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A amante do rei

“Madre Paula”, sobre a história de amor entre D. João V e uma freira, é a nova aposta de ficção da RTP1. A série de 13 episódios tem estreia marcada para quarta-feira no canal público

Paula era o seu nome e a reclusão o seu destino. Pobre e filha de homem pobre, havia de ser entregue a Deus pelo próprio pai, depois de o mesmo já ter acontecido com Maria da Luz, a sua irmã mais velha. A viver no Convento de Odivelas contra a sua vontade, a noviça (interpretada por Joana Ribeiro) rapidamente percebe que a vida no interior de um mosteiro é bem diferente do que julgava à partida.

O poder é como um jogo, e ela está disposta a jogá-lo, seguindo o exemplo de outras freiras menos castas. São várias as irmãs que recebem visitas regulares de homens poderosos — da corte, da nobreza e do clero — e que com isso conquistam um estatuto diferente nos claustros. Ela decide que não será diferente das demais, mas o seu fado era outro. A jovem, ainda inocente, acaba por entregar-se ao conde de Vimioso (Nuno Janeiro), que se torna o primeiro homem da sua vida, mas é com D. João V (Paulo Pires) que vive a sua grande paixão.

O rei e senhor de Portugal, a quem nada é negado (satisfação sexual incluída), também se enamora por Paula, e é aqui que começa a história de amor e perdição dos dois. Para trás fica a rainha Maria Ana de Áustria (Sandra Faleiro), soberana infeliz com quem D. João V não consegue procriar e a quem quase nunca recorre. A freira-amante é a mulher da vida do monarca e rapidamente passa a ser encarada como uma ameaça séria no decorrer da nova série da RTP1.

Quando lançou o livro “Madre Paula”, em 2014, Patrícia Müller estava longe de imaginar que o seu romance teria uma vida televisiva. “O que tínhamos falado era numa peça de teatro”, lembra ao Expresso, mas a história acabou por ganhar outro rumo, com a autora a dedicar-se a sério ao novo projeto no final de 2015. Tudo começou na altura em que a RTP lançou uma consulta de conteúdos, com Filipa Reis (da Vende-se Filmes) a perguntar a Patrícia se não queria entrar com alguma proposta. “Levamos a ‘Madre Paula’”, respondeu-lhe. Virgílio Castelo conhecia a obra e, segundo Müller, esta também já era familiar a Nuno Artur Silva. A ideia foi bem recebida.

Era tempo de avançar, e “Madre Paula” começou a ganhar forma, primeiro no papel e só depois nas gravações. A tarefa acabou por revelar-se mais fácil do que à partida se julgava, com o Instituto do Cinema e do Audiovisual a dar um apoio fulcral (de 365.200 euros, de acordo com o instituto público) ao projeto. “Tivemos sorte com tudo. Com o concurso, com a RTP, com os atores que conseguimos. Parece que foi tudo feito à medida”, conta Müller, que não abdicou de acompanhar todo o processo. “Foi uma experiência completamente nova, ver um texto de um livro meu a transformar-se, e consegui acompanhar tudo. Foi uma experiência porreira.”

Para a autora, que já havia escrito para outros projetos de ficção — entre filmes, séries, telefilmes e telenovelas —, a aposta em projetos como “Madre Paula” será o futuro da ficção nacional, sem que isso impeça a continuação de novelas na programação horizontal dos canais. “Espero mesmo que este seja o caminho, mas há que reconhecer que houve uma grande evolução e que também estamos a fazer boas novelas. No entanto, é um espectro muito pequeno e, ao lado das novelas, temos de investir nisto.”

Sobre a possibilidade de “Madre Paula” contar com uma segunda temporada, Patrícia Müller garante que isso não irá acontecer. “O círculo fecha-se completamente quando acaba a história deles, e essa história conta-se em 13 episódios de 45 minutos”, explica a criadora da série, para quem tudo tem “um princípio, um meio e um fim”. Quanto a quem tomou a decisão, Müller garante que “contar a história toda” foi “uma questão de combinação com a RTP” e mostra-se agradada com o resultado final. “Fizemos o melhor que podíamos ter feito”, diz Patrícia Müller ao Expresso, orgulhosa. “Esta é uma série histórica, que conta uma história real que muitas pessoas não conhecem e que por isso vão ter alguma curiosidade de ver.”

Gravada em locais icónicos, como o Palácio Nacional de Mafra, o Convento de Odivelas, a Quinta da Ribafria (em Sintra), o Palácio do Correio-Mor (em Loures), o Convento do Grilo e o Palácio dos Marqueses de Fronteira (ambos em Lisboa), “Madre Paula” foi rodada em 66 dias e contou com 60 atores e cerca de 700 figurantes. Do elenco fazem parte Joana Ribeiro, Paulo Pires, Sandra Faleiro, Miguel Nunes, Dinis Gomes, André Nunes, Pedro Lacerda, Nuno Janeiro, Guilherme Filipe, Miguel Moreira, Maya Booth, Maria Leite, Filipe Vargas e Romeu Costa, entre outros. A série da Vende-se Filmes — o primeiro projeto da produtora no campo da ficção — contou com produção de Filipa Reis e realização de Tiago Alvarez Marques e Rita Nunes. A estreia está marcada para a próxima quarta-feira, às 22h30, na RTP1