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Os meninos à volta do piano – nasce o Coro Infantil Casa da Música

Rui Duarte Silva

Está formado o Coro Infantil Casa da Música, constituído por 40 crianças selecionadas entre 320, num processo de formação estendido ao longo de todo o ano letivo. O Expresso foi conhecer o projeto e a história de uma menina que sonha voar

André Manuel Correia

Os meninos à volta do piano vão aprender coisas de um sonho adornado com notas musicais. Assim se pode começar a contar a recente história do Coro Infantil Casa da Música, projetado ao longo de todo o ano letivo 2016/2017, composto por 40 alunos do ensino primário, selecionados e provenientes das escolas da Lomba (Porto), Quatro Caminhos (Matosinhos) e Quinta das Chãs (Vila Nova de Gaia).

Ao longo de vários meses de ensaios semanais, os manuais escolares conviveram pacificamente com as pautas musicais, enquanto seis músicos profissionais organizados em duplas trabalharam com 320 crianças para, no final, escolherem as melhores vozes. Com a chegada do verão e das férias grandes, chegou também o momento das maiores decisões­: o mais complicado, mas o mais feliz para muitos daqueles alunos que, em breve, irão pisar grandes palcos para cantar a “Primavera”.

“Mete os pés no chão. Tem calma, Luninha, leva isto como uma diversão”, pede Karine à filha, Luna Leite, de 9 anos, com um brilho muito próprio no olhar e um sorriso solar. Completou o 4.º ano na Escola EB1 da Quinta das Chãs e é uma das coralistas selecionadas. As notas foram boas e a música até lhe deu mais vontade para estudar. A Luna nasceu em Portugal, mas tem raízes em Cabo Verde. É “desenrascada e observadora”, assegura a mãe, e “amiga de quase toda a escola”, acrescenta ela, sem grande necessidade de que falem por si.

Ainda brinca com as muitas bonecas e conta que algumas até têm jeito para cantar. “Mas nem todas”, ressalva. Karine já lhe perguntou se não gostava de ser médica ou advogada, mas nenhum argumento a demove do sonho de ser cantora. De resto, diz a Luna com a sua sabedoria infantil, “música e tribunal não se misturam, não é?”

O primeiro microfone foi uma escova do cabelo, mas agora já tem uns quantos. Quando lhe perguntámos por uma referência no mundo da música, a resposta é imediata: “Mayra Andrade, não sei se conhece”. Apesar da tenra idade, já canta em inglês, ou melhor, em “ingrês” como se apressa a detalhar. A mãe percebe-lhe o jeito. Ela também. “Eu acho que canto bem, mas aprendi muito nessas aulas, porque eu ainda sou pequenina”, reconhece a Luna, ansiosa por conhecer muitos dos colegas do grupo coral, selecionados nos outros dois estabelecimentos de ensino.

Voar com a música no mundo da Luna

Os pés estão firmados no chão – sabe que tem de estudar e o gosto pela leitura está bem assente –, mas os seus sonhos moram longe, talvez na Lua. “Eu quero é ser cantora. Quero voar. Quero estar no meu mundo, onde sinto que posso fazer o que eu quiser”, descreve, sempre sem papas na língua, ao Expresso.

A música acompanha a pequena Luna desde que nasceu. Até mesmo antes. “Quando estava na barriga da minha mãe, ela já cantava para mim”, explica. “Cantava-lhe músicas tradicionais do meu país, Cabo Verde. Cantava mornas, essencialmente, e ela mexia-se na minha barriga”, lembra Karine Silva, de 35 anos. O que esta mãe também não esquece é a primeira vez que viu a filha a pisar o palco da Casa da Música, ainda antes de o Coro Infantil ser constituído, quando decorria o processo de preparação das mais de 300 crianças. A Luna estava em palco e procurava, na plateia, o rosto maternal. “Eu cheguei um pouco atrasada. Quando entrei, vi todas aquelas crianças em palco, mas era como se apenas conseguisse ouvir a voz da minha filha. Eu estava ali a ouvir a Luna”, recorda.

