Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

Rui Horta: “Só damos pelo corpo em situações extremas”

antónio pedro ferreira

Com muitos pudores, Rui Horta partilha a sua história e a da sua família. Diz que é um assunto que apenas interessa aos seus. Com resistência, lá fala do pai conservador mas que tinha fortes pegas com Salazar. Hoje, garante, o único poder que lhe interessa é ter opinião

Claudia Galhós (TEXTO) e antónio pedro ferreira (FOTOGRAFIAS)

“Todos nascemos com um destino por cumprir”, diz Rui Horta. Aos 60 anos, feitos no passado dia 20 de abril, o coreógrafo voltou a dançar, depois de três décadas ausente do palco, num solo que criou para ele, “Vespa”, no qual desafia os limites do próprio corpo. Já cumpriu muitos destinos, mas tem muitos outros por cumprir. As várias vidas que já viveu levaram-no a habitar cidades de outros mundos, como Nova Iorque, onde passou três anos quando ainda estava a estudar dança. É um dos nomes fundadores da Nova Dança Portuguesa, com uma carreira internacional que o levou a constituir família na Alemanha, onde esteve 10 anos — em 1990 é convidado a fundar a S.O.A.P Dance Theatre Frankfurt, companhia residente do Künstlerhaus Mousonturm e, de 1998 a 2000, instala-se em Munique, sendo coreógrafo residente do Muffathalle. Nesse mesmo ano regressa a Portugal, instalando-se com a família em Montemor-o-Novo, no Convento da Saudação, onde funda O Espaço do Tempo, um centro de residências artísticas, em parte subsidiado pelo que o próprio ganhava como Artista Associado da Maison de la Culture, de Bourges (até 2002). Ainda hoje, no “Oxford Dictionary of Dance”, consta como coreógrafo e bailarino luso-germânico. Numa das últimas críticas publicadas na Alemanha, sobre a dança que faz, lia-se: “O trabalho de Rui Horta é como um carro alemão, um BMW ou um Mercedes, polido, perfeito como máquina, mas o condutor é um selvagem do sul”.

Para a criação da sua última peça [o solo “Vespa”, onde volta a dançar depois de 30 anos sem subir ao palco e que se estreou a 20 de abril, dia em que celebrou 60 anos], usa a expressão “serial killer” afirmando que, com esta obra, finalmente encontramos o “serial killer”. O que significa isto?
Esse era para ser o título da peça. Acho que os criadores se escondem normalmente atrás das obras. Estas, obviamente, são registos muito pessoais, mas as que considero mais interessantes não são autorreferenciais, não são acerca desses mesmos criadores, tratam os grandes temas da humanidade, nomeadamente a relação com o outro, a alteridade, a complexidade das relações humanas. Pensando no ‘serial killer’, por exemplo o “Zodiac”, este mata 15 pessoas do mesmo modo, com um mesmo estilo, sempre com a mesma assinatura. O que acontece normalmente é conhecermos os crimes e procurarmos descobrir o criminoso. Durante anos, há uma espécie de retrato-robô, há todo um jogo, e ficamos presos a esse mistério. De algum modo, sendo o voyeurismo uma característica essencial da perceção da arte, há sempre uma curiosidade, um desejo de assistir a algo que talvez não devesses estar a ver, que até está próximo do proibido. O voyeurismo está sempre presente. No meu caso também, porque surjo em palco com uma longa história. Nesse sentido acho que é parecido pois há uma altura em que o criminoso é descoberto. Nesse momento damo-nos conta de quem está por trás dos crimes. Obviamente não estou a dizer que uma obra artística é um ato criminoso, mas há sempre uma qualidade de agitação numa obra de arte, é sempre disruptiva, introduz desestabilização. É nessa arte que acredito. Nesse sentido, encontro paralelos interessantes. No meu caso é isto: há um momento em que me entrego. Essa entrega, que é total, dá-se no solo. Já fiz tanto e entrego-me.

