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Harry Potter ficou desatualizado? “Talvez estejamos a perder a magia”

Marcos Borga

Isabel Fraga traduziu para português cinco dos sete livros Harry Potter. Quando lhe lançaram o desafio nunca pensou que teria nas mãos as primeiras aventuras daquela que viria a ser uma das sagas mais vendidas de sempre. A 26 de junho de 1997, exatamente há 20 anos, “Harry Potter e a Pedra Filosofal” chegou às livrarias (para o ler em português, ainda foi preciso esperar mais dois anos)

A meio da tarde de um dia de calor, lá está Isabel Fraga com ar sereno e calmo. Quem por ali passa, muito provavelmente não sabe que aquela mulher de cabelos curtos soube antes de todos os segredos de Harry Potter, transformou as palavras de JK Rowling e ajudou a criar o mundo mágico do feiticeiro mais conhecido do mundo.

Já lá vão quase 20 anos desde que foi desafiada pela editora Presença a traduzir um “livro com muita influência de Tolkien, dirigido sobretudo para o público mais jovem”. Nessa altura, mal sabia que o seu ‘menino’ alcançaria feitos incríveis (nomeadamente tornar-se protagonista da série de livros mais vendida de sempre, 450 milhões de cópias).

A 26 de junho de 1997 chegava às livrarias a primeira edição de “Harry Potter e a Pedra Filosofal”. Só em outubro de 1999, e já com um contrato cinematográfico assinado com a Warner Bros, foi publicado em português. Isabel Fraga é quase como a mãe portuguesa de Harry, Ron e Hermione. Criou versos, cantigas e línguas e, ao contrário da tradução brasileira, optou por manter várias designações e todos os nomes dos personagens na versão original (“dava-lhes dignidade”, justifica).

Como surge o trabalho de traduzir “Harry Potter e a Pedra Filosofal”?
Em 1997, já traduzia para a Editora Presença [a responsável pela publicação dos sete livros da saga em Portugal] em regime contínuo há algum tempo. Entregaram-me então o Harry Potter. Deram-me o meu menino e gostei desde logo.

Porque diz que é o seu menino?
Envolvi-me tanto que senti que tinha participado na criação. Senti que era coautora. No fundo, o tradutor também é coautor. Quando passava nas livrarias e via as montras cheias de livros do Harry Potter ficava satisfeitíssima, como se aquilo também fosse meu.

Quando lhe apresentaram o livro que ia traduzir, como lhe foi descrito?
Disseram que era um livro de uma escritora britânica com muita influência de J. R. R. Tolkien [autor do mundo fantástico de “O Senhor dos Anéis” e “Hobbit”], dirigido sobretudo para crianças e jovens. Acho que a editora não fazia a mínima ideia que o livro poderia ter o sucesso e a popularidade que veio a ter.

E a Isabel, na altura, percebeu que aquilo que estava a ler teria a dimensão que teve e ainda tem?
Não, nunca. Gostei muito do que estava a fazer e envolvi-me bastante. Só para aí entre o segundo e o terceiro livro é que percebi que estava perante um sucesso editorial.

Como correu o processo de tradução?
É um livro com uma grande parte de imaginação e criatividade. Nunca li o livro antes de o traduzir. À medida que ia traduzindo, lia. Portanto, eram momentos de constante descoberta. Normalmente, fazia um primeiro borrão da tradução no café e mais tarde, já em casa, passava para o computador e era nesse momento que tinha mais cuidado com o português e com a construção correta das frases.

Como é que decide sobre as expressões que se devem ou não traduzir? Por exemplo, na tradução brasileira, praticamente todos os nomes das personagens são alterados…
Ficou ao meu critério decidir se os nomes eram traduzidos ou não. Por exemplo, no caso dos professores, não alterei porque entendi que os nomes originais mantinham a dignidade das personagens. Outras coisas foram adaptadas: o serpentês [em inglês, parselmouth; uma língua falada e compreendida por Harry Potter e Voldemort, considerado um dom raro associado à magia negra, que não pode ser aprendido]. Também o nome do sem-forma, que em inglês foi designado como Boggart [uma criatura que assume a forma no maior medo da sua vítima] e a Murta Queixosa, no original, Moaning Myrtle [um dos fantasmas, que vive numa das casas de banho da escola de Magia e Feitiçaria de Hogwarts], também adaptei.

Além de “Harry Potter e a Pedra Filosofal”, que mais livros traduziu?
Sozinha, foram mais os dois livros seguintes [“Harry Potter e a Câmara dos Segredos” e “Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban”]. Depois, com “O Cálice de Fogo”, juntaram-se a Isabel Nunes e a Manuela Madureira. Já na “Ordem da Fénix”, fomos as três mais a Aline Rocha. Isto aconteceu porque, além da editora precisar que a tradução fosse feita mais rapidamente, o quarto e o quinto livro eram os maiores, com 591 e 750 páginas, respetivamente.

Marcos Borga

Portanto, dividiam o livro por partes e cada uma traduzia…
Sim. A mim calhavam-me, normalmente, as primeiras 200 ou 300 páginas. Tendo em conta como o fizemos, até nem correu nada mal.

Nos últimos dois livros [“O Príncipe Misterioso” e o “Os Talismãs da Morte”] já não integrou.
Não participei porque calhava quase sempre nos meses de verão, em julho e agosto, pois a editora queria ter tudo pronto para começar a vender pouco antes do Natal. E, por essa altura, entre 2005 e 2007, também tive alguns problemas de saúde e tomei a decisão de não fazer.

E leu esses livros?
Li, claro. Estava tão ligada que não era o facto de não ter feito a tradução que me iria fazer abandonar aquele mundo mágico.

Nunca lhe perguntaram o que iria acontecer, uma vez que tinha acesso ao manuscrito antes do público?
Não. Nunca aconteceu.

