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E 40 anos depois, Vargas Llosa falou sobre García Márquez. Mas omitiu o principal

Mário Vargas Llosa ganhou o Nobel da literatura em 2010, 28 anos depois de Gabriel García Márquez o receber em 1982

Susana Vera/reuters

Eram amigos, dos maiores, até um murro selar o fim do idílio. Ainda se especula sobre o que aconteceu. E continuará a especular-se, pois Vargas Llosa não se descai. Na passada quinta-feira aceitou falar de Gabo em Madrid, pela primeira vez em anos. Abordou a obra, a correspondência entre ambos, as afinidades literárias, as querelas políticas. Contou como se conheceram. Mas recusou contar como se separaram

A conversa não durou mais do que uma hora, mas essa hora não foi menos que histórica: era a primeira vez em anos que Mario Vargas Llosa falava publicamente sobre Gabriel García Márquez. Conduzido pelo ensaísta colombiano Carlos Granés — e no âmbito de um curso de verão organizado pela Universidade Complutense de Madrid — o Nobel peruano contou vários episódios da amizade entre ambos, menos aquilo que o mundo pagaria para saber.

“Voltou a ver a García Márquez?”, arriscou Granés quase no final. “Não, nunca...Estamos a entrar em terrenos perigosos, penso que é o momento de pôr um fim a esta conversa”, respondeu jocosamente Vargas Llosa, citado pelo jornal espanhol “El País”. Assim, as razões que em 1976 levaram à rutura entre ambos permaneceram submersas. E, como sempre acontece, esse silêncio cheio de interrogações acabou por marcar o encontro.

Mas houve algumas revelações. Como o momento exato em que o peruano tomou contacto pela primeira vez com a obra de Gabo. Vargas Llosa vivia já em Paris, onde tinha um programa de literatura na radiotelevisão francesa. E em 1966 chegou-lhe às mãos um livro pequeno chamado “Pas de lettre pour le coronel”. Era “Ninguém Escreve ao Coronel”, a novela rejeitada por várias editoras antes de ser publicada, e escrita sob sérias dificuldades económicas numa Paris que não estendeu a mão a García Márquez. “Gostei dela pelo seu realismo tão estrito, pela descrição precisa do velho coronel que continua a reclamar uma reforma que jamais irá chegar”, confessou Vargas Llosa.

Antes de se conhecerem pessoalmente em agosto 1967, os dois mantinham há meses uma sólida amizade epistolar. Escreviam-se regularmente e liam os livros um do outro, e até idealizaram um projeto comum, a quatro mãos, sobre a guerra de 1932 entre o Perú e a Colômbia. “Alguém nos pôs em contacto, não sei se fui o primeiro a escrever-lhe ou se foi ele, mas mantivemos uma correspondência bastante intensa através da qual ficamos amigos mesmo antes de nos vermos cara a cara”, contou Vargas Llosa. Isto ocorreu em Caracas, na entrega do Prémio Rómulo Gallegos ao peruano pelo seu romance “A Casa Verde”. E quando finalmente se encontraram “o contacto foi imediato, a simpatia recíproca e creio que ao sair de Caracas já éramos amigos. E quase, quase diria amigos íntimos.” De seguida viajaram para Lima, onde na universidade participaram de um colóquio — uma das poucas conversas públicas entre ambos — e onde Gabo e a sua mulher Mercedes Barcha se tornaram padrinhos de Gonzalo, o segundo filho de Vargas Llosa. Em breve, as duas famílias seriam vizinhas em Barcelona.

García Márquez e Vargas Llosa sempre se recusaram a falar sobre o fim da amizade, dizendo que deixam o apuramento da verdade nas mãos dos jornalistas e dos biógrafos

García Márquez e Vargas Llosa sempre se recusaram a falar sobre o fim da amizade, dizendo que deixam o apuramento da verdade nas mãos dos jornalistas e dos biógrafos

Foto REUTERS/Albert Gea

Admiração literária e distanciamento político

Quatro anos depois de Gabo publicar “Cem Anos de Solidão”, Vargas Llosa escreveu “Gabriel García Márquez: História de um Deicídio”, uma tese de doutoramento transformada em livro que é, até hoje, uma das mais relevantes análises da obra do colombiano. Aquele romance de Gabo simplesmente “deslumbrou” Vargas Llosa: “Mal cabei de a ler escrevi um artigo chamado ‘Amadis na América’. Pensei que por fim a América Latina tinha a sua grande novela de cavalaria em que prevalecia o elemento imaginário sem que desaparecesse o substrato real, histórico, social. Entre outras características, ‘Cem Anos de Solidão’ tinha o ‘abc’ de poucas obras primas, a capacidade de ser um livro atrativo para um leitor refinado, culto e exigente, mas também para um leitor absolutamente elementar que apenas capte o anedótico.”

