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Mulheres do Novo Mundo

Niamh Walsh interpreta Verity. A atriz irlandesa é uma das protagonistas de “Jamestown”

Havia passado mais de uma década desde que ali chegaram e a recompensa tardava. Tinham desbravado terreno, construído uma sociedade e estabelecido aquele que seria o início de um novo mundo — e mereciam algo em troca. Mas Inglaterra ainda não tinha aberto os cordões à bolsa. Os colonos, responsáveis por levar a coroa para o outro lado do Atlântico, estavam a mais de 3000 milhas da terra natal. Jamestown seria a sua terra e teriam de viver com isso.

Os pioneiros, levados para aquele que parecia ser o limite do mundo, deram vida à primeira colónia britânica da inóspita América prestes a ser colonizada. Queriam terras e mulheres, mas até então ainda não haviam recebido qualquer gratificação. Os terrenos que cultivavam não eram seus e não havia qualquer presença feminina na colónia. Para que aquele lugar prosperasse, era necessário que a situação mudasse e que a mudança se desse tão rápido quanto possível. Estava prestes a acontecer e “Jamestown” é a série que relata esses dias.

Para Bill Gallagher, a entrada neste Novo Mundo aconteceu pelas mãos dos produtores da Carnival — que o desafiaram para a criação de uma série sobre os primeiros anos da América colonial — e o argumentista não descansou enquanto não encontrou uma ideia original para responder ao desafio. “Depois de fazer algumas pesquisas, encontrei uma passagem que me despertou a atenção”, explica, em declarações enviadas ao Expresso. O ano era o de 1619 e o documento “falava de um navio enviado para a Colónia de Jamestown, habitada apenas por homens, com 100 mulheres a bordo”. Eram “donzelas para fazer noivas”.

O argumentista e produtor-executivo de “Jamestown” sentiu que esta era uma história que merecia ser contada e começou a desenvolvê-la. “Fiquei curioso sobre o que aconteceu com aquelas mulheres, e fiquei fascinado com as dificuldades físicas e psicológicas que aqueles homens devem ter suportado durante os 12 anos que sobreviveram desde a criação da colónia.” Já totalmente tomado pela perspetiva de construir uma narrativa em torno destes dados históricos, Gallagher começou a pensar em como podia transformar a realidade numa série de televisão.

Rapidamente percebeu qual seria a forma, mas primeiro ainda havia trabalho a fazer. “Precisava de saber mais sobre este período, raramente documentado, da nossa história partilhada”, admite. No meio das dúvidas que assolam um autor durante o processo de criação, o responsável pelo guião já tinha pelo menos uma certeza. Estava perante “uma perspetiva fascinante para uma narrativa”: “chegar a um mundo que é povoado por homens e vê-lo pelo olhar das mulheres”. Jocelyn (Naomi Battrick), Alice (Sophie Rundle) e Verity (Niamh Walsh) viriam a ser essas mulheres.

Juntando os seus dois tipos de dramas favoritos — as tragédias jacobinas e os westerns —, Gallagher promete que “Jamestown” também reúne os melhores ingredientes das séries contemporâneas. Há envenenamentos, traições políticas e “todas as maquinações próprias de um drama jacobino”, numa série com uma grande componente visual, que também não esquece alguns dos temas mais debatidos da atualidade. “Muitos dos assuntos que abordamos, como o papel das mulheres, a corrupção do poder ou a apropriação cultural, são bastante pertinentes e relevantes”, defende, mostrando-se confiante com o sucesso da série.

CONSTRUIR UMA COLÓNIA

As gravações de uma série de época como “Jamestown” foram outro dos desafios da equipa, que tinha de recriar a Virginia do início do século XVII em pleno século XXI. Depois de procurarem diversas localizações para as filmagens — nos Estados Unidos seria demasiado caro, no Canadá o tempo seria instável e na África do Sul a taxa de câmbio podia não ser muito favorável —, a produção encontrou o lugar que viria a tornar-se Jamestown. A série acabou por ser filmada na Europa, com a Hungria a tornar-se a casa da produção da londrina Carnival Films para a Sky (no Reino Unido) e para a NBC Universal International.

A colónia inglesa tomou forma perto de Budapeste — com exceção feita às filmagens da dura travessia atlântica de dois meses, gravada na costa espanhola, junto a Cádis — e contou com o designer dos cenários de “Downton Abbey” na equipa. Donal Woods foi o responsável por fazer de um terreno sem vida o lugar em que tudo acontecia. Jamestown representava o nascimento de um Novo Mundo e foi com isso em mente que a produção criou um estúdio 3600 para as filmagens. Construído como se de uma vila verdadeira se tratasse, o set de filmagens era um complexo único, com o interior e o exterior das casas a comunicarem diretamente entre si. Assim, as personagens puderam percorrer os vários espaços da Jamestown ficcional como se fosse uma localidade real, permitindo aos realizadores filmarem sequências maiores sem quaisquer cortes.

O desafio de recriar o início do século XVII não terminou no interior de Jamestown e a necessidade de dar vida ao lugar alastrou também à fauna e à flora. A título de exemplo, as gravações de “Jamestown” implicaram a importação de porcos (de uma raça específica, que não existia na Hungria) e também a plantação de tabaco. Era essa a principal atividade económica da altura na região recém-ocupada e a produção quis manter-se fiel ao guião. Foi concedida uma autorização especial e as plantas cresceram no decorrer das filmagens, mas no final acabaram incineradas (uma vez que a autorização de cultivo não visava a venda do produto).

Quanto à escolha do elenco, este também tinha algumas especificidades e a produção optou por não correr riscos. No decorrer da história, os colonos britânicos não estão sozinhos e foi na escolha dos atores que interpretariam nativos americanos que foi necessário ter cuidados redobrados. De acordo com as informações disponibilizadas pela produção, a escolha desta parte do elenco foi feita nos Estados Unidos pelas mesmas agências que escolheram os atores de “The Revenant: O Renascido” (protagonizado por Leonardo DiCaprio e vencedor de três Óscares da Academia) e que se especializaram em filmes de época.

A série de oito episódios tem estreia marcada para a próxima segunda-feira. O primeiro episódio é exibido na FOX Life pelas 22h20, horário que o canal pretende manter para a exibição dos capítulos seguintes. “Jamestown”, a mais recente criação do produtores de “Downton Abbey” e do escritor Bill Gallagher, já foi renovada para uma segunda leva de episódios, ainda antes da estreia. O argumento da nova temporada e a data de estreia ainda não são conhecidos.