Mas sempre na recusa da autobiografia.
Isso é muito importante. Podem ver como sou, mas não me interessa que me vejam a ser o Rui. Estou a falar do mundo, estou a falar de uma pessoa que larga uma carapaça, estou a falar da libertação de constrangimentos decorrentes de situações de vida em que não temos coragem de avançar, das coisas não ditas que cada um guarda para si, e estou a lançar ideias para um futuro a partir daquilo que está dentro da minha cabeça, que traduz o que cada um tem a ocupar-lhe a cabeça. Esse aspeto é muito mais importante do que pensamos. Não interessa falar do mundo do Rui Horta, do meu mundo, das minhas experiências, acho que isso não interessa ao público. Mas, claro, como me dizia o Miguel Seabra, não me posso dissociar do facto de que sou eu e o meu corpo que as pessoas vão ver, que é uma pessoa com uma longa história. Ele usou mesmo a palavra “monumento”, que é uma palavra estranha, porque não me sinto nada isso.

“Vespa” é uma peça com muito movimento para um corpo com 60 anos.
Acho que muitas pessoas imaginaram que iria criar um espetáculo em jeito de conferência ou algo do género, mas não. É uma peça de corpo, no limite, no fio da navalha. Cada dia que faço, dói-me uma parte diferente do corpo, ou é as costas, ou é o joelho, ou é um ombro... e quero que seja assim. Não acredito que haja outra maneira de o fazer.

Há dez anos, precisamente, usava a imagem de ‘doença viral’ para definir o início de uma nova criação, a entrada em estúdio como um processo de ‘terapia’, e a ‘cura’ acontecia na estreia.
E infetas-te logo no dia a seguir.

Essa imagem está de acordo com um discurso que tem sobre a relação quotidiana com o corpo — e as artes, e a dança contemporânea em particular, também fazem isso — de que tem consciência de si quando está doente.
Ou quando desaparece.

Aqui o vírus não infeta outros, que são os intérpretes, fica no seu próprio corpo. Este facto altera a problematização do corpo e a sua relação com o corpo?
Provavelmente estou a exorcizar alguma coisa com esta peça e talvez me esteja a tratar. No fundo, nós, criadores, somos todos um pouco doentes, só que a nossa forma de pôr fora é uma catarse contínua, um constante limpar que depois retorna. É um poço sem fundo, em que tudo está ali em potência por resolver. Todos temos questões por resolver, mas acho que os criadores têm ainda mais. Têm um grito gigantesco. O Kundera, em “O Livro dos Amores Risíveis”, dizia isso mesmo: há pessoas que precisam de ser amadas por um único outro significante, há pessoas que precisam de ser amadas por um núcleo mais abrangente, que hoje em dia talvez corresponda aos amigos do Facebook, mas antes eram talvez as pessoas que organizavam festas, em que ainda há necessidade de saber quem são, conhecer-lhes o rosto. Isso dá umas cerca de 200 ou 300 pessoas. Depois, há os artistas que têm um buraco tão grande que precisam de ser amados pelo mundo inteiro e, portanto, precisam de um público anónimo. Quantos mais melhor. Isto traduz um estado de desequilíbrio, obviamente. Acho que todos temos um estado de desequilíbrio, todos temos falta de amor. O Kundera toca num aspeto vital, mas eu nunca senti isso, essa necessidade de ir para o palco e expor-me e, a cada noite, ter uma faceta narcísica minha que é tratada. Mas como criador tenho isso, de algum modo. Todos gostamos de ser reconhecidos pelo nosso trabalho, e isso é amor. Acho é que as relações que estabelecemos quando criamos uma obra são de uma complexidade gigantesca e mesmo nós, que as fazemos, só conseguimos descortinar algumas. Há outras pessoas que vêm ver a obra e veem coisas que nós não vimos.

