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“Não gosto nada de rever as minhas imagens de juventude. É uma perda de tempo”

Jane Birkin vai dar um concerto único em Lisboa Foto Nico Bustos

Foto Nico Bustos

A cantora e atriz Jane Birkin regressa a Serge Gainsbourg, desta vez acompanhada pela Orquestra Gulbenkian. O encontro está marcado para esta sexta-feira no Anfiteatro ao ar Livre da Fundação Gulbenkian, em Lisboa. Numa comovente e generosa conversa ao telefone a partir de Paris, a eterna musa do autor de ‘Je t’aime... moi non plus’, hoje com 70 anos, conta-nos como foi ser como um dos maiores ícones pop europeus da década de 1970 e como aprendeu a sobreviver à morte de uma filha

Qual é a história deste concerto?
É uma história longa... Depois da morte da minha filha [Kate Barry, filha do compositor inglês John Barry, que morreu em dezembro de 2013], não consegui sair de casa. Naturalmente, fiquei muito doente. Tive uma leucemia. Quando me curei, e para me tirar de casa, o meu 'manager' sugeriu que pegasse novamente nos poemas de Serge e que com a ajuda de Michel Piccoli e de Hervé Pierre, dois grandes amigos, montássemos um espetáculo só com texto porque era uma coisa simples de fazer. Tinha razão, as palavras de Serge puseram-me novamente a viajar. Em Montreal, encontrei uma jornalista de quem gosto muito. Numa conversa, contei-lhe que Serge dizia-me palavras magníficas sobre a música clássica e ela desafiou-me a trabalhá-las com uma orquestra filarmónica. Ao princípio achei que seria demasiado pretensioso, não tenho grande voz. Mas fiquei a pensar nisso e falei ao Philippe Lerichomme, o meu diretor artístico de toda a vida, a saber se estaria disponível para fazer uma triagem das canções. Durante seis meses, ele e o pianista e compositor Nobuyuki Nakajima, com quem adoro trabalhar, dedicaram-se orquestrar as canções, como músicas de cinema. Só depois trabalhámos a voz.

Este é o seu segundo concerto em Lisboa, o primeiro foi em 2004 na Culturgest. Mas tenho ideia que a sua relação com Portugal é mais antiga.
Estive em Portugal pela primeira vez no final dos anos 60, tinha pouco mais de 20 anos. Kate nascera e John tinha-me deixado. Estava de tal modo infeliz que os meus pais levaram-nos a passar o verão em Portugal. Andamos a passear pela costa. Depois, com o meu último companheiro, o escritor Olivier Rolin, voltei muitas vezes a Lisboa. Os livros dele estavam traduzidos para português e tinha amigos na cidade. Um dos meus jardins preferidos do mundo fica em Lisboa.

Qual é?
O Jardim do Palácio Fronteira. É um palácio divino e tive a sorte de conhecer o marquês. Era um homem tão gentil. Quando venho a Lisboa, visito sempre esse jardim.

FOTO CAROLE BELLAICHE

Uma das suas imagens mais iconográficas era um cesto de verga. Tem alguma coisa a ver com Portugal?
Claro. Comprei-o, precisamente, nessa primeira viagem e nunca mais deixei de ter cestos em verga.

... Apesar da ´Birkin' da Hermès, a mais célebre carteira do mundo que tem o seu nome?
E sabe o que é mais engraçado? É que também essa história teve origem no meu cesto de verga português.

