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Confissões de uma mutante

foto Guilherme Samora

Nas vésperas de completar 70 anos, Rita Lee lança uma autobiografia em Portugal pela Contraponto em que revela bastidores cáusticos do mundo da música, experiências com drogas e dramas pessoais de recuperação de traumas como uma violação

Plínio Fraga, no Rio de Janeiro

A Mutante tornou-se zen. Virou meditante, definiu-se a cantora e compositora Rita Lee Jones, 69 anos. Os pais — de origem italiana por parte da mãe e americana por parte do pai — prefeririam que fosse freira ou dentista. Ela decidiu ser “roqueira no país do samba”, como explica no livro “Rita Lee: Uma Autobiografia”, que acaba de ser publicado em Portugal pela Contraponto.

Desde o início, promete despir-se ante o leitor. “Numa autobiografia que se preze, contar o côté podrêra de próprio punho é coisa de quem, como eu, não se importa de perder o que resta da sua pouca reputação. Se eu quisesse babação de ovo, bastava contratar um ghost-writer para escrever uma autorizada”, escreveu ela.

Há oito anos sem lançar um disco e quatro depois de se ter retirado dos palcos, exatamente no show em que comemorou 50 anos de carreira, Rita Lee afirma ser uma “pós-famosa anónima”. A música hoje é um prazer muito restrito.

“Estou num momento de ouvir música instrumental, de jazz a clássicos, de new age a grandes orquestras. Cansei de discursos ególatras cantados por artistas prefabricados. Sim, virei uma velhinha rabugenta... ah, ah, ah” — disse Rita, em entrevista ao Expresso.
Na adolescência não sabia tocar nem cantar, mas tinha uma imensa paixão pela música. Quando os Beatles lançaram “A Hard Day’s Night” nos cinemas, em 1964, conseguiu assistir ao filme 11 vezes seguidas sem sair da cadeira.

No colégio passou a integrar uma banda de três meninas cantoras, Teenage Singers. Eram afinadas, mas tocavam mal. Então juntaram-se aos três meninos do Wooden Faces, que tocavam bem, mas não cantavam. Estava formado o grupo O’Seis.

Em 1966, quando lançou o seu primeiro single — um vinil com uma música de cada lado — O’Seis não parecia que iria frutificar. As primeiras canções, com os títulos ‘Suicida’ e ‘Apocalipse’, não permitiam imaginar longa vida para aquela jovem de 19 anos — paulistana, ruivinha e sardenta — e seus amigos. Chegaram a fazer algumas apresentações esporádicas, mas não deu para segurar os egos por muito tempo. Dos seis, apenas sobraram três: Rita Lee e os irmãos Arnaldo e Sérgio Dias Baptista.

História. O primeiro álbum de Rita Lee com Os Mutantes, lançado em 1968, costuma aparecer, hoje em dia, em listas de críticos entre os dez discos mais importantes da música brasileira

História. O primeiro álbum de Rita Lee com Os Mutantes, lançado em 1968, costuma aparecer, hoje em dia, em listas de críticos entre os dez discos mais importantes da música brasileira

foto Agência O Globo

Em 1968, lançariam o seu primeiro disco como Os Mutantes, em que a primeira faixa se tornaria um clássico, ‘Panis et Circenses’. O disco misturava elementos da música brasileira com rock psicadélico, guitarras distorcidas e instrumentos eletrónicos criados em fundo de quintal. De tão inovador, o álbum daqueles jovens recém-entrados na casa dos 20 anos, foi praticamente ignorado. Hoje em dia costuma aparecer em listas de críticos entre os dez discos mais importantes da história da música brasileira.

Rita Lee começa a fazer o seu “rockarnaval”. Ouvia que a música era um seleto clube masculino e o rock, especificamente, exigia coragem para fazer sucesso. “Eu queria provar a mim mesma que rock também se fazia com útero, ovários e sem sotaque feminista clichê”, relembrou ela, na sua autobiografia.

Iniciou ali a carreira sempre associada a rótulos engraçados e contraditórios: hippie-comunista-com-um-pé-no-imperialismo-festeira-fútil. Não se importava com eles. De menina que entrou em colapso quando teve de fazer uma apresentação de piano, tornou-se estrela da música. “O altar do palco é viciante, o lugar mais seguro para se viver perigosamente”, anotou.