A sua noção de corpo tem que ver com a ideia do corpo neuromotor, sobre o qual trabalha há muito tempo. Esta peça começa precisamente pela cabeça. O que temos dentro da cabeça, que é uma forte imagem do seu trabalho, depois profundamente ligada a um corpo que tem uma expressividade física marcante. Revisitando esta ideia do corpo psicocinético neuromotor de que sempre falou, diria que ele reaparece nesta peça como uma síntese. Concorda?
O corpo humano é um fenómeno de uma riqueza estonteante. É um universo neuromotor, ligado por fios, complexo, orgânico, é um grande recetor de tudo o que se passa à sua volta, e é ainda um grande emissor. Acho que a história da nossa presença neste planeta tem que ver com o termos sido capazes de nos distanciar da condição de ser que sobrevive. Ao transcender essa condição de sobrevivência, começou um caminho que termina na ciência e na arte hoje. Esse é o caminho da curiosidade. Isto é de uma complexidade enorme. Neste longo caminho do conhecimento, no último século tornámo-nos mais descorporizados, estamos mais mentais. Somos cada vez mais seres cerebrais, mas o corpo esta lá como um território de natura e não apenas de cultura. É uma espécie de último resíduo de natureza que resiste nas nossas cidades, quando tudo em redor é cimento, aço, etc... Nesse sentido, torna-se muito importante, em interação com o seu ambiente ganha maior complexidade, num misto de natura e cultura. Esta complexidade sempre me fascinou. Um coreógrafo atua sobre um corpo com todas as suas qualidades. Um médico atua sobre um corpo doente, sobre um corpo ausente da sua funcionalidade. O coreógrafo trabalha quase sobre uma hiperfuncionalidade do corpo, ele leva aos últimos pormenores esta capacidade de traduzir o mundo com este corpo em movimento. Isto é uma linguagem e serve para comunicar. Acho que esta profissão é muito interessante hoje e mais ainda numa altura em que o corpo se apagou bastante. Temos uma grande síndrome do corpo na sociedade em que vivemos, ele está presente mas é muito extremado. É um corpo esquecido ou então hipersexualizado, hiperatlético. É um corpo que se ausenta durante quase todo o ano mas depois expõe-se na praia de uma forma gigantesca. Uns meses antes, as pessoas entram em crise a tentar perder peso para se exporem. Ao mesmo tempo, é um corpo que lida de forma quase assética consigo próprio, controlado por análises e exames para tudo, com uma obsessão de não adoecer. Mas na verdade só damos por ele em situações extremas, na sexualidade, ou quando o perdemos. No dia a dia é um corpo escondido, ausente, não é um corpo necessário para a tua sobrevivência, não negoceias todos os dias a tua sobrevivência utilizando o corpo, não tens de ir a pé para a escola, não tens de ir buscar água a um poço, não tens de ir à caça, não tens de lavrar a terra... É um corpo que se ausentou destes rituais, continua a ser muito complexo e continua a ser, ao nível do organismo, o mesmo de há 10/20 mil anos. Este corpo não se alterou muito, não se alterou o organismo, alterou-se o mecanismo. Se for operado a uma apendicite agora teria sondas e máquinas ligadas. O meu pai, se fosse operado ao mesmo há 50 anos, que teria um corpo muito parecido com o meu, mesmo do ponto de vista genético, seria numa sala de operações com uma lâmpada e um bisturi. O que mudou não foi esse corpo na marquesa, o que mudou foi todo o mecanismo à sua volta. Esta é uma das grandes proezas hoje, tentar entrar na parte neurológica e no cérebro. Tentar perceber as potencialidades do cérebro. Nos próximos anos, isto vai ser um grande dilema ético e uma grande zona de pesquisa.

