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Chrissie Hynde : “Estar sozinha é um luxo”

Regressa a Portugal a 19 de julho, para o primeiro concerto dos Pretenders por cá desde 1999. O reencontro está marcado para o Parque dos Poetas, em Oeiras, no âmbito do EDP Cool Jazz. Ao telefone do Louisiana, onde atuava nessa noite, Chrissie Hynde mostrou-se uma conversadora aguerrida

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

foto DEAN CHALKLEY

O último álbum dos Pretenders, de 2016, chama-se “Alone”, e no tema-título diz “I like to be alone”. Precisava de fazer essa declaração?
Na altura não me pareceu que fosse importante afirmá-lo, mas agora talvez seja, porque tive uma reação surpreendente. Na canção, não digo que gosto de me sentir só, mas a verdade é que gosto de estar sozinha, e o que as pessoas me têm dito, a propósito dessa música, é que desejavam ter mais tempo para poderem estar sozinhas. No Ocidente, isso é um luxo. Ao mesmo tempo, sinto-me bastante feliz [risos]. Passo tempo sozinha, faço coisas sozinha e gosto! Na verdade, a letra é sobre desejar que as pessoas não se sintam sós, mas eu cá estou bem assim. Como disse, a música teve uma reação positiva, de que eu não estava nada à espera.

Será que as pessoas que reagiram à letra estão cansadas que se confunda ‘estar sozinho’ com ‘ser solitário’?
Mas eu tenho família e tenho amigos! É verdade que a solidão é uma epidemia, e as pessoas morrem desse mal. E eu, como toda a gente, por vezes também me sinto sozinha. Mas esta canção em particular é bastante ligeira. Fala de alguém que está contente por ir ao cinema e ao restaurante e por passear num parque sozinha.

As pessoas morrem de solidão, e até os animais...
Neste momento há mais de 70 mil milhões de animais enjaulados 
à espera de serem mortos e transformados em comida. Esses morrem de mais do que de solidão. Morrem de crueldade brutal.

Há quanto tempo é vegetariana?
Desde 1969 [quando tinha 18 anos].

É americana mas vive em Inglaterra há décadas. Qual é a sua relação com este país?
Tenho vivido em Inglaterra a maior parte da minha vida. Mudei-me aos 22 anos, por isso passei lá dois terços da minha vida. É lá que tenho 
a minha banda, é onde vivo e onde me sinto bem. Mas também gosto muito de andar de um lado para o outro, quando estou na estrada.

Ao longo da sua carreira, colaborou com numerosos músicos. É uma jogadora de equipa?
Sou apenas uma jogadora de equipa. Não sou uma artista a solo, na verdade. Nem nunca fui. Gravei um disco com o meu nome, mas apenas porque estava muito cansada de defender o nome The Pretenders, como banda. Então assinei o disco “Stockholm” [2014] como Chrissie Hynde. Mas em todos os álbuns trabalho como colaboradora e sempre no contexto de uma banda. Nunca penso em mim como artista a solo.

Em adolescente, era fã de bandas rock e idolatrava vários músicos. Quando se tornou parte desse meio, qual foi a sua maior desilusão?
Não tive desilusões! Senti-me ótima! Adoro isto, porra.

Isso é bom sinal...
Para ser completamente honesta, pensava que os músicos tinham mais consciência do que as outras pessoas. Como vinha daquela geração hippie, achava que toda a gente seria vegetariana e abraçaria aquele [movimento de] consciência cósmica. A minha deceção foi perceber que isso não era verdade. À medida que ia conhecendo outras bandas, percebia que elas comiam hambúrgueres! Fiquei muito chocada e desiludida, e depois lá aprendi a viver com isso. Porque percebi que são idiotas como toda a gente.

Sente que a sua voz mudou muito ao longo dos últimos anos?
Toda a gente me diz que não mudou! Há uns anos deixei de fumar e, para dizer a verdade, desde então parece-me mais fácil cantar e sinto que tenho um maior alcance. Mas nunca pensei nisso, porque nunca tive aulas e não faço exercícios para a voz — creio que é tudo psicológico. Vejo pessoas a fazê-lo, mas acho que é a forma que têm de se preparar. Para um cantor de ópera será diferente, porque têm de ler pautas e tal.