Os Mutantes gravaram oito discos e conseguiram controlar vaidades, ondas lisérgicas e brigas durante seis anos. Foi quando os irmãos Baptista resolveram demitir a vocalista. Arnaldo e Rita tinham-se casado, mas pouco dividiram a mesma cama e cedo deixariam de dividir o mesmo palco.

Rita Lee começou então sua carreira a solo. Um grande chefão de uma editora discográfica apoiou-a. Ela recordou assim aquele momento: “Mesmo tocando porra nenhuma e cantando porra nenhuma, aquele cara botava a mó [maior] fé em mim.” Na autobiografia, Rita troça dela própria. Refere-se ao seu “talento musical” entre aspas, define-se como “cantora fake” e queixa-se de ter uma vozinha que a obrigava a gravar duas vezes as músicas para que as faixas tivessem a sua interpretação dobrada, numa forma rústica de maquilhar a voz em estúdio. Outro exemplo de autocrítica: “Quem pensaria em montar o show de um disco-catástrofe que nunca saiu? Sim, eu e meu ego equivocado.”

Relembra uma reunião em que o dono da editora convocou um grupo de especialistas para que discutissem o caminho musical, as posturas cénicas e a obra que deveria gravar. Entediou-se: “Enquanto vocês se masturbam com a minha vida, eu vou ao banheiro queimar um baseado. Alguém tá a fim?”

Não teve vida fácil. O sobrenome americanizado não fazia sucesso no Brasil, controlado por 21 anos de uma ditadura militar afinada com os EUA e combatida por uma esquerda nacionalista. “A cantora Descalça Lee, representante do imperialismo musical americano”, dizia Henfil, símbolo da inteligência de esquerda.

Ela não se deixava abater. Não estava ali para fazer amigos. Ao lado do futuro best-seller esotérico Paulo Coelho, escreveu, em 1976, o seu manifesto (‘Arrombou a Festa’) contra aqueles que considerava entronizados no comando confortável da afetada MPB: “Ai, ai, meu Deus, o que foi que aconteceu com a música popular brasileira? Todos falam a sério, todos eles se levam a sério, mas esse sério me parece brincadeira.”

Montou banda atrás de banda, sempre empunhando guitarras, baterias eletrónicas e teclados moderníssimos. Apesar de tanto barulho, em 1980, João Gilberto, o criador da bossa nova, cantor dos sussurros, convidou Rita Lee para interpretar com ele ‘Joujoux e balagandans’, um clássico dos anos 1940, de Lamartine Babo. Nada podia ser menos rock’n’roll do que essa dupla. Como se não bastasse, ao elogiá-la, João Gilberto cochichou: “Sabe, Ritinha, você pode achar que é roqueira, mas sua voz é bossanoveira.”

Bastava ficar por aqui que Rita Lee já estava na história da música brasileira. Mas ela não ficou. Lançou 38 discos. Vendeu mais de 55 milhões de cópias, o que faz dela a cantora brasileira com mais discos vendidos desde sempre.

Fez sucessos como ‘Lança Perfume’, que teve o prazer de saber que foi uma das músicas prediletas de Carlos, príncipe de Gales, com a qual dançava até perder a majestade. Esta canção correu o mundo em português e depois em francês, com Henri Salvador, que a batizou de ‘Question de choix’. Suplantou sucessos como ‘Ovelha Negra’, ‘Mania de Você’, ‘Caso Sério’ e ‘Alô, alô Marciano’. Os dois últimos foram ‘Amor e sexo’ (“Amor é prosa, sexo é poesia; o amor nos torna patéticos; sexo é uma selva de epiléticos”) e ‘Reza’ (“Deus me imunize do seu veneno, Deus me poupe do seu fim...”).

Em 2012, Rita Lee foi detida, acusada de desacato a um agente da polícia militar. Ao vê-lo a agredir fãs, chamou-lhe do palco “cavalo, cachorro, filho da puta”. No fim da apresentação foi levada presa por um dia.

A cantora e compositora já imaginara que era altura de se reformar. O incidente levou-a a iniciar as diligências para tal. No ano seguinte, comemorou 50 anos de carreira, fez um grande show em São Paulo, anunciou a sua despedida e mudou-se para os arredores da maior capital brasileira.