antónio pedro ferreira

Sempre afirmou que é fruto da geração da revolução, mas nasceu numa família burguesa, com grande acesso à cultura, o seu pai assinava a revista “L’Avant Scène”, tinha acesso a livros... mas o comportamento era formatado... Quando afirmou no passado que o 25 de Abril liberta o corpo, o que se liberta é um corpo condicionado pela política e pela educação que teve dos seus pais, não é?
Eu e os meus irmãos vivemos, até ao 25 de Abril, numa espécie de esquizofrenia saudável. Ou seja, durante o ano, na altura dos estudos, éramos formatados, por uma escola — o Liceu Camões —, ao mesmo tempo quando chegava a casa tinha um ambiente intelectual muito forte. Apesar de haver muita abertura intelectual, estamos a falar de uma família antes do 25 de Abril, era um espaço relativamente fechado, apesar de filhos de professores universitários. Mas quando chegava o verão, não havia fronteiras. Por isso digo que é uma espécie de esquizofrenia saudável. A selvajaria do verão salvou as nossas almas. De repente explodes e podes reequilibrar tudo. Vivíamos neste ritmo saudável, com uns dois ou três meses de verão soltos e depois mais condicionados no inverno. O 25 de Abril faz uma coisa extraordinária a este país: de repente, em 24 horas, passámos para o outro lado, as pessoas abraçam-se, as pessoas fazem a festa, as pessoas estão na rua, juntam-se, as pessoas manifestam-se, há uma explosão social e há um projeto de país. Naqueles dias, o país está unido e tem um projeto de sociedade. Obviamente que nos meses seguintes surgiram as visões opostas do que seria o futuro para Portugal. Vivi todo esse processo com muita intensidade. Sou mesmo um filho do 25 de Abril. O que é que se liberta? Liberta-se o corpo por via da libertação mental. Ou seja, de repente a sociedade abriu-se toda, a mente abriu-se e tudo era possível. Era um big bang muito grande. Se há coisa que tenho pena no big bang é que é um processo de perpétuo arrefecimento. Depois do big bang, o universo expande-se e arrefece. Penso que foi o que aconteceu na democracia portuguesa nos últimos 43 anos. Acho que nos temos de reinventar. Esta é a altura, no outro dia falava com a Maria [Manuel Mota], a minha companheira, que me dizia: “Rui esta é a altura de sermos novamente verdadeiramente modernistas”, no sentido de desafiarmos o pensamento e desafiarmos o status e sermos capazes de quebrar com tudo. Hoje Portugal precisa desesperadamente disso. Portugal é muito formatado, com uma classe política muito formatada, uma educação profundamente formatada. Num tempo em que a criatividade e a inovação são essenciais, a escola é, salvo raras exceções, essencialmente um rolo compressor para demolir a criatividade.

Portanto, defende que seria necessário outro big bang hoje?
Quando digo que é preciso outro big bang ou um questionar disto tudo é porque Portugal não pode estar continuamente à espera, não pode ser reativo, tem de ser proativo. Por exemplo, uma das grandes riquezas que tem hoje é o turismo, mas não fez muito para isso. É um país com um clima abençoado, com a maior costa selvagem do sul da Europa, sem fenómenos climáticos extremos, uma diversidade ambiental única, com uma gastronomia fantástica. Finalmente, estás a criar um destino turístico de grande qualidade, a tirar proveito das qualidades do país e, felizmente, a gerar muito emprego. Mas, depois, está a pensar-se explorar o petróleo, o que vai minar os alicerces da indústria hoteleira, que ainda nem sequer acordou para este problema. Isto pensando apenas no turismo, porque há questões mais importantes, que são: o petróleo é uma energia do passado, o principal responsável pelo aquecimento global; precisamos de energias limpas de transição, onde Portugal já é pioneiro; e temos uma ministra do Mar que anda a vender o nosso mar a toda a gente que queira cá vir buscar um bocado. No entanto, o turismo continua alegremente a vender um destino de excelência ambiental, enquanto planeamos tornar-nos numa potência petrolífera, sabendo-se perfeitamente que qualquer economia vive de expectativas e no caso do turismo ainda mais.

