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Diogo Ramada Curto responde a Helena Buescu, a propósito do ensino de literatura no Secundário

Do colaborador do Expresso chegou-nos a seguinte réplica ao texto de Helena Buescu publicado ao abrigo da Lei do Direiro de Resposta na Reviosta E de 1 de julho de 2017

O ensino do português e da literatura portuguesa no Secundário é um assunto muito sério. Não se limita a um conflito entre duas pessoas, nem a saber quem venceu a refrega. Envolve milhares de professores, alunos e famílias, que merecem todo o respeito. No centro, para que não haja dúvidas, estão as obras literárias, os seus autores e os inevitáveis conflitos de interpretação. Foi, por isso, que me pronunciei publicamente sobre o respectivo Programa e Metas Curriculares (Expresso, 10-6-17). Comecei por reconstituir o contexto de luta em que o mesmo documento oficial foi elaborado, apontei algumas das suas debilidades, de conteúdo e de forma, e argumentei que o ensino do português tinha de ser pensado em função da criação de um gosto pela literatura.

A principal autora do documento que analisei, Helena Buescu, ao responder, aplicou-se. Reconheço. O seu texto está escrito num português bem mais cuidado e escorreito do que o do próprio Programa que redigiu. Claro que continuou a fazer finca-pé na defesa das mesmas inúteis “complexidades”. Distorceu o que eu dissera acerca da selecção de escritores e das suas obras, para afinal acrescentar outros nomes à presumida lista. Trocou alhos por bugalhos, porque leu à pressa o que escrevi. Mas, sobretudo, não ousou discutir nenhuma ideia acerca do cânone da literatura portuguesa no Secundário. A pobreza da sua argumentação é fácil de resumir: em matéria de ensino do português, só ela tem competência para opinar e eu tenho de estar é caladinho. Assim, sem mais, ad nauseam, do princípio ao fim de uma resposta que não admite réplica...

Helena Buescu, professora universitária, catedrática de literatura, tem toda a razão. Eu, um putativo tocador de instrumentos de sopro – assim imaginado por quem não tem argumentos e não sabe discutir ideias – nada sei. Por isso, resta-me calar a boca. Com capa de humildade – mas lá no fundo furiosa, iracunda no uso intempestivo das maiúsculas, recorrendo à metáfora barroca para encobrir a vacuidade do raciocínio, peremptória sobre o que eu li ou deixei de ler e definitiva ao negar-me o estatuto de polemista – insinua mesmo que eu deixe de escrever acerca de matérias que são suas. Porque só ela pode decretar quem tem competência e validar o respectivo canudo. Mais: como prevariquei – metendo-me onde não era chamado e pecando por soberba – , caso cometa a ousadia de lhe responder, ficarei a falar sozinho. É o castigo do Inferno, a condenação às trevas, proferido por quem evoca sucessivos nomes de autoridades em vão.

Ora, esclareço, não me comovo com argumentos de autoridade. O ensino da Literatura Portuguesa é um assunto demasiado sério, repito, para ser deixado, em exclusivo, aos professores universitários que se julgam especialistas da mesma e que, em lugar de discutirem ideias, apenas exibem os seus títulos.

Só numa passagem, muito breve, da sua resposta, Helena Buescu quase saiu desse mundo dos títulos e dos tenebrosos poderes académicos, para se aproximar a custo do campo das ideias. Foi quando na “Formação” que deu aos professores do Secundário, analisou o discurso deRobert Kennedy pronunciado no dia da morte de Luther King. Mas, também aqui, acabo por ficar na mesma. Porquê? Porque só consigo imaginar, nesse exercício de “Formação”, a série de insuportáveis “complexidades”, que nada explicam, com que a pitonisa da literatura portuguesa, lá do alto do seu templo, esmagou a sua audiência.

Enfim, na esfera pública, incluindo a participação em jornais, os arrufos de autoridade académica, as divisões corporativas dos saberes universitários e os castigos de professores à moda antiga, de dedo espetado, não entram. Que se desenganem, por isso, aqueles que, a coberto dos seus títulos, julgam ter autoridade reconhecida fora dos muros da academia. A esfera pública, tal como deve existir, será sempre mais livre e igualitária. Por isso, é nessa mesma esfera que nos podemos revoltar em face das fantasias despóticas – das práticas de censura e das experiências de caciquismo ou de mandarinato – de representantes de instituições universitárias pouco sedimentadas e mal ajustadas aos tempos modernos.

Para se poderem pronunciar na esfera pública, professoras e professores universitários têm de despir as suas togas. Desenvencilhar-se dos seus ridículos tiques hierárquicos. Pôr de lado a ameaça das punições. Responsabilizar-se pelas suas críticas. E passar a discutir ideias.