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A arte roubada ao mundo

JEAN-PIERRE MULLER/AFP/Getty Images

Em 1911, a “Mona Lisa” desaparecia do Museu do Louvre. Seria o primeiro grande roubo do século. Seguiram-se-lhe muitos outros, espetaculares e com muitos milhões envolvidos. A rota da arte roubada tem sempre o mesmo mote, o mesmo fim: a fruição do que é belo e o valor seguro mais prestigiante do mundo

Como em todas as segundas-feiras, o Museu do Louvre estava fechado naquele fatídico dia 21 de agosto de 1911. Às sete e vinte da manhã, a ronda feita pelo diretor da manutenção do museu parisiense realizou-se como habitualmente e no Salon Carré, onde Raphael, Correggio, Giorgione, Tintoretto e Leonardo da Vinci, os italianos, conviviam com Rubens, Rembrandt e Velázquez, tudo estava como de costume. As obras-primas dos pintores de exceção resplandeciam sob a luz suave que as iluminava. Picquet, assim se chamava o diretor da manutenção, terá mesmo apontado para a “Mona Lisa” e dito a um empregado que o acompanhava que aquele quadro era o mais caro da sala, avaliado em mais de um milhão e meio de francos. Mal sabia ele que passados poucos minutos após a ronda que mais gostava de fazer, o quadro que o encantava seria roubado sem deixar rasto.

Há um dia escondido no Louvre, o antigo empregado da casa, Vincenzo Peruggia, que bem conhecia todas as rotinas do museu, saiu em seguida do seu esconderijo, um armário, diz quem investigou o roubo. Entrou no mesmo Salon Carré, e dirigiu-se ao quadro que passou a ser o mais conhecido do mundo. Tirou-o da parede, o que não deve ter sido tarefa fácil, pois a obra pesava mais de oito quilos, uma vez que Da Vinci a pintou em três bocados de madeira, prática comum na Renascença. E levou-a para um lugar abrigado das vistas de outros funcionários do museu. A tarefa seguinte foi desemoldurar a “Mona Lisa”, retirar-lhe o vidro de proteção e, sem grandes preocupações, escondê-la debaixo da farda que ainda envergava e assim vestido encaminhou-se para a saída. Estava no primeiro piso do museu e ainda tinha de descer ao rés do chão. Teve de arrombar a fechadura de uma porta, pois a chave que tinha consigo já não funcionava e acabou por sair pela porta principal do Louvre, depois de se ter cruzado com um canalizador interno com quem trocou algumas palavras. Ninguém reparou em nada. O sinal de alerta só seria dado no dia seguinte, quando o museu voltou a abrir as portas ao público e um artista amador colocou o seu estirador em frente ao local deixado vago pela obra-prima de Leonardo da Vinci. Sem diretor na casa, a notícia saiu pelas portas do Louvre à velocidade da imprensa de então: “Elle est partie!”, diziam as manchetes dos jornais parisienses.

As buscas foram incessantes. Toda a gente que andasse na rua com um pacote debaixo do braço seria revistado durante as semanas seguintes. Pelo meio, muitos tiveram de prestar declarações. Picasso foi um deles e Apollinaire outro, chegando mesmo a passar uns dias na prisão. Os meses foram passando e as pistas desaparecendo. Incansável, a polícia francesa pedia ajuda às suas congéneres europeias. Em vão. Longe do roubo estar esquecido, dois anos depois, Itália dá sinais de vida da “Mona Lisa”. A peça tinha sido apresentada nas famosas Galerias Uffizi, em Florença. Vincenzo Peruggia estava assim a tentar colocar na sua terra natal uma “Gioconda” há muito levada para França. O ladrão, nunca vieram a descobrir-se cúmplices, fizera a sua justiça, pelo menos aquela em que acreditava: o seu a seu dono, neste caso, ao seu país de origem. As autoridades não foram na cantiga e claro a “Mona Lisa” regressou ao Louvre e Peruggia foi encarcerado.