A luta contra a exploração petrolífera é uma das suas últimas batalhas. Já fez parte de vários movimentos de contestação, de mobilização da sociedade civil, dentro e fora do campo artístico. Quando é que essa consciência cívica e importância de agir despertou em si?
Às vezes perguntam-me do que mais me orgulho e nunca refiro qualquer obra, mas sim o ter levado a exame de geometria descritiva um grupo de alunos deficientes das Forças Armadas para fazer o que agora corresponde ao 12º ano, que era o 7º ano do liceu na altura. Quando se dá o 25 de Abril, eu estava a dar explicações de geometria descritiva, três a quatro vezes por semana, a um grupo que se queria valorizar. Passaram todos... Estive completamente implicado na revolução, mesmo politicamente, era militante convicto da extrema-esquerda. Ou seja, fiz a revolução como um jovem de 17 anos faz e o resto imagine quem quiser, porque sou muito discreto nessas coisas... Hoje questiono-me se estive do lado certo da história, mas sei que estive do lado certo de quem era na altura e do que acreditava na altura. Tudo isto me tem levantado muitas questões, porque quando és muito jovem, como diz a Yourcenar no livro “Memórias de Adriano”, “aos 17 anos, o excesso é uma virtude”. Na altura fiz o que tinha de fazer sem me questionar muito. Acho que a partir do momento em que tens uma visão militante, já não a deixas pela vida toda.

Essa atitude militante atravessa também a sua relação com a dança. O estúdio de dança que abre nos Bombeiros Voluntários Lisbonenses, nos anos 80, e que partilha com a comunidade é um exemplo. A criação do Espaço do Tempo, em Montemor-o-Novo, que funda em 2000, no regresso a Portugal, depois de 10 anos na Alemanha, como um espaço de residências artísticas para portugueses e estrangeiros, no Convento da Saudação, é apenas outro exemplo...
Sempre tentei praticar a máxima de que se tenho que chegue, partilho o resto. É isso que é O Espaço do Tempo. É dar de volta aquilo que me foi dado na Alemanha e acreditar profundamente que Portugal precisa realmente de uma incubadora, um centro de residências para artistas e um espaço de retaguarda. A minha vida é isso. Portanto, é normal que agora esteja também na luta contra a exploração do petróleo e do gás natural, porque acho que cada um pode ter um papel militante na vida. Qualquer pessoa, se quer que o país mude, tem de pensar que quando acaba o seu dia de trabalho, tem de pôr alguma dedicação pro bono... E pode ser muita coisa. Tocar uma hora numa banda filarmónica é uma ação militante. Se saíres três vezes por semana para tocar numa fanfarra com outras pessoas, estás a dar um passo muito importante na vida da sociedade, porque contribuis para a criação de um movimento associativo com pujança. Conheço um médico que oferece horas extra de banco, e é um grande nome, simplesmente porque acha que tem de fazer algo mais. Temos de nos envolver. Esse é o grande paradigma da esquerda. Sou um homem de esquerda, com todo o orgulho, mas não sou alinhado politicamente com nenhum partido. E hoje em dia acho que um dos grande problemas da esquerda é o facto de continuar centrada nas questões do Estado e das instituições do Estado. Na minha opinião, o grande território da esquerda é o da solidariedade e da precariedade laboral, bem como o da capacidade de repensar o país de uma forma ousada.

O reclamar de um novo conceito de solidariedade vem de trás. Fez parte dos signatários de uma petição — entre muitas outras —, em 2014, que propunha um compromisso com a ciência, a cultura e a educação em Portugal, que assentava sobre a proposta de um novo conceito de solidariedade.
A ciência, a cultura e a educação são os fatores centrais de investimento no futuro do país. Quem dá dinheiro para a arte e para a ciência está a financiar os dois grandes faróis para entrarmos no futuro. A arte e a ciência são os sistemas de descodificação do futuro. Esta é uma frase do André Teodósio. Quando os políticos que estão no poder percebem isto, o mundo pula e avança. Vivo com uma cientista, portanto tenho acesso quotidiano a esta aliança.

