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Uma ideia forte num período difícil abre um mundo para nós

Créditos: conta do Facebook dos Lea Porcelain

Os Lea Porcelain fizeram um disco que não se sabe muito bem sobre o que é. Também é para isso que a música serve. E eles servem isto devidamente

Explicada assim, a receita para formar uma banda que é “uma bonita coincidência” parece fácil: um especialista em música eletrónica e um compositor com queda para a música tecno entram na mesma discoteca, em Frankfurt. Acontece que aquele espaço é o preferido de ambos.

Fazem amizade, põem outros projetos musicais de lado, decidem aventurar-se e escrevem a primeira canção juntos. A química é imediata: depois daquela seguem-se outras, uma mudança para Londres e acaba por sair um disco, “Hymns To The Night”.

Esta é a história resumida dos três anos de história dos Lea Porcelain, um duo originalmente alemão que costuma ser arrumado na categoria do pós-punk (eles dizem que não faz mal, porque “as pessoas precisam das suas gavetas”). Sobre a formação do projeto, diz Markus Nikolaus à revista “Culture Collide” que foi como andar muito tempo às compras, à procura da peça de roupa ideal, com alguma frustração à mistura, e de repente entrar numa loja pela qual não dávamos nada e encontrar ali o par de jeans ideal, logo na primeira prova.

A história da banda pode ser fácil de resumir, mas as facilidades ficam-se por aqui. Afinal, dizem eles, os versos querem dizer pouco, “pintam imagens” mas não contam histórias, transportam sentimentos sem os traduzir em palavras. O som transforma-se com frequência numa espiral de caos em que o sintetizador abafa a voz, a linha de baixo crescentemente pesada. As 12 canções que são hinos feitos à noite nem sempre são fáceis de decifrar, mas nesse caso não haveria aqui nada para discutir e a história dos Lea Porcelain não passaria à História.

Eles dizem que, deste disco, “Bones” e “Warsaw Streets” são as canções que melhor definem a sua espécie de género, a sua direção. Começamos por ouvir a primeira, que é a segunda do disco – antes dela veio “Out is in”, a primeira canção que Markus e Julien (Bracht) escreveram juntos e que lhes deu a ideia de se juntarem definitivamente, uma espécie de marcha militar com a voz distorcida a tentar impor-se – e “Bones”, mais fluida e leve que a sua antecessora, tem um travo inegável a Joy Division. “Importo-me com os teus ossos? Vou lembrar-me de ti.” Os sintetizadores entram em jogo para compor aquela sensação de navegar pelo espaço, quase a convidar a voz de Ian Curtis a entrar e a cantar o verso seguinte: “Há destruição nesse romance”.

A ironia é que “Warsaw Streets”, propositadamente ou não, acaba por lembrar o disco “Warsaw”, dos Joy Division, e de novo lá está o som deles como que atualizado, como se Ian Curtis e companhia tivessem renascido em 2017. “Nunca pareceste encaixar na cidade”, declara a voz difusa, que quase sempre murmura e se torna um mistério. O verso que se repete incessantemente assombra-nos: “Sabendo que não iria durar, sabendo que não iria durar”.

Essas repetições são recurso frequente e com frequência soam a acusação. Em “12th of September”, a lembrança: “Sabes que é verdade, tenho esperado por ti, durante noites e luas tenho esperado por ti”. E a acusação, com um coro feminino que a repete sem apaziguar: “Sabes bem disso, sabes que é verdade”. “Remember”, de novo com um travo a “Atmosphere” dos Joy Division, traz novos lamentos: “Sinto que já te perdi / A minha alma espera e recorda o sabor”. “A Faraway Land” traz o desejo de estar numa terra longínqua e por esta altura esse desejo, de navegar no espaço ou noutra dimensão em vez de estar aqui, parece comum a quase todas as faixas. “Estou tão farto disto”, ouve-se por entre os gritos arrastados de “The Love”.

Se a atmosfera é quase sempre pouco palpável, noutra dimensão, como se nunca tivéssemos a certeza do que eles cantam, do que sentem, se os sons são reais, também há exceções: com “White Noise” chega a única espécie de balada, um arranque de piano e uma pausa para retomar o fôlego, um momento breve – não chega a durar dois minutos - em que a voz respira e se impõe. O mesmo volta a acontecer em “Endlessly”, a fechar o disco, mais melodiosa, com mais guitarra e poucos artifícios a rodear a voz, limpa. “Estás simplesmente fora do alcance do meu toque.” É a conclusão, e provavelmente é o que sempre nos quiseram dizer, a imagem que nos quiseram pintar.

“A criatividade tende a surgir quando estamos a bater no fundo. Uma ideia forte num período difícil abre um mundo para nós”, explica Markus em entrevista à “The Seventh Hex. “Acho que é a esperança que se segue a um período de melancolia.” Talvez isto explique as melodias que surgem de outro mundo, a atmosfera nebulosa que nos assombra ao ouvir “Hymns To The Night”. Para tocar ao vivo, aliás, a banda explica que precisa de três coisas: “Nevoeiro, luz e som no lugar”. Só assim se sentem no seu ambiente, como se estivessem a sós. “Achamos que não faz diferença lançarmos este disco agora ou daqui a dez ou 20 anos, ou se tivesse saído há dez ou 20 anos. Não consegues seguir-lhe o rasto, não pertence a nenhuma década.”

“Sentimo-nos atraídos por figuras distópicas e apocalípticas, mas expressamos necessidades humanas básicas também”, detalha Markus. “As coisas simples são as que importam e às vezes parecem mais difíceis de expressar. As letras e o som são muito baseadas na intuição.” Aqui não há palavras óbvias, sentimentos abertos, declarações escritas com todas as letras. Afinal, qual é o propósito da música se não o de nos unir e fazer compreender quando tudo o resto falta, até as palavras?