Há várias canções dos Pretenders que são consideradas ‘clássicos’. Acha que há músicas ou discos injustamente esquecidos ou subvalorizados?
Até me surpreendo que os ouçam tanto! Sinto-me sobrevalorizada, até! Nos anos 60, quando as pessoas compravam discos, ouvia-se o lado A e o lado B e memorizava-se o álbum todo. Toda a gente comprava álbuns. Suponho que tenha começado a mudar depois de a MTV aparecer, em seguida vieram os CD, e depois... Não consigo perceber o que se passa na música hoje em dia — é uma cultura dos Grammys, que a mim não me diz nada. Mas o que aconteceu ao longo dos anos é que se deixou de ouvir os álbuns na íntegra, e agora, com a tecnologia, podemos comprar só uma canção e ignorar o disco. Por muitas razões, este é um tema importante. Penso que, depois dos nossos dois ou três primeiros discos, as pessoas deixaram de ouvir os álbuns na íntegra. Por isso, é provável que não consiga tocar algumas das minhas canções favoritas ao vivo, porque a maior parte das pessoas não reagiria — só querem ouvir aquilo que já ouviram. Agora é assim!

Em 2004 viveu no Brasil. Gostou dessa experiência?
Adorei, adorei! Essa é outra das razões pelas quais quero ir a Portugal: para conhecer a ‘terra mãe’. Adoro o Brasil e trabalhei com o Moreno Veloso, foi fantástico. É um país muito musical, muito colorido... Infelizmente, por diversas razões, ligadas ao meu trabalho e à minha família, tive de voltar. Ainda quero regressar ao Brasil e trabalhar com o Moreno e a sua banda; na verdade, tenho tentado voltar, mas tenho estado muito ocupada. Espero conseguir nos próximos cinco anos.

Ainda viaja para a Índia com regularidade?
Não tenho viajado, porque [a certa altura] os meus pais já estavam muito velhinhos e eu não quis ir para muito longe deles. Desde que morreram, tenho estado muito ocupada a fazer música. Mas tenho amigos próximos que vão lá com frequência. Em termos gerais, a minha filosofia de vida vem toda dos [livros hindus] ‘vedas’. Tudo o que tem a ver com a proteção das vacas, o vegetarianismo, tudo remonta a essas filosofias.

Enquanto habitante do Reino Unido, o que sente em relação ao ‘Brexit’?
Bem, eu votei para ficar. As pessoas votaram para sair, não sei... não tenho sentimentos sobre isso. Tenho sentimentos sobre as coisas que posso mudar. Votei, era a única coisa que podia fazer. Penso que haverá várias razões [para o resultado] e acho que as pessoas de ambos os lados estavam mal informadas. Parece ter sido um erro promover este referendo. E agora toda a gente tem de viver com isso. Todos acham que o clima político é pior agora do que dantes, mas eu convido-os a voltar atrás 10 ou 20 anos, 30, 60, 100 anos... Há não tanto tempo assim havia tráfico de escravos! E há 60 anos era ilegal ser gay. Todos se queixam e dizem que as coisas agora são horríveis, mas em muitos aspetos estão melhores. É verdade que destruímos o ambiente. Para mim, tudo remonta a comermos carne. Isso nunca mudou — sempre foi a minha visão e a minha única mensagem no que toca a política.

É sempre tudo relativo...
É sempre relativo. Na música, as coisas ainda não estão a melhorar, mas, devido à insatisfação com o clima político, penso que vamos ver mais bandas e um novo underground a emergir. E assim nos afastaremos desta cultura nojenta dos Grammys, que não faço ideia como é que interessa a alguém. O que eu mais adorava que acontecesse, musicalmente, era o surgimento de uma cultura underground que dissesse “fuck you!” à cultura dos Grammys.

É contra os Grammys, o Rock & Roll Hall of Fame... O rock não deve estar num museu?
Essas coisas só têm significado para os americanos, não significam nada para mais ninguém. As pessoas que tratam do Rock & Roll Hall of Fame criaram-no para poderem pertencer a ele. Nem músicos eram. Existe um Hall of Fame para os desportistas, o que me parece fazer sentido, porque há campeões que foram, objetivamente, os maiores [das suas áreas]. Não sei, não gosto de prémios para a música.

A grandeza no desporto será mais fácil de medir do que na música, 
que é menos objetiva...
A música é mais emocional. E, sinceramente, esse tipo de prémios 
tem sempre a ver com vendas [de discos]. E, no que me diz respeito, 
a maioria [das pessoas] está sempre errada, logo, essas distinções não têm qualquer significado para mim. b