Incomoda-a ser reconhecida como a tradutora do Harry Potter?
Não. Também não me reconhecem e ainda bem, porque prefiro passar tranquilamente pela vida. Acho a fama detestável.

Enquanto tradutora, foram trabalhos que lhe deram gozo?
Muitíssimo. Quando surgiu o Harry Potter, estava a acabar de traduzir uma série de policiais, com as salas de autópsia e nomes muito precisos. Quando chega o Potter, foi mesmo muito satisfatório. Especialmente as partes em verso, que são muitas, eram ótimas. Todos esses versejados deram muito gozo, até porque a minha linha é muito na poesia. Além disso, antes de ser tradutora, fui copy writer, o que exigia uma boa dose de loucura e criatividade. Com estes livros, encontrei matéria muito semelhante.

Porque é importante uma boa tradução?
É muito importante. Tem de ser harmoniosa e equilibrada. Por vezes, vemos livros de grandes autores traduzidos e pensamos ‘isto é que é um grande autor?’, quando na realidade se trata de uma tradução detestável.

Acha que a forma como foi feita a tradução influencia o sucesso que o livro teve junto dos portugueses?
Muito honestamente, acho que não. A história é suficientemente rica e, desde que tivesse uma tradução relativamente boa, seria sempre um sucesso.

E como leitora, gostou?
O Harry Potter pode ler-se de várias maneiras. É muito didático, dá noções de éticas muito importantes, apesar de estarem sempre associadas à magia. A personagem do Harry está sempre ligada aos fracos e oprimidos. Há também um ideia muito anticonsumo, por exemplo, ele tem um tesouro enorme em Gringotts, o banco dos feiticeiros, em que não mexe a não ser quando precisa de ajudar ao amigos. Há muito de Portugal e de português nos livros. Além de Salazar Slytherin [fundador de uma das equipas da escola], claramente inspirado no ditador, o próprio nome de Malfoy, o inimigo de Harry que representa o totalitarismo e machismo, começa com “mal”. É muito bem escrito e equilibrado, conseguindo manter o interesse ao longo de toda a narrativa. E há pequenos ensinamentos muito curiosos: não darmos importância aos nossos oponentes – a criatura do sem forma combate-se com o Riddikulus, um feitiço que ridiculariza o medo e o inimigo. Há também o Patronus, que derrota os dementors [umas criaturas maléficas] através das memórias muito felizes. É o ensinamento de ir buscar a força da felicidade para enfrentar os problemas.

Justin Sullivan/ Getty Images

Qual foi o livro que mais gostou? E o que gostou menos?
O preferido foi “Harry Potter e Câmara dos Segredos” e nem sei explicar muito bem porquê. Os que menos gosto são, provavelmente, os dois últimos, porque não estive tão envolvida.

E a personagem favorita? E a passagem?
Talvez o Ron. Era o mais pobre, filho de uma família enorme muito unido e com uma mãe que tricotava umas camisolas horrorosas, mas que ele usava sempre. Há uma cena em que Harry está a conversa com Dumbledore, o diretor da escola, sobre a equipa em que foi colocado. “O que nos define são as escolhas que fazemos”, acaba por dizer o professor. Isto diz-me muito, porque acredito que é através das nossas escolhas que vamos definindo a nossa personalidade.

Tem duas filhas, elas leram…

Neste exato momento somos interrompidas por Sofia Fraga, filha mais nova de Isabel, que estava a passear pelo parque onde realizámos a entrevista. Poderíamos dizer que foi magia, mas foi apenas coincidência. Tinha 17 anos quando o feiticeiro mais conhecido do mundo foi parar lá a casa. “Foram tempos espetaculares. Lembro-me de contar aos meus amigos da escola que estava a ler e eles gozavam comigo porque era um livro sobre feiticeiros e que era para crianças. Mais tarde, deram-me todos razão”, confidencia.

É com nostalgia que recorda aqueles tempos. A passagem é curta, vai continuar o passeio com a filha. Assim que se afastam, Isabel diz logo: “A minha neta mais velha já tem as edições ilustradas dos livros”.

O Harry Potter é só para crianças?
Acho que não. Li e vivi o entusiasmo do Harry Potter. Mas sei que há muita gente que não concorda comigo, as pessoas preocupam-se demasiado com o que outros pensam e o que se poderá dizer…

Como se explica o sucesso?
Às vezes não se explica. É como agora o Salvador Sobral e a Eurovisão, não há explicação. Claro que o livro é muito bom, mas existem outros que também são muito bons e não têm o sucesso. [Pausa] Talvez seja porque é autêntico. A autenticidade chega às pessoas.

Atualmente, os miúdos já não vibram com o mesmo entusiasmo com a série? O Harry Potter ficou desatualizado?
Os miúdos de hoje em dia leem menos, estão muito agarrados aos tablets e aos telemóveis. [Pausa] Ou então nós podemos estar a perder a magia. O mundo atual está muito pouco mágico e muito feio. Só o facto de um jogo como a Baleia Azul ter uma adesão tão grande é assustador. Espero que venham mais J.K. Rowling e mais livros como o Harry Potter, que nos falam de amor, do sonho e de acreditar noutras coisas e não nesta sociedade de consumo e indiferença.

  • “O (verdadeiro) epicentro de Harry Potter”

    J.K. Rowling viveu no Porto. Foi professora. A passagem foi curta, mas quem se cruzou com a escritora britânica garante que a experiência foi marcante e reflete-se no que escreveu. “Ali, teve muito boa matéria-prima para escrever sobre uma escola e a relação entre professores e alunos”. Tratam-na por Joanne ou por professora Jo. Foi assim que sempre a conheceram e é assim, mais de 20 anos passados, que a continuam a ver