O seu ato ficou para a história como o maior roubo de arte do mundo. Porém, depois dele, muitos outros casos de furto aconteceram nos grandes museus do mundo. E, antes, quantos povos e impérios levaram das terras que conquistaram as relíquias que mais apreciaram? Gregos, romanos, egípcios, hoje iraquianos. Relíquias de guerra diz-se, roubos de arte para a história mais recente. Para que se saiba, o roubo de obras faz mexer o terceiro maior mercado do mundo, atrás da droga e do armamento. A Interpol, que tem um catálogo com mais de 34 mil obras roubadas em todo o mundo, afirma que apenas 10% das obras são recuperadas. Segundo a polícia internacional, a realidade é que em cada dez obras recuperadas só uma o é através da ação das autoridades, as outras nove aparecem misteriosamente no mercado legal como se nada lhes tivesse acontecido. O valor da sua venda é sistematicamente usado para lavagem de dinheiro, afirma ainda o relatório “Stealing History: The Illicit Trade in Cultural Material”. Ainda de acordo com a Interpol, o destino da maior parte das peças são gangues especializados que geralmente recebem encomendas de colecionadores sem escrúpulos. Roubadas seja onde for, as obras têm como primeira escala Bruxelas ou Nova Iorque, de onde partem depois para o destino final, os colecionadores. Outras peças de arte ainda são divulgadas em sites internacionais,muitos da antiga Europa de Leste, sempre após um longo período de espera e assim voltam ao mercado.

O ouro é normalmente derretido e as pedras preciosas vendidas separadamente. Isto no caso das obras de joalharia. Nem mais nem menos o que pode muito bem ter acontecido com as joias reais que Portugal perdeu em 2002, roubadas sem deixar rasto do Museu de Haia, na Holanda. Foi na madrugada de dia 2 de dezembro que os autores do assalto entraram no museu pela janela mesmo em frente ao gabinete dos seguranças. O relógio marcava as três e meia da manhã e, 45 minutos depois, o roubo à exposição “Diamante: da pedra bruta à joia” estava finalizado. Na bagagem de mão, os assaltantes levavam seis das melhores joias portuguesas, várias peças inglesas, francesas e holandesas. Todas retiradas do interior do museu, onde uma enorme estrutura de madeira, a assemelhar-se a uma caixa-forte e construída especialmente para exibir as joias em 28 expositores, era guardada a toda a volta por quatro câmaras de videovigilância, enquanto um alarme colocado em cada ponto dos 28 expositores seria acionado ao menor movimento. Foi para essa caixa-forte que os ladrões se dirigiram, tendo entrado pela porta de saída daquela estrutura a fim de não fazerem disparar o alarme e os sensores do museu. Lá dentro, com martelos nas mãos, estilhaçaram os vidros que guardavam as joias, retiram-nas e fugiram exatamente pela mesma janela por onde tinham entrado. Os dois polícias que se encontravam no museu não deram por nada. O alerta só seria dado depois do dia nascer, às sete da manhã. A esperança era que as imagens de videovigilância revelassem a identidade dos assaltantes ou pelo menos permitissem encontrar uma pista que desse seguimento à investigação. Mas não foi isso que aconteceu. As quatro câmaras não estavam a gravar em tempo real, além de não terem incorporado o sistema de infravermelhos que permite gravar no escuro e de nem sequer estarem ligadas ao sistema de controlo do gabinete dos seguranças. Tudo falhou. A organização e segurança não existiam.

Nas horas que se seguiram todas as expectativas foram caindo por terra. Portugal e o Governo continuavam sem nada saber e só seriam informados do sucedido no dia seguinte. Já não era possível seguir o rasto de um diamante de 135 quilates considerado por muitos um dos maiores do mundo e pertença de D. João VI, de um par de alfinetes em forma de trevo, em ouro, platina e com diamantes-rosa e brilhantes, datados de meados do século XIX, de uma gargantilha com 32 brilhantes, em prata e ouro, da segunda metade do século XVIII, doada por D. João VI à rainha Carlota Joaquina, de um anel também de D. João VI com um diamante de 37 quilates, em prata e ouro, e de um castão de bengala de D. José I, todo em ouro com 387 brilhantes encastrados. Pedro Roseta, à data ministro da Cultura, considerou o roubo como “uma perda trágica para Portugal”. Sem terem sido encontradas responsabilidades, o Governo português recebeu 6,1 milhões de euros de indemnização em dezembro de 2006, seis anos após o roubo. E nunca mais nada se soube.