O seu núcleo afetivo atual é a concretização dessa máxima, na escala mais íntima da união de duas pessoas.
Tenho algum acesso a esse mundo e é fascinante. Sempre fui muito curioso disto. A metodologia da arte e da ciência não são assim tão diferentes. O mesmo posso dizer relativamente à noção de laboratório na arte e na ciência, a noção de experimentação... No entanto, há anos-luz de diferença na importância que a sociedade portuguesa e a classe política conferem à ciência e à cultura. A ciência faz parte do discurso político desde há mais de 20 anos, e com os brilhantes resultados que sabemos, enquanto que a cultura sempre foi vista pelo poder como um ornamento, traduzido em apoios irrisórios.

Também viveu essa união enquanto criança, numa família de pais com alto conhecimento científico, médicos, acompanhado de uma clara valorização da cultura. As revistas de teatro francesas que o seu pai [Jorge Augusto da Silva Horta] assinava são a porta para pensar a dança?
Ainda tenho essas revistas, com as fotografias a preto e branco, que herdei do meu pai. Aquelas figurinhas fascinavam-me. A movimentação delas, mais a leitura, em francês, muito cedo me apercebi de que gostava desse cenário, de ter uma visão mais coreográfica se calhar, mais organizativa. No fundo, a coreografia é a organização do movimento. Não é o movimento puro, é o movimento organizado. Construía, desconstruía e organizava outra vez. Cresci numa constelação familiar grande, onde todos fomos muito autónomos, cada um com alguma capacidade de liderança. Assistimos a pais que eram líderes eles próprios. Arriscar é normal. Passávamos os dias sozinhos porque os pais trabalhavam o dia todo, isso era normal. Entre nós encontrávamos constelações de amizade e de solidariedade, apoiávamo-nos uns aos outros. Isto também forma. Acho que fomos muito mais formados na esfera familiar. As famílias são muito importantes.

Curiosamente fala com muitos pudores sobre os seus pais e, no entanto, além de reconhecer a importância da formação da personalidade no contexto familiar, também acontece que eles eram especialistas em patologia e anatomia patológica. Toda esta reflexão sobre o corpo, de que fala muitas vezes, não tem raízes já aí?
Tive a sorte de ter pais excecionais. O meu pai era um médico extraordinário. Eram ambos excelentes médicos, excelentes professores universitários e ambos investigadores. O ambiente naquela casa, quando eles estavam, era um a falar com o outro. Cheguei a ouvir descrições de autópsias à mesa. Não é fácil. Mas era muito interessante porque crescemos com calhamaços de livros sobre o corpo e livros de anatomia patológica. Quando fui estudar educação física, lembro-me de ir buscar o “Grande Atlas de Anatomia Humana”, que naturalmente o meu pai tinha em casa e eu já tinha lido anos antes e com a leveza da juventude. Sim, o corpo esteve sempre muito presente, um corpo diferente.

É interessante haver esta especialidade da perspetiva da patologia.
Sim. Acho que isso está muito presente, nenhum de nós quis ir para médico porque provavelmente todos nos apercebemos de que era muito trabalhoso. Eu não fui por isso, porque não ia aguentar dar 15 anos da minha vida à formação e só depois começar a exercer. Mas nunca sabes até que ponto isso te influencia. Influenciou, e muito. Aliás, desde logo no pensamento analítico que tenho muitas vezes. Sou um tipo muito emocional, tipicamente do sul. Mas também sou muito racional. A minha cabeça às vezes até me entope um pouco, penso de mais nas coisas.

