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A turbulência, os arranques impacientes e o voltar atrás nervoso, a calma e a raiva incontrolável

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A turbulência, a calma, os arranques impacientes e a raiva incontrolável: tudo isto consta da lista de ingredientes de “Crack-Up”, o disco que marca o regresso dos Fleet Foxes e nos canta sobre amor e perda. “Eu não sou feito de aço, posso ir dormir?”

Parece a calma antes da tempestade, a quietude que precede o caos, nas palavras e no resto. “Sou tudo aquilo de que preciso / E sê-lo-ei até ao fim/ E ando ligeiro/ É bom estar sem ti.”

Quase nos convence disso. Quase ficaríamos descansados, não fosse a tempestade que rebenta (acontece quase sempre, nestas coisas do amor), os acordes furiosos: “É verdade, fui longe demais para te encontrar, um mito a que te obriguei a corresponder”.

São confissões de amor e perda dos Fleet Foxes, que cumpriram o regresso aguardado há mais de seis anos, desde o lançamento de “Helplessness Blues”. Estas que citámos fazem parte de “I am all that I need/ Arroyo seco/ Thumbprint scar”, a primeira faixa de “Crack-up”, a que nos apresenta à espiral em que acabámos de cair, como se espreitássemos o caos alheio. “Eu não sou feito de aço, posso ir dormir?”, clama num murmúrio Robin Pecknold, o homem da voz, quando a turbulência acalma.

A turbulência, a calma, os arranques impacientes e o voltar atrás nervoso, a calma e a raiva incontrolável: tudo isto faz parte de “Crack-up”, o disco em que nunca se sabe como a canção que acaba de arrancar pode terminar. A invasão do caos alheio já tinha