Gabo leu “História de um Deicídio”. Disse a Vargas Llosa que encheu as margens de anotações e que lhe iria dar o livro. “Mas nunca mo deu”, revelou o peruano, contando de seguida as alianças literárias que lhes alimentavam as conversas. “Falávamos muito de Faulkner, do modo como nos pusera em contacto com a técnica moderna, com uma forma de narrar sem respeitar a cronologia, mudando os pontos de vista...O denominador comum entre nós foram essas leituras. Ele tivera uma grande influência de Virgínia Woolf, falava muito dela. Eu, de Sartre, que creio que García Márquez não tinha lido. Não se interessava muito pelos existencialistas franceses, que foram muito importantes na minha formação. Por Camus penso que sim, e ele tinha lido mais literatura anglo-saxónica do que eu”, contou Vargas Llosa.

Nem tudo, porém, foram elogios ao colombiano. Depois do “caso Padilla” — o poeta preso pelo regime cubano em 1971 sob a acusação de ser agente da CIA —, Gabo mudou de atitude em relação a Cuba. “Quando o conheci eu era o grande entusiasta da revolução cubana e ele muito pouco, adotando até uma posição trocista”, contou. Quando o poeta Heberto Padilla foi encarcerado, Vargas Llosa e outros escritores como Juan Goytisolo, [Josep Maria] Castellet, Hans Magnus Enzensberger e Plinio Apuleyo Mendoza redigiram em Barcelona uma carta de repúdio. “Essa carta foi assinada por muitos intelectuais. Plinio disse-nos para incluir o nome de García Márquez e nós comentamos que, para o fazer, teríamos de o consultar. Mas ele decidiu colocar o nome e, pelo que soube depois, García Márquez protestou energicamente. Depois de Padilla ser libertado, fizemos uma segunda carta e ele já não quis assinar. A partir daqui, a sua postura mudou totalmente: aproximou-se muito [de Cuba] e começou de novo a viajar e a aparecer em fotografias junto a Fidel Castro", relatou o Nobel peruano. "Creio que García Márquez tinha um sentido muito prático da vida e se deu conta de que era melhor para um escritor estar com Cuba do que contra Cuba.”

O fim é sempre o princípio

Se Gabo considerava “O Outono do Patriarca” a sua melhor obra, essa opinião não é de todo partilhada por Vargas Llosa. “Não gostei dela, pareceu-me uma caricatura de García Márquez, como se ali se imitasse a si mesmo. De todos os romances que escreveu, esse parece-me o mais fraco”, confessou. Por outro lado, o colombiano “não era um intelectual“: “Era enormemente divertido, contava piadas maravilhosamente bem, mas não era um intelectual. Funcionava mais como um poeta, à base da intuição e do instinto, e não estava em condições de explicar intelectualmente o enorme talento que tinha para escrever. Naqueles anos em que fomos tão amigos eu tinha sempre a sensação de que ele não era consciente das coisas mágicas, milagrosas que fazia ao compor as suas histórias.”
Como secamente respondeu a Carlos Granés, os dois Nobel não voltaram a encontrar-se. 1976 foi o ano da separação, sobre a qual poderia escrever-se um longo livro. O que se sabe por portas travessas é que tudo aconteceu na capital do México, no Palácio de Bellas Artes. O peruano estava num dos corredores e Gabo aproximou-se para o cumprimentar. Ao invés disso, recebeu um forte murro na cara, dado enquanto Vargas Llosa dizia: “Isto é pelo que fizeste à Patricia em Barcelona.” Aparentemente, Vargas Llosa estaria a atravessar uma crise no seu casamento com Patricia Llosa e esta escolheu os García Márquez como confidentes, provocando os ciúmes do marido.

Outra versão mais picante — apoiada por uma investigação do jornal "El Mundo" e também sugerida por Gerald Martin, biógrafo do colombiano — dá conta de uma viagem a Barcelona de Patricia Llosa, enquanto o marido participava num congresso. Carmen Balcells, agente dos dois Nobel, organizou um jantar e convidou diversas pessoas, entre as quais Gabo. Este ofereceu-se para, no dia seguinte, levar Patricia ao aeroporto de regresso a Lima. No caminho, enganou-se na estrada, pelo que ela acabou por perder o voo. García Márquez terá feito, no meio da confusão, uma piada que caiu mal. Que não importava que ela perdesse o avião, pois na mesma poderiam divertir-se. Desconhecemos o tom ou a intenção, mesmo as palavras exatas. E as variações desta versão são, como na biblioteca de Jorge Luís Borges Borges, infinitas. O que se sabe com cem por cento de certeza é que, questionado anos depois sobre se alguma vez perdeu um amigo, Gabo respondeu: “Sim, um.” Não custa muito adivinhar quem é.