willie McTell
Blind Willie McTell
2 CD Music on CD/Bertus

Passemos à frente o exagero do título — ‘definitivo’ seria se por aqui se fosse além do catálogo do bluesman gravado para a Columbia e Okeh — e centremo-nos na abundância de um duplo CD onde encontramos gravações em carne viva de um senhor de um fingerstyle puro (e de uma voz canora) que tanto seduziu Bob Dylan como os White Stripes. / L.G.

Good Boys
Stone Dead
LP e Digital Lovers & Lollypops

E se o melhor disco de rock’n’roll do ano (até agora) tiver sido feito por quatro rapazes de Alcobaça? Não é exagero: “Good Boys”, o álbum de estreia dos Stone Dead, emana a energia juvenil do garage pop e o domínio da ourivesaria ‘beatlesca’ em doses iguais, que é o mesmo que dizer que tanto brilham os riffs e os ganchos como as harmonias vocais aprumadas. Assim até parece fácil. / L.G.

HOLOGRAM IMPARATORLUGU
Gaye Su Akyol
Glitterbeat/VGM

Aterrou recentemente nas lojas nacionais este óvni de 2016, plasmado a partir do meridiano do psicadelismo anatólico da década de 70 (Selda, Ersen, Erkin Koray, et al.). Sarcástico e sério (o título traduz-se por “Império do Holograma”), sensual e surreal (salta da cama ao cosmos sem pudor), projeta a estrutura modal turca na voragem de um buraco negro. Num verso: “A forma é amorfa.” / J.S.

AVITAL MEETS AVITAL
Avi Avital & Omer Avital
Deutsche Grammophon/Universal

Há quem aproveite o verão para mudar a pele. Já os israelitas Avi e Omer Avital decidiram reinventar-se enquanto instrumentistas para se sentirem mais confortáveis na sua. É o que se vislumbra ouvindo ‘Ana Maghrebi’ (i.e.: Eu sou marroquino) e outras modas mediterrânicas mergulhadas em água morna e temperadas pelo perfume de uma saudade comum. / J.S.

AT FILLMORE
Miles Davis
Music on CD/Bertus

É a reedição de 1997, aquela em que pela primeira vez se indexavam os temas e se modelava o magma que a banda de Miles (Grossman, Corea, Jarrett, Holland, DeJohnette, Airto) extraía em 1970 às entranhas da terra. Na íntegra, este material viria a culminar nos 250 minutos de “Miles at the Fillmore: The Bootleg Series Vol. 3”, em 2014, mas basta um segundo para se comprovar a sua eterna ignescência. / J.S.

SUNLIGHT
Herbie Hancock
Music on CD/Bertus

Em 1977 estreava-se “Saturday Night Fever”, abria o Studio 54 e um êxito à escala planetária como ‘I Feel Love’, de Donna Summer, prescindia de instrumentos acústicos. Na TV falava-se de computadores pessoais e de viagens espaciais e, em estúdio, no verão, rodeado de sintetizadores e de um vocoder, o Herbie Hancock de “Sunlight” via a luz solar refletida numa bola de espelhos. O tempo só lhe fez bem. / J.S.

4 CITIES
Fazil Say (p), Nicolas Altstaedt (vc)
Warner

Algo voltadas para o passado e afetadas pela fugacidade da experiência humana, estas sonatas de Debussy (1915), Janácek (1923) e Shostakovich (1934), que Say e Altstaedt reúnem, possuem muito em comum com essoutra que ganha aqui primeira gravação — “Four Cities”, de 2012, da autoria do próprio pianista, evocação de quatro cidades turcas que força a viajar pela memória. / J.S.

EL AMOR BRUJO – ESENCIAS DE LA MÚSICA DE MANUEL DE FALLA
Euskal Barrokensemble, Enrike Solinís (d)
Alia Vox/VGM

Em busca de um imemorial odor levantino, vai-se de Scarlatti a Rodrigo, de Cantemar a Tárrega, passando pelas páginas que mais cheiravam a figo e a flor de laranjeira na obra de Falla com María de la O Lejárraga (de ‘Canción del amor dolido’ e ‘Canción del fuego fatuo’ a ‘Danza del juego del amor’). / J.S.

MONTEVERDI: MADRIGALI VOL. 3 – VENEZIA
Les Arts Florissants, 
Paul Agnew (d)
Harmonia Mundi

Nasceu há 450 verões, Claudio Monteverdi. E nada melhor para o lembrar do que o derradeiro capítulo desta trilogia de gravações que Les Arts Florissants lhe dedicam, agitadamente consagrado aos livros sétimo e oitavo de madrigais, tomos dos quais se extrai o néctar amargo e doce da guerra dos sexos. / J.S.

DELIUS: ORCHESTRAL & CHORAL WORKS
RPO, Thomas Beecham (d)
7 CD Warner

Para aqueles tristes entardeceres em câmara-ardente, em que do verão se ergue um monumento ao remorso, fica bem algo tão obsoleto quanto o Frederick Delius de “In a Summer Garden”, “Summer Night on the River” ou “Summer Evening”, com Beecham a jogar em casa e com consciência de que, aqui, cada nota sai de uma espreguiçadela iniciada no século anterior. / J.S.

UNDER THE PINES
Bardo Pond
Fire

Os riffs são lentos, a bateria não se deixa ir em correrias, o rio sonoro tem mais a velocidade do magma do que de águas livres. A pairar sobre os elementos, a voz de Isobel Sollenberger, irmã de artes da Fraser e da Gerrard. Em ‘Moment to Moment’ há guitarras acústicas e flauta. Seis temas com um tom permanentemente épico, entre o rock sonhador e a folk psicadélica. / R.T.

NOVOS TALENTOS FNAC 2017
Vários
2 CD Fnac

Desde 2007 que a Fnac vem fixando em preciosas coletâneas uma imensa produção de autores nacionais em início de carreira. Apenas um pouco mais de informação e o arquivo seria perfeito — p. ex., os temas de Beatriz Pessoa, Mai Kino, Live Low, Ana, The Town Bar, The Oafs, João Tamura, Rua Direita e Inês Mar (Gomas Alucinogénicas) são de 2016 e o de The Rite of Trio é de 2015. / R.T.