Êxito. A adolescente que não sabia tocar nem cantar, mas tinha imensa paixão pela música, construiu uma carreira de mais de cinquenta anos com sucessos como ‘Lança Perfume’, uma das músicas favoritas de Carlos, príncipe de Gales

Êxito. A adolescente que não sabia tocar nem cantar, mas tinha imensa paixão pela música, construiu uma carreira de mais de cinquenta anos com sucessos como ‘Lança Perfume’, uma das músicas favoritas de Carlos, príncipe de Gales

foto Agência O Globo

foto Guilherme Samora

Entre bichos e plantas, começou a rascunhar a lápis a sua autobiografia. O trabalho foi concluído em 2016. A edição brasileira vendeu 250 mil exemplares e está há 31 semanas na liderança dos livros de não ficção no país.

O seu texto aproxima-se da oralidade. É simples e direto. O livro tem um tom de conversa. “Ela nunca foi um bom exemplo, mas era gente boa”, sugere Rita como epitáfio para si própria. Rita pode parecer que escreve como quem fala, mantendo gírias (“a lôka”, “viajando de ácido”, “o harém deu mó valor”) e o ritmo de uma conversa. Mas o texto é elegante, porque conciso. É bem-humorado, às vezes despudorado, mas ela nunca é indulgente consigo mesma.

A autobiografia tem tantas revelações e comentários incisivos sobre pessoas e acontecimentos que chegou a ser definida como “autobiografia não autorizada”. Perguntei a Rita se em algum momento achou que se expunha demais e resolveu travar a narrativa.

“Via essa autobiografia como uma terapia onde expunha minha vida a mim mesma. Não haveria porque me poupar de algum assunto tabu.”

E não o faz mesmo. Conta, por exemplo, que aos seis anos foi violada com uma chave de fendas por um técnico que visitara a sua casa para consertar a máquina de costura da mãe.
“Escrevi para exorcizar o lado sombrio que ainda existia dentro da minha lembrança. Escrever sobre o facto deu-me uma leveza nunca dantes navegada, de repente o que era drama virou quase uma comédia. Não gosto de me fazer de vítima”, contou ela.

No livro estende-se no tema, ao relatar como a família reagiu: “As saias justas pelas quais passei com drogas, prisão, críticas e boatos foram entendidas como ‘a dor que ela carrega na alma por causa ‘daquilo, tadinha’.”

A reconstrução dos factos é mais ou menos cronológica, apesar de Rita Lee não se prender a datas. Diz que não tem memória para isso. Um jornalista, fã e amigo, fez anotações corrigindo a autora e trazendo pormenores precisos. É apelidado no livro de fantasminha, e os seus comentários têm destaque gráfico diferente do depoimento na primeira pessoa de Rita.

“É uma biografia impressionista. Conto os casos como os tenho guardados na minha cabeça. Falo sobre os meus podres e as minhas conquistas sem pudores”, afirmou.

Pioneira do comportamento e do discurso de género numa sociedade conservadora, enfrentou o machismo na música desde o início da carreira.

“Hoje não se pode dizer que há machismo na música como acontecia no meu tempo de jovem. As meninas dividem o poder de igual para igual, o que muito me orgulha”, comenta.

Uma das coisas que menos se estendem no livro é a razão pela qual decidiu deixar os palcos. Por ser por demais óbvia, como disse: “Cinquenta anos chocalhando o esqueleto já estava de bom tamanho. Deixei o palco mas continuo a compor e a gravar fita-demos”, declarou.

Rita tomou o gosto pela palavra escrita. De momento, dedica-se à conclusão de um livro de contos a ser lançado no Brasil no final do ano com o título com uma grafia peculiar, “Dropz de Anis”.

foto Guilherme Samora

Conta ter várias composições novas e segue a rotina de as gravar no estúdio que mantém em casa. Planeia lançar um novo disco?

“Quando me sobra tempo faço junto com Roberto [Carvalho, o marido, parceiro e guitarrista] algumas musiquinhas novas. Do que mais gostava e gosto de fazer é de compor. Se minha preguiça deixar, um dia desses encaro um novo trabalho.”

Casada há mais de 40 anos com Roberto Carvalho, com algumas separações pelo meio, Rita desmancha-se em amores por ele. “Não adianta dar receita para jogar na lotaria do amor: eu ganhei a sorte grande.”

Os Mutantes é considerada por muitos críticos a maior banda brasileira de todos os tempos. Os grandes sucessos de Rita, no entanto, foram nos anos 80 e 90, em parceria com Roberto. Ela diferencia com clareza os dois períodos. “Mutantes foi o meu jardim de infância, quando aprendi a brincar de fazer música. Com Roberto foi um doutoramento na matéria.”