Beatriz tem queda para matemática e, contas feitas, também vai subir ao palco

Quem a Luna vai conhecer quando se juntar com as outras 39 crianças do coro é a Beatriz Nogueira, também ela com 9 anos, da escola EB1 da Lomba, no Porto. Matemática é a sua disciplina favorita, mas o que não estava nas contas desta criança era vir a ser uma das escolhidas. “Não pensei que isto fosse acontecer. Pensava mesmo que não ia passar, porque nunca achei que tivesse jeito para cantar”, diz a Beatriz, com alguma timidez, mas visivelmente entusiasmada. O gosto pelo canto foi uma descoberta, algo que foi trabalhado e afinado ao longo das sessões semanais, com a duração de uma hora. Atingir as notas mais agudas foi uma dificuldade, conta, mas o empenho foi sempre muito, até porque “os ensaios eram muito mexidos e toda a gente se divertia”.

Apesar de as aulas do coro terem sido polvilhadas por sorrisos, afetos e brincadeiras, os ensaios eram também momentos de concentração e exigência. Os seis formadores musicais (Joana Araújo, Duarte Cardoso, Joana Castro, Gonçalo Vasquez, Raquel Couto e Ivo Brandão) estavam incumbidos de avaliar e refinar o timbre destes cantores de palmo e meio, em ensaios sempre acompanhados por melodias ao piano. Tiravam apontamentos. Desfaziam dúvidas. A escolha tinha de ser apurada.

Ao lado da Beatriz, a mãe, Alexandra Pires, corrobora o entusiasmo da filha. “A partir do momento que as aulas do coro começaram na escola, prolongaram-se também para casa. É impossível não decorar as músicas”. No momento em que a Beatriz sobe ao palco, como já aconteceu a 30 de maio na Sala Suggia, existe uma procura mútua. “Ela procura-nos, mas nós também a procuramos a ela”, explica a mãe.

A importância da música na aprendizagem

Ao Expresso, Jorge Prendas, coordenador do Serviço Educativo da Casa da Música, há na base desta iniciativa um “aspeto social importante”, uma vez que é uma oportunidade de proporcionar formação musical de qualidade a muitas crianças, “independentemente do seu background socioeconómico”. Na opinião do responsável, o Coro Infantil pode vir a tornar-se numa “referência no panorama musical português”, mas mais importante do que isso é a contribuição que o ensino musical também pode ter na aprendizagem.

“A relação entre, por exemplo, a capacidade de concentração ou o desenvolvimento do cálculo matemático e a música já não é novidade”, frisa Jorge Prendas e, “por isso mesmo, “todo o trabalho que está a ser feito nas escolas, bem como aquele que será feito na CdM, trarão, sem dúvida nenhuma, mais-valias para a formação destas crianças”.

O Coro Infantil junta-se, assim, ao leque de grupos residentes, constituído pela Orquestra Sinfónica do Porto, Orquestra Barroca, Remix Ensemble e o Coro da Casa da Música.

Esta quarta-feira é dia para os petizes conhecerem os cantos à Casa e serem apresentados oficialmente, num encontro com a comunicação social.

Apesar de o agrupamento estar constituído, o trabalho nas três escolas terá continuidade nos próximos anos letivos, de forma a assegurar a renovação dos coralistas. “As vozes mudam com o passar dos anos”, vinca Jorge Prendas, acrescentando que “as crianças podem naturalmente ter interesses e opções que se vão alterando”.

Começa assim a ser preparado o caminho para os grandes palcos. Os ensaios com as 40 crianças começam este mês e a estreia está agendada para 1 de outubro, quando o Coro Infantil Casa da Música subir ao palco da Sala Suggia, acompanhado pela Orquestra Sinfónica do Porto e pelo Coro Nacional de Espanha, para interpretar “War Requiem”, de Benjamin Britten.