Como?
Depois de me separar de Serge, vivi com Jacques Doillon (realizador e pai da terceira filha, a atriz e modelo Lou Doillon). Ele não gostava nada desses artifícios iconográficos muito ligados à minha vida com Gainsbourg. Um dia, estava sentado no carro, de repente fez marcha atrás e esmigalhou o cesto: "Adieu les gimmick!" (Ri-se). Eu estava de partida para Londres, meti as minhas coisas dentro de um saco de plástico e fui para o aeroporto. Já no avião, peguei na minha agenda que tinha papéis soltos e fotografias das minhas filhas que se espalharam pelo chão. Ao meu lado estava sentado um senhor a observar: “Devia ter um bolso na agenda para guardar essas coisas.” Era o senhor Dumas, dono da Hermes. Começamos a conversar, contei-lhe a história do cesto e quis saber como seria a carteira ideal para mim. Expliquei que teria de ser maior do que a 'Kelly' e mais pequena que um saco de viagem. Meses depois telefonou-me, dizendo que tinha um protótipo em cartão para me mostrar. Sugeri algumas alterações, quando ficou pronta ofereceu-ma. “As suas sugestões foram tão boas que todas as raparigas que trabalham nas lojas querem ter um modelo igual. Importa-se que lhe chame 'Birkin'?'” Fiquei atónita. Depois vim a saber que se tinha tornado na carteira mais cara do mundo.

Numa produção de moda para a “Vogue” inglesa inspirada em si, li esta frase: “Todas as raparigas do planeta queriam ser como Jane Birkin.” Tinha consciência do seu impacto?
Pelo contrário. Vinha de Inglaterra, onde as raparigas eram todas como eu. O meu ídolo era a Jean Shrimpton, a modelo de David Bailey. Sonhava ser como ela, copiava a maquilhagem que usava. Andava sempre tão carregada que nem à noite a tirava porque não queria que John percebesse que afinal os meus olhos eram muito pequenos. Depois apareci na capa do disco “Je t'aime… moi non plus”, com tanta maquilhagem... E aquele cabelo?! Meus Deus!

Vi que num programa de televisão em que participava que, quando lhe mostraram fotografias e filmes do seu passado, escondeu o rosto nas mãos e tapou os olhos.
Não gosto nada de rever as imagens de juventude, é uma perda de tempo. Em casa só tenho fotografias das minhas filhas. Uma vez, por curiosidade, fui à internet ver o que havia. Eram tantas! As da minha filha Kate, que era fotógrafa, são as mais bonitas. Mas dela só mostro as que fez para a Charlotte [Gainsbourg] e para a Lou. As minhas não exponho.

Ouve os seus discos?
Ainda os tenho embrulhados no celofane. Nunca os abri. Canto-os, e é tudo.

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Regressa sempre a Gainsbourg. Porquê?
Numa canção que me escreveu, ‘Une chose entre autres’, ele diz: “Une chose entre autres que tu ne sais pas/ Tu as eu plus qu’un autre/ L’meilleur de moi, est-ce ta faute?” Creio que é verdade. Tive o melhor dele.

É uma herança que não consegue largar?
Começou a escrever-me canções em 1969, quando eu tinha 23 anos, e só deixou de o fazer quando morreu, em 1991. As últimas canções foram para o meu álbum “Amours des Feintes”, e dois meses antes de morrer deu uma entrevista na televisão para promover o meu disco. Perguntaram-lhe: “O que Jane representa para si?” Já estava muito doente, e respondeu: “É aquela que melhor me interpreta...” Gosto sobretudo das canções que escreveu depois da nossa separação. Não tinha nenhuma razão para o fazer. Um dia, quando cada um de nós já tinha refeito a vida com outros parceiros, perguntei-lhe porque me continuava a escrever canções: “Porque somos mitológicos”, respondeu. Cultivou esse mito, mas a verdade é que também me deu o melhor de mim.

Deu-lhe uma identidade?
Não. Nessas músicas era a sua personalidade que estava impressa. Sou uma atriz, interpreto. Foi isso precisamente o que quis dizer, quando respondeu: É ela quem me interpreta melhor e não disse é ela quem me canta melhor.

Nunca teve vontade de experimentar outro reportório?
Quando cantei 'Avec le temps', de Léo Ferré, uma canção que adoro, Serge ficou de tal modo infeliz que tive de lhe dizer: “Não tenho direito de cantar um único compositor que não sejas tu?” Respondeu: “Não vale a pena. Tu não cantas muito bem e ninguém escreve para a tua voz como eu.”