Os Mutantes nunca foram vendedores de disco nem frequentadores das paradas de sucesso em rádios. “Éramos apreciados pela nossa esquisitice visual e sonora. Hoje somos considerados cult, mas na época ganhámos o apelido brega de ‘os the brasiliãn bítous’ (escrito assim mesmo), para orgulho dozmano (como chama aos irmãos Baptista) e um certo constrangimento meu”, escreveu Rita. “Estávamos, sim, anos-luz à frente do nosso tempo, pena a nossa alegria espontânea ter perdido para a falsa ilusão da glória passageira”, criticou ela aos antigos parceiros.

A autobiografia reverbera nos meios musicais brasileiros pela sinceridade. “Talvez não tenha sido mesmo o cérebro por trás de nenhuma banda de rock da qual fiz parte. Modestamente, eu era a alma, quando uma banda morria, meu santo encarnava noutra”, definiu-se ela.

Faz reflexões críticas duras. “Hoje, para um artista se dar bem, ele tem de vender a alma ao cartel empresarial, que por sua vez se vende ao cartel político, que vende a alma ao cartel da poderosa nova ordem mundial. Muito diabo pra pouco caldeirão.”

Resvala na crueldade ao relatar um trote que passou no ex-marido e ex-parceiro Arnaldo Baptista. Depois da separação dos Mutantes, Arnaldo usou muitas drogas a ponto de ser internado à força pela família. Tornou-se um recluso e a sua lucidez foi constantemente questionada. Rita conta no livro que desconfiava do papel exercido por ele. A lenda dizia que Arnaldo não falava com mais ninguém. Após anos sem contacto, Rita ligou a Arnaldo, mas identificou-se como a secretária de Kurt Cobain, o líder do Nirvana. Cobain, numa visita ao Brasil, enviara-lhe um bilhete: “Arnaldo, os melhores votos para você e cuidado com o sistema. Eles engolem você e cospem fora como o caroço de uma cereja marrasquino.”

Quando Arnaldo pegou no telefone, Rita repreendeu-o: “Arnaldo, Arnaldo, você não me engana, esse seu papel de aleijadinho de araque tá muito canastrão.”

arquivo pessoal

arquivo pessoal

Um dos episódios mais engraçados do livro é quando conta que Os Mutantes cortaram a luz do Teatro Villaret, de Raul Solnado, em Lisboa, para sabotar a apresentação de Edu Lobo, um dos compositores do panteão da Música Popular Brasileira. Rita chama a Edu invejoso e chato. Diz que ele tentou esnobar o grupo. “Achei a história hilária para contar no livro, uma demonstração de como os Mutas podiam ser cruéis com quem não nos suportava. Quero crer que Edu só veio a saber da história agora.”

Durante o relato das suas experiências com drogas, Rita Lee cita um período em que viveu por Berlim, visitou campos de papoilas no Afeganistão e faz referência a uma quinta em que viveu em Portugal “sei lá por quanto tempo”. Em seguida, lança um aviso: “É possível que tais aventuras tenham sido apenas viagens psicadélicas, flashbacks ou déjà-vus, sonhos lúcidos ou mediunidades. Ou não.”

Insisti para que confirmasse se de facto tivera a experiência de viver numa quinta em Portugal. A resposta manteve o mistério em aberto. Talvez porque realmente não se lembre. “Houve um tempo em que meu sonho habitual era morar em Portugal. Cheguei a matricular os meus filhos ainda pequenos numa escola daí... A agenda de shows não me deixou sair do Brasil. Gostaria de voltar em passeio, mas tenho pavor de avião.”

Ela considera os discos voadores — dos quais contabiliza visões e mais visões — mais confiáveis. “Não acredito em avião, verdadeiras carroças voadoras com uma tecnologia medieval que fazem rir os nossos primos ET.”

A prisão de cinco anos atrás por desacato não foi a primeira de Rita Lee. Em 1976, foi detida, acusada de posse de uma pequena quantidade de maconha. Foi condenada a um ano de prisão domiciliar, depois de passar quase dois meses na cela X 21 de uma cadeia pública de São Paulo. Estava grávida de três meses do primeiro filho.

arquivo pessoal

Contou que, três dias antes da prisão, prestara depoimento num processo que investigava uma morte ocorrida durante um show dos Mutantes em São Paulo. Rita viu um jovem ser morto, com um tiro, dentro do salão em que se apresentava. A polícia, no entanto, informara que fora baleado numa rixa no exterior do local do espetáculo, para o qual não teria bilhete.

