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“Homem da Guitarra” canta elogio dos falhados no Teatro Carlos Alberto

Susana Neves

Manuel Wiborg leva a palco a vida de um músico de rua, um falhado assumido com um filho para sustentar e sonhos a morrer de fome, ignorado por uma sociedade que exibe apenas as suas vitórias. Para ver no Teatro Carlos Alberto, no Porto, até dia 16

André Manuel Correia

Um homem toca guitarra, todos os dias, numa passagem subterrânea de uma cidade tão ao norte do mundo. Faz ecoar as mesmas cantigas que, ao longo dos anos, vai esquecendo gradualmente, tal como os sonhos de juventude desbotados pela erosão dos dias. O estojo da guitarra serve de caixa de esmolas e as moedas, poucas, sempre dão para umas cervejas. “Finalmente em casa”, exclama, ao entrar no bar onde o seu desencanto encontra refúgio e onde somos levados na curva descendente de um músico de rua, desprovido do gosto pela música e num processo de desistência.

O “Homem da Guitarra” é uma obra do dramaturgo norueguês Jon Fosse, interpretada e encenada por Manuel Wiborg, e assume-se como um elogio dos falhados, num mundo em que todos exibem as suas vitórias. É levado à cena esta quinta-feira, pelas 21h, no Teatro Carlos Alberto (TeCA), no Porto, e pode ser visto até 16 de julho.

O “Homem da Guitarra” não é nenhum velho, mas também está longe de ser um jovem. Na adolescência, ambicionava ser um músico de sucesso. Aos 49 anos reside num espaço cinzento, entregue a uma deriva constante. “Sou só uns movimentos lentos”, “sou só um desespero profundo”, diz de si próprio. “Sou só uma canção de antigamente que nunca cantei”, acrescenta. Despojado das ilusões, entoa como pode o cansaço, a pobreza, a tristeza que sente e o dia que há de vir, mas teima em não chegar.

Mudou-se para a cidade por causa de uma mulher e, agora, num tempo qualquer que já não reconhece, não sabe onde ela está. Tem um filho para criar e sonhos a morrer de fome. As pessoas passam por ele e sentem vergonha. “Vergonha de mim ou vergonha de si próprias”, nem sabe ao certo o pobre músico de rua. Tem poucas certezas e a única coisa que não desmente é o facto de ser um falhado. Assume-o perante todos, em viva voz. “Podia ter sido muito mais, mas foi assim que foi”, conclui resignadamente.

Enquanto o Homem de Guitarra se envolve num lento processo destrutivo e arranca as cordas da própria guitarra, para a cena é transportado o quotidiano real de Adriano Sérgio, um músico e criador de guitarras a laborar, meticulosamente, na construção do seu próprio instrumento; como se produzisse música concreta com os sons do seu trabalho. “É um contraponto e uma metáfora do Homem da Guitarra, porque o Adriano construiu e patenteou uma nova guitarra. É um dos 25 construtores de guitarras mais conceituados em todo o mundo”, conta Manuel Wiborg, no final de um dos ensaios. “Há um homem que desiste, mas há outro que constrói”, sintetiza o ator, relativamente a este encontro em palco entre a ficção e a realidade.

Este é um regresso do ator e encenador a um texto de Jon Fosse – considerado pelo jornal Le Monde como “o Beckett do séc.XXI” – depois de, em 2013, ter encenado “Sou o Vento”. “Ele não explica e não arranja soluções. Lança os temas para eles ecoarem na cabeça dos espectadores e as pessoas refletirem sobre a realidade”, explica Manuel Wiborg, admirador da “sensibilidade do pensamento e da musicalidade” dos textos do autor.

Sem fazer referência a um espaço ou tempo concretos, na opinião de Manuel Wiborg a obra é bastante ilustrativa da realidade presente. “Vivemos numa época em que só os vencedores é que existem. Somos todos muito muito bons. Este homem diz exatamente o contrário e interessa-me mostrar a vida dos falhados, porque para uns terem sucesso outros têm de falhar”, nota o ator e encenador.

O “Homem da Guitarra” é a última estreia da temporada nos espaços geridos pelo Teatro Nacional São João, entre os quais o Teatro Carlos Alberto, e resulta de uma coprodução do TNSJ, Teatro do Interior e o Teatro São Luiz.

O espetáculo está em cena às quartas e sábados, pelas 19h; quintas e sextas, às 21h; e aos domingos, com récitas às 16h.