Voltamos ao mais recente solo: não é por acaso que começa com tudo o que ocupa a cabeça.
Exatamente. Mas, sim, tive uma sorte impressionante de ter a família que tive antes do 25 de Abril. Sim, a minha irmã Rosário tinha o quarto dela forrado de livros comunistas, desde Lenine a Karl Marx, de Engels, Rosa Luxemburgo, etc. A minha família tinha tudo lá dentro: um pai conservador, mas que detestava o regime. Era uma família com todas as cores. Tudo era possível ali. Acho que a PIDE não foi lá a casa porque o meu pai era bastonário da Ordem dos Médicos e isso deve ter gerado algum respeito, mas ele não era alinhado, detestava o Salazar. Aliás, teve imensas pegas com o Salazar. O meu pai está na origem de vários avanços interessantes, um deles foi a questão das enfermeiras poderem casar, no início dos anos 60. Ele abriu a primeira sala de alunos na Faculdade de Medicina de Lisboa. Quando se dão as revoluções dos movimentos estudantis em 62 ficou bastante queimado, porque aconteceu muita coisa ali e que só foi possível por ele ter aberto esse espaço, tendo inclusivamente feito greve ao lado dos alunos. Era um homem que nunca se calava: era conhecido por afixar os nomes dos alunos com cunhas e quem as pedia... Tinha a perfeita noção de, como ele dizia, os políticos serem uns “gebos”. Era essa a palavra que usava para apelidar os homens do Estado Novo. Era um tipo conservador, mas muito íntegro, com uma intelectualidade extrema, sobretudo de cultura francesa.

antónio pedro ferreira

Ele partilhava consigo essa cultura?
Desde muito cedo, e durante a minha juventude, li livros com o meu pai. Desde Sartre, Camus, Saint-Exupéry, Balzac... Muita poesia. Sempre com predomínio da literatura francesa. Lemos o “Perfume”, do Süskind, ao mesmo tempo. Ele lia um pedaço, eu lia outro... Toda a nossa educação esteve muito próxima da cultura francesa, que era então a cultura da intelectualidade.

Portanto, na família e na infância está muita da resposta para compreender qualquer pessoa?
O edifício familiar é o mais importante de todos. São as primeira pedras usadas para construir um ser humano. Tudo começa no momento em que a criança nasce, desde que é levantada do berço, no modo como lhe é dado de mamar, como lhe é dado colo... na relação quase simbiótica da mãe com a criança. O afeto é desde aqui fundamental. Todas essas peças vão-se pondo em marcha no desenvolvimento da criança e está tudo decidido ainda na fase pré-cognitiva. Portanto, pensando uma revolução em Portugal, a relação dos pais com os filhos é essencial, porque quase tudo se define até aos dois anos. Importa criar um edifício confiável, porque o que estás a dizer a um novo ser humano é: vai e experimenta, tu consegues. “Yes, you can.” A partir daí a criança não tem medos e vai viver um mundo de aventuras. Se começares a formatar, se começares a apontar todos os erros à partida, se começares a limitar, a não lhe ligar nenhuma, se começares a desvincular-te... essa falta de vinculação vai criar seres humanos muito imperfeitos, sempre com um peso nas pernas, incapazes de fazer uma corrida de fundo.

Incapazes de dançar?
Talvez. Provavelmente não irá atingir plenamente o seu potencial. Sabemos isto há muitos anos, desde o Piaget, e mesmo antes. Os principais fundamentos de qualquer ser humano são psicomotores. Não há motricidade sem dimensão psicológica e o mesmo vale para o oposto. Se não tens o desenvolvimento equilibrado, uma relação de afetos justa, aquele ser humano nunca se vai cumprir. E se houver um movimento oposto, de violência familiar, de gritos e berros, esse ser humano está desfeito. Hoje, a nossa responsabilidade enquanto cidadãos é olhar para o país começando pelo princípio, pelos primeiros anos da vida.

Mas se isso é tão claro para si, porque tem tanto pudor em falar da sua infância?
Isso interessa a poucos. Apenas a mim e à minha família.

Pelo contrário. O que acabou de defender indica que quem é hoje está profundamente vinculado a esses anos formativos. Por isso importa conhecer a sua infância.
Então estamos a falar de uma família intelectual burguesa antes do 25 de Abril. Somos oito irmãos de dois casamentos, três do primeiro e cinco do segundo.