O depoimento de Rita desmantelou a versão policial. “Mal sabia que estava metendo a colher no caldeirão corporativo da polícia paulista. Recebi o troco três dias depois, quando quatro deles chegaram de madrugada na rua Pelotas [onde morava], com uma ordem de busca sem apresentar qualquer documento.”

Rita, que desde jovem consumia drogas variadas, viu-se presa injustamente aos 28 anos. Estava limpa porque engravidara do primeiro dos três filhos.

No livro, narra experiências extrassensoriais como a de tomar um ácido alucinogénico e ir visitar um dos símbolos de Paris. “Não saber quando parar is my middle name [é meu nome do meio]”, admitiu. “Se a Torre Eiffel já era algo impressionante de se ver sóbria, imagine com um Sunshine na cabeça, um Transformer voador da quinta galáxia perdida no universo paralelo do jardim do Éden, nos céus de Alice no país dos cancãs”, enumerou enlouquecida.

Noutro momento, relatou ter passado 12 horas dentro da catedral de Notre-Dame, sentada em profundo silêncio recebendo o Espírito Santo. “Tomando umas pedrinhas em Versalhes, só faltou Maria Antonieta carregando uma bandeja com nossas cabeças rodeadas de brioches”, gracejou.

Sob o efeito de alucinogéneos, diz ter visitado, em Londres, um dos ícones da moda dos anos 60 e 70, a loja Biba. “Experimentei um par de botas prateadas de plataforma e pedi à empregada um número maior. Quando ela foi buscar, saí andando da loja, invisível, com o produto do roubo nos pés.” Guarda as botas até hoje.

Anos mais tarde ficaria amiga da estilista e proprietária da marca, a polonesa Barbara Hulanicki, que faria figurinos incríveis para suas apresentações.

Apesar das experiências pesadas, o seu relato é suave. Conta que fumou erva com o pai. Ele, ex-militar, já tinha mais de 60 anos e disse-lhe: “Estou enxergando melhor, ouvindo melhor, deduzindo melhor e com uma fome dos diabos.”

Rita Lee narrou que chegou a trazer de Londres “um mimoso colar de muitas voltas feito com missangas de pedrinhas de LSD coladas pacientemente uma a uma num cordãozinho de algodão”. Suou frio ao passar no controlo do aeroporto, mas escapou ilesa. Vendeu parte da droga para comprar equipamentos e parte consumiu-a com os amigos.

Descreveu pormenores das suas experiências: “Quando o psicadélico batia transformando a existência num caleidoscópio de consciência infinita, o ego despertava do mundo da ilusão dando de cara com o realismo fantástico do higher self, onde um mero grão de areia te explicava o omniverso. E você lá de alegre, só sendo Deus. Aliás, desde que me dececionei com religiões não sentia a presença do Divino tão acachapante. LSD não é para maricas materialistas.”

Ela sempre evitou fazer o que chama “discursinho antidrogas”. “Não me culpo por ter entrado em muitas [viagens], eu me orgulho de ter saído de todas. Reconheço que minhas melhores músicas foram compostas em estado alterado, as piores também.”

Depois de muitos internamentos, alguns forçados pelo marido e pelos filhos, Rita Lee está há 11 anos — desde que nasceu a primeira neta — sem se drogar. Diz não ter dúvidas de que a bebida foi o que mais mal lhe causou. “Fumei, bebi e charrei todas e saí viva. Sou uma dinossaura dura na queda, vaso ruim. A droga mais difícil de sair inteira é também a mais permitida: o álcool. Acho muita hipocrisia, por exemplo, discursinhos moralistas sobre a canábis com um copinho de whisky na mão.”

Rita leva uma vida pacata hoje em dia. “Sinto que passei grande parte da minha vida em piloto automático. Considero-me uma pessoa de sorte por ter sobrevivido à custa da música durante tanto tempo num país de memória curta. Hoje estou instalada onde sempre quis estar: na boa vida de velhinha aposentada que tem o luxo de possuir uma horta, cuidar de bichos, lamber minhas crias, fazer faxina e namorar meu marido.”

A 31 de dezembro, Rita Lee comemorará 70 anos. Nas últimas linhas da autobiografia deixa uma mensagem de esperança em vida que só pode ser qualificada de puro rock’n’roll: “Sim, acho que fiz um monte de gente feliz.”