Como casal trouxeram para o espaço público a vossa esfera privada, protagonizando um grande amor, cúmplice e, simultaneamente, erótico. Era deliberado? Esses filmes, canções, fotografias todos em que se mostravam faziam parte do projeto artístico?
Da minha parte não. Mas muito tempo depois comecei a perceber que houve essa intenção. Fazia parte do projeto de Gainsbourg.

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Porque deixou?
Sabe, quando penso nesses anos, revejo-me no colégio interno em Inglaterra, onde passei os anos da minha adolescência. Foi um pesadelo. O meu corpo não se desenvolvia e todas as raparigas se divertiam a fazer troça de mim. Naquela época, não ter peito era uma coisa terrível. Quando saí do colégio encontrei John Barry. Casámos. Tinha 18 anos. Logo depois engravidei. John não gostou nada, apaixonou-se e foi embora. Tinha a minha filha bebé e estava desesperada. Não me achava bonita, não sabia fazer nada e era nula no amor. Quando me apaixonei por Serge e senti que ele gostava de tudo em mim, dizia que não fazia mal não ter peito porque apreciava raparigas com ar de rapazinhos. Fiquei de tal maneira feliz por haver um homem que me achava magnífica, que não me importava com nada. Deu-me uma confiança enorme e depois fez aquelas imagens em que estou nua, presa a um radiador, que apareceram na capa de uma revista e chocaram imenso os meus pais... Expusemo-nos imenso e também expusemos as crianças. Depois desse período nunca mais mostrei nada da minha vida privada.

Mas essa construção Gainsbour/Birkin continuou mesmo depois da separação.
Depois, começou novamente a escrever-me músicas e voltámos a cantar, como se houvesse uma continuação do casal, embora já não estivéssemos juntos. Lembro-me de ter pensado: “será que é possível esta coisa de poder ser amiga de alguém de quem já fomos amantes?” Na verdade foi possível, e foi extraordinário.

De algum modo nunca quis libertar-se dessa condição.
Essa libertação acabou por acontecer quando comecei a fazer teatro com Patrice Chéreau e consegui pela primeira vez cantar fora do estúdio. Fiz a minha estreia num concerto no Bataclan, Serge veio ver-me todas as noites, estava muito orgulhoso. Disse-lhe: “Vês? Cortei o cabelo, vou vestir-me de rapaz. Já não quero ser uma boneca.” A partir daí comecei a ser eu mesma. Tinha 40 anos.

Gainsbourg criou um certo mito do homem de personalidade forte e pouco vulnerável, mas nesta conversa, o retrato que nos descreve é sobretudo o da fragilidade.
Ele criou esse mito e chegou a ser chocante e muito provocador. Era judeu de origem russa e tinha esse um lado bastante eslavo que adorava a provocação. Mas depois de provocar e fazer escândalo, caía nele e pedia desculpa porque também era muito sentimental. Adorava fazer de palhaço e asneiras para as crianças se rirem. Havia nele um lado muito infantil que era encantador.

Fez uma longa carreira no cinema. A sua mãe, Judy Campbell, foi uma atriz famosa em Inglaterra. Esse mundo era-lhe natural?
A minha mãe era incrível e foi uma atriz de teatro absolutamente espetacular. Os meus pais nunca me julgaram, mesmo quando viram determinadas imagens de que não gostaram. Quando foi a estreia de “Blow-Up”, de Michelangelo Antonioni — o meu primeiro filme, onde fiz todo o tempo cenas de nu —, estava grávida da Kate e não pude ir a Cannes. Pedi à minha mãe para me ir ver, porque não sabia exatamente o que tinha feito. Quando ela regressou, disse-me: “É formidável. É como se fossem duas crianças a brincar dentro de uma piscina.” Encontrava sempre uma forma de ser doce.