Misterioso assim, só o “Roubo de Boston”, na verdade, o maior (em dimensão e quantidade) da história da arte na contemporaneidade — o assalto ao Isabella Stewart Gardner Museum, naquela cidade norte-americana. Um mistério com 27 anos de vida que fez desaparecer da face da terra Vermeers, Manets, Rembrandts e Degas. Tudo se passou mais uma vez durante a madrugada. Era uma e vinte e quatro da manhã do dia 18 de março de 1990, quando dois homens disfarçados de polícias e usando bigodes falsos se dirigiram à porta do museu e sem medos tocaram à campainha. Queriam entrar. Alguém os informara de que havia distúrbios dentro do museu e era sua missão acabar com eles. Os dois guardas de serviço não tiveram capacidade de reação. Os pseudopolícias algemaram-nos, pés e mãos presos, foram levados para a cave, onde permaneceram durante todo o assalto. O edifício, o palacete ao estilo veneziano inaugurado em 1903 que mostra ao público uma das mais importantes coleções de arte privada dos EUA, ficava assim com o caminho livre para durante 81 minutos ser percorrido pelos ladrões, que escolheram as obras de arte que mais lhes convieram. Um Vermeer avaliado em 175 milhões de euros — “The Concert”, um raro Rembrandt, “A Lady and Gentleman in Black” e “Storm on the Sea of Galilee”, a única paisagem marítima conhecida do mestre holandês, outro Manet, “Chez Tortoni”, e mais dez obras de relevo que hoje se diz valerem mais de 500 milhões de euros. Com o carro estacionado perto da entrada lateral do edifício renascentista, os assaltantes meteram com calma as obras no veículo e desapareceram para não mais serem vistos, nem eles nem as obras que roubaram. Foram seguidas milhares de pistas, o FBI procurou as peças pelos quatro cantos do mundo, meteram-se agentes infiltrados ao barulho. Não se chegou a lado nenhum. Nem sequer houve acusados e muito menos culpados, isto apesar de ter sido oferecida uma recompensa de quase 4,5 milhões de euros a quem dê qualquer informação que possa ajudar à recuperação das obras.

Numa sexta-feira de Carnaval, dia 24 de fevereiro de 2006, o Brasil assistiu ao maior roubo de arte acontecido no país. O alvo foi o Museu da Chácara do Céu, em Santa Teresa, no Rio de Janeiro. Desta vez o assalto foi violento. Pelo menos quatro homens entraram no edifício a ameaçar usar uma granada de mão caso os três funcionários e os cinco visitantes não obedecessem às suas ordens. Com toda a gente praticamente paralisada, apesar de dois dos guardas terem ainda tentado impedir o roubo de algumas peças, foi mais fácil o desempenho dos ladrões que não se intimidaram frente à “A Dança”, de Picasso, “Dois Balcões”, de Salvador Dalí, “Marine”, de Monet, e “Jardim do Luxemburgo, de Matisse, as obras mais valiosas do museu. Antes de agirem, os assaltantes mandaram desligar o circuito interno de videovigilância. E logo a seguir ao roubo, esperaram que o Bloco de Carnaval das Carmelitas passasse junto ao Museu da Chácara do Céu, para saírem sem deixar rasto. Com eles levavam obras de arte avaliadas num montante a rondar os 10 milhões de euros.

É assim distrair para roubar. O mesmo ou muito parecido ocorreu na Suécia no ano 2000. Quando se ouviam tiros e disparos num bairro de Estocolmo e já se falava num possível ataque terrorista, três homens entraram de rompante no Museu Nacional da Suécia. Empunhavam uma metralhadora. Um deles deixou-se ficar à entrada do edifício, enquanto os outros dois tomavam a seu cargo a tarefa de roubar um autorretrato de Rembrandt e duas obras de Pierre-Auguste Renoir, ou seja, 30 milhões de euros levados num ápice e muito antes de a polícia chegar ao local do crime. Os ladrões tinham atracado uma lancha ao lado do museu que fica à beira-mar e para lá se deslocaram com a mercadoria para zarparem mar fora sem deixar mais pistas.

