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Combata a tirania antes que seja tarde

“O povo francês a exigir a destituição do tirano a 10 de agosto de 1792”, quadro de François Gérard (1794)

Vinte formas de evitar a morte da democracia num momento em que ela periga. Eis a proposta ou, chamemos-lhe antes, o grito de alarme de Timothy Snyder, que secundamos

Lançadas no período iluminista, as bases da democracia moderna – contrato social, primado da lei, separação de poderes, travões e equilíbrios – têm tido nos últimos dois séculos e picos um importante papel de proteção dos cidadãos da tirania. Essa função contribui para um progresso que, conquanto nos possa parecer sólido, não é unilinear nem contínuo, antes sofrendo avanços e recuos. Que o diga o século XX, com as barbáries nazi-fascista e comunista a deixarem rasto de mortandade nunca antes visto. Que o diga o XXI, em que ficou a nu o absurdo de acreditar que a História tem rumo definido ou mesmo um fim.

Timothy Snyder não tem dúvidas de que paira no ar a ameaça de novo retrocesso. O historiador americano, especialista na Europa Central e de Leste, sente por isso a necessidade de lançar um apelo: evitemos a repetição da História aprendendo com o passado. O seu sucinto “On Tyranny” (Sobre a Tirania) tem o adequado subtítulo “20 lições do século XX” e foi elogiado, entre outros, pela escritora bielorrussa Svetlana Alexievich: “Estamos rapidamente a ficar maduros para o fascismo. Este escritor americano deixa-nos sem ilusões quanto a nós próprios”, escreveu a Nobel da Literatura em 2015 a propósito da sugestão que hoje vos trago.

Professor na Universidade de Yale com obra publicada em português — duas obras suas sobre os horrores dos últimos 100 anos, Terra Sangrenta (2010) e Terra Negra (2015), saíram na Bertrand –, Snyder vislumbra no seu país tendências e tentações que visam minar os controlos democráticos que impedem que haja poder absoluto, isto é, tirania. As referências a um nunca nomeado Donald Trump são recorrentes ao longo deste livro de estilo bem anglossaxónico (que é como diz sem palha), cujo conteúdo tem um alcance bem mais vasto do que o da atual presidência americana.

Não obedeçamos por antecipação

Um dos maiores riscos para a democracia é, escreve o autor, a normalização da anormalidade. É um risco que se corre com homens como Trump (um encolher de ombros de quem suspira “ele é assim”), que é preciso combater com mais do que piadas e hashtags. Para tal têm alertado publicações tão díspares como a revista “The Atlantic”, o diário “The New York Times” e políticos de ambos os partidos nos Estados Unidos. A liberdade morre, muitas vezes, não num dia e de supetão, mas esmaecendo gradualmente perante a passividade cidadã. Citando Sérgio Godinho, podíamos recordar uma canção de há quase 40 anos: “O fascismo é uma minhoca / Que se infiltra na maçã / Ou vem com botas cardadas / Ou com pezinhos de lã” (Lá isso é, do álbum “Pano-cru”, lançado em 1978).

O pequeno volume de Snyder, que “The Guardian” compara a uma Constituição de bolso, propõe 20 medidas ou, se preferirmos, atitudes que são muito viáveis, práticas e eficazes contra a degradação da democracia. Ancorado na ideia muito liberal de que o sistema político americano, filho das revoluções do século XVIII, nasceu “para mitigar as consequências das nossas imperfeições reais e não para celebrar a nossa perfeição imaginária”, o académico mostra como a tirania entra sub-repticiamente na “política do dia-a-dia” e como cedemos poder a ditadores através de “atos de conformação desatenta”, bem antes de eles no-los exigirem. “A obediência por antecipação é uma tragédia política”, avisa o autor.

Como se põe cobro a isto? Snyder acredita no poder do cidadão e na importância das classes profissionais, que têm a responsabilidade de se negar a seguir ordens que ponham em perigo as liberdades cívicas. Sem juristas, médicos, burocratas, polícias e outros, argumenta, Hitler não podia ter levado a cabo o seu projeto genocida. “As pequenas escolhas que fazemos são, por si só, uma espécie de voto. As nossas palavras e gestos, ou a falta delas, contam muito.” Que o digam os judeus europeus cujo assassínio tantos concidadãos permitiram sem bulir.

Pós-verdade é pré-fascismo

Manter contacto e comunicação com o nosso semelhante, defender as instituições (cuja demonização é hoje moda tão popular quanto imbecil), fugir a emblemas de lealdade ao chefe, viajar e “ganhar mundo”, reconhecer a importância da linguagem que optamos por usar (e a que rejeitamos por mais que o tirano ou aspirante a tal no-la martele aos ouvidos). Eis algumas das sugestões acessíveis de Snyder, para quem “a pós-verdade é o pré-fascismo”.

“The Washington Post” considera este livro uma mostra de “literatura de resistência” e um “antídoto cristalino” contra as distorções deliberadas de Trump e quejandos e situa o combate no tempo presente, sem esquecer o efeito revolucionário das tecnologias da comunicação, mormente a Internet. A esse respeito o autor cita Hannah Arendt (pensadora que dá nome a um prémio que Snyder ganhou), para quem o totalitarismo não era a criação de um Estado todo-poderoso mas “o apagar da diferença entre vida pública e vida privada”.

“On Tyranny”, Timothy Snyder, Editora: Tim Duggan Books; Páginas: 128 páginas; Preço: $6,79 €6 (Amazon)

“On Tyranny”, Timothy Snyder, Editora: Tim Duggan Books; Páginas: 128 páginas; Preço: $6,79 €6 (Amazon)

Pensemos nas quantidades de liberdade de que abdicámos, em anos recentes, em prol da segurança. Pensemos, se estivermos fartos de Trump (mas não estejamos tanto que lhe fiquemos imunes) no estado atual de países como a Polónia ou a Hungria, nas voltas na tumba que deve dar Mustafa Kemal Atatürk ou em figuras como Putin, al-Sisi ou Duterte. E sim, mandemos vir esta obra crucial, seguindo o conselho de “The New York Times”: “Encarem este pequeno livro como se fosse um folheto médico a alertar para uma doença infecciosa. Leiam-no cuidadosamente e prestem atenção aos sintomas”. A cura só depende de nós.