Como é que aconteceu “Blow-Up”?
Estava a viajar com o mau pai em Itália e em Roma ficámos em casa de uma atriz que estava a participar no filme “The Agony and the Ecstasy”, com o Charlton Heston. Assisti às filmagens e perguntei-lhe se teria alguma hipótese de entrar no cinema: “Vai depender das câmaras se apaixonarem por ti ou não.” Quando regressámos a Londres pedi à minha mãe, que conhecia muito produtores de teatro, para entrar em audições e comecei a fazer teatro. Por essa altura, Antonioni andava à procura de uma rapariga e fui ao estúdio fazer um teste. Quando acabou, ouvi-o perguntar a um assistente em italiano: “Sabe chorar?” Era tudo o que queria saber. Deram-me um papel com o argumento, mandaram-me para casa dizendo para ler com atenção porque as minhas cenas eram todas de nu. Cheguei a casa e contei a John. Disse que eu não teria coragem de me expor. E então eu fiz o filme.

Numa entrevista referiu que os seus pais eram os seus heróis. Como é que a marcaram?
O meu pai era oficial da marinha e foi mesmo um herói na Segunda Guerra. Era um homem extraordinário, com um grande sentido cívico e moral. Muito nova, em Inglaterra ia com ele a manifestações contra a pena de morte e quando cheguei a Paris entrei em petições e em marchas a favor legalização do aborto.

Mais tarde dedicou grande parte do seu tempo a causas humanitárias.
Quando fui a Sarajevo perguntei à minha mãe o que devia levar para entregar às pessoas. Ela tinha tido essa experiência durante a guerra e tinha cantado para os soldados. Contou-me que tinha levado perfume. Perguntei-lhe porque não tinha levado comida, respondeu: “Quando não te resta mais nada é a moral que conta.”

FOTO CAROLE BELLAICHE

E o que levou para Sarajevo?
Livros, 30 vestidos de seda e batom. Quando entreguei os livros toda a gente ficou contente, mas quando comecei a distribuir os vestidos e o batom, foi incrível. Percebi que a minha mãe tinha razão. Dizia-me sempre: “Amanhã é outro dia”... Pensei muito nela quando perdi a minha filha.

Disse que sempre que ficava sozinha sentia-se infeliz e partia em viagem. Teve a coragem de o dizer em público, o que é muito bonito.
E quando não posso partir em viagem e estou em Paris, saio e vou ao cinema e ao teatro com amigos. Ontem à noite, por exemplo, fomos ver "Richard III", de Shakespeare. É verdade que depois regresso sozinha, mas é muito bom ter amigos. Quando fiquei doente e tinha de dormir no hospital por causa das transfusões de sangue, era muito duro estar sozinha. Então, a minha amiga Gabriele, deitava-se ao meu lado e dava-me a mão. Provavelmente salvou-me a vida.

Depois da morte de Kate, a sua família ficou mais próxima?
É tão pessoal... Não sei se conhece, ou se falou, com outras pessoas que passaram por isso. Também não sei como é que as outras pessoas reagem. A mim, o que aconteceu, foi ter vivido durante um ano em absoluto estado de choque. Só isso. Não conseguia sequer chorar. As pessoas falavam-me, eu respondia, mas não estava lá. Não podia ajudar nem as minhas filhas nem o meus netos. Não podia fazer nada. Charlotte partiu imediatamente para a América e levou os filhos. Fiquei em Paris com a Lou e depois começou a minha doença. É normal que o corpo reaja e achei que não iria sobreviver. Lou esteve muito comigo, levava-me aos hospitais. Depois salvaram-me e de repente percebi que poderia fazer tudo o que estivesse ao meu alcance para ajudar os outros. Durante dez anos, Kate lutou para construir um centro gratuito para jovens e salvou muitos rapazes e raparigas, viciados em drogas e em álcool. Agora também já consigo ajudá-los. Também espero vir a ser uma avó capaz, para os meus netos. A mais nova tem cinco anos, praticamente não a conheço... Sabe? Quando estou muito aflita vou ao cinema. Vejo filmes para me meter nas histórias dos outros. E então, quando nos metemos nas histórias dos outros e vemos um filme como “Manchester by the Sea”, podemos dizer: “Este rapaz conheceu coisas bem piores do que eu.”