Mais sorte tiveram os vinte quadros roubados em abril de 1991, do Museu Van Gogh, em Amesterdão. Um assalto que poderia ter rendido aos ladrões mais de 500 milhões de euros, mas que acabou por ter um final feliz. As obras foram encontradas pouco tempo depois num carro abandonado. Dos assaltantes é que nada se soube. Ao contrário, em dezembro de 2002, quando o mesmo museu foi de novo tomado de assalto por uma série de ladrões que ali entraram pelo telhado, para levarem 30 milhões de euros em obras de Van Gogh — “View of the Sea at Scheveningen” e “Congregation Leaving The Reformed Church in Nuenen” —, estas nunca foram encontradas, mas os ladrões foram condenados e presos. Com “O Grito”, de Munch, roubado em Oslo, na Noruega, em 1994, foi diferente. Os ladrões usaram uma escada que encontraram ao pé do museu e entraram por uma janela. Lá dentro, apressaram-se a encontrar o famoso quadro e levaram uma das suas quatro cópias. Tão felizes pela facilidade com que conseguiram entrar e sair do museu já com a obra nas mãos, deixaram um bilhete de agradecimento “Obrigado pela falta de segurança!”

A história está cheia de histórias como estas. Umas mais espantosas outras mais subtis, mas todas revelando uma necessidade de apego por um bem que já há muito passou a ter o nome de capital sem risco. E, apesar de a dificuldade em vender tais obras nos dias de hoje ser cada vez maior, há sempre quem arrisque e quem não petisque. Muitas destes quadros roubados são destruídos. Quando o assaltante não consegue encontrar um comprador e se quer livrar da prova do crime. Sabe-se, por exemplo, de um ladrão que queimou na cozinha da sua casa uma tela de Georges Seurat e outra de Salvador Dalí. Sabe-se também que a mãe do famoso Stéphane Breitwieser, ao saber da prisão do filho, deitou no canal Reno-Rhône, em França, as 230 pinturas por este roubadas entre 1994 e 2001.

Talvez mais surpreendente ainda do que os roubos já aqui relatados é o da escultura do britânico Henry Moore, uma peça de duas toneladas, nos seus imponentes 1,8 m de altura por 3,6 de comprimento, que descansava profundamente nos jardins da fundação que leva o nome do artista. Desafiando as probabilidades com uma manobra digna de filme, em dezembro de 2005, dois carros invadiram a relva do jardim e, com a ajuda de um guindaste, levaram a peça conhecida pelo nome de “Recicling Figure LH608”. Os ladrões não foram apanhados e a obra também não, ela foi, sim, vendida como lixo por menos de três mil euros, quando estava avaliada em mais de três milhões.

Muitas mais histórias se podiam contar de roubos de valiosas obras de arte, de peças perseguidas, de quadros postos fora de circulação até por ideais políticos, quanto da arte degenerada foi retirada dos seus locais de origem para ser mergulhada na escuridão e mais tarde recuperada ou vendida ao desbarato. Quantas peças desaparecem sem se dar por ela em transportes mal assegurados, mesmo que o valor dos seus seguros seja cada vez mais alto e a implicação num roubo deste calibre tenha penas mais pesadas. O homem simplesmente não consegue alhear-se daquilo que é belo, daquilo que lhe confere um estatuto intelectual e daquilo que hoje é sobretudo o valor seguro com maior prestígio no mundo do dinheiro. Aqui não há roubar por roubar. Tudo obedece a uma estratégia com rotas definidas e interesses específicos. E quem tem medo de possuir um Da Vinci, um Raphael, ou um Warhol? Ninguém, o risco vale sempre a pena se o roubo for bem conseguido. Esse é o mote e o fim.