A sua mãe, para a época, não é uma mulher comum.
É uma mulher de província repescada para um nível intelectual que ela nunca sonhou. Uma mulher de uma gigantesca sensibilidade, de uma enorme generosidade. Sou produto de uma família profundamente feliz. Não quer dizer que não houvesse tensões, e havia, mas a minha infância e dos meus irmãos é recheada de momentos maravilhosos. Olhamos para trás com uma grande candura, mesmo que com momentos disruptivos pelo meio, como em qualquer família. Uma constelação com oito jovens, embora devido à grande diferença de idades — 30 anos entre o mais novo e o mais velho — não chegámos a estar todos em casa. Às vezes havia um que acordava a meio da noite aos berros, a chamar pelo pai. Mas estavam sempre primos e amigos. Era uma casa grande e sempre cheia. Quando és miúdo, num contexto destes, consideras-te um super-herói. Consegues fazer tudo. Essa atitude é muito importante num jovem. É disso que me interessa falar hoje em dia em Portugal: temos de criar pessoas confiantes e que sejam confiáveis.

Em 2012 organizou um conjunto de conversas a que deu o título de “Sinais de Fumo”. Em 2014, o mesmo programa — e no prefácio do livro editado indicava que a situação se tinha complicado — ganhou o nome de “Sinais de Fogo”. Hoje, o que faria?
Hoje faria aquilo que vou fazer, que são as próximas conferências, que estou a preparar: “Temos e não sabemos”.

Ainda temos? Porque com os “Sinais de Fogo” afirma que muito já ardeu.
O “Sinais de Fogo” representava o nível máximo de alerta. Foi um grito: acordem. Hoje sinto que o país já ardeu em muita coisa, e tivemos um braindrain com uma geração de pensadores e profissionais qualificadíssimos que saiu para o estrangeiro desenfreadamente. Hoje, onde temos de pôr o nosso pensamento e a nossa ação é na descoberta das oportunidades que este país tem. Importa olhar para a frente, para o que temos e nem sabemos que temos, porque temos uma venda à frente dos olhos que se chama ignorância.

Já se zangou várias vezes com o país, como se encontra atualmente na relação com o seu país?
Este país tem tudo para ser dos mais ricos da Europa: para além do património natural, pode ser uma placa giratória para o futuro. A posição geoestratégica é ideal: protege-nos dos conflitos que, historicamente, vieram do leste e, simultaneamente, temos uma relação direta com o Atlântico e o mundo, apoiada num idioma falado por mais de 300 milhões de pessoas. Mas falta-nos lutar contra a desigualdade e valorizar o capital humano, algo que não acontece. E, sim, tenho denunciado isso. Sinto-me desvinculado de qualquer obrigação de prestar vassalagem. Fazer as reformas certas em tempos de deslumbramento não será fácil.

Mas há alguma expectativa que venha a assumir algum cargo institucional ou político, não sente esse apelo?
O único poder que me interessa é ter opinião.

Afirma que todas as pessoas nascem com uma promessa por cumprir. Quantas promessas já cumpriu e que promessas lhe falta cumprir?
Já cumpri muitas. Mas tenho muitas por cumprir, e muito em particular, dançar este solo que acabei de estrear. Tenho também várias viagens por fazer. Mas sobretudo coisas simples e que me dariam grande gozo, tal como ser assistente de câmara de um filme da minha filha Stella, ou partilhar o design de um novo produto do Lourenço, ser diretor técnico dos concertos que a Joana está a fazer. Gostava de ser um backup para as aventuras dos meus filhos. Para mim, isto é muito importante, continuar a partilhar a viagem, mas a viagem é deles. Um pai está sempre na sombra, tens de te apagar, só estás lá quando é preciso. Acho que esse é o maior exercício de humildade que existe, porque te obriga a revisitar a tua própria infância, faz-te questionar o teu modelo e não replicar o que está errado naqueles que puseste no mundo. Sobretudo, reduz-te ao papel de sombra permanente. Podes ajudar a iluminar o caminho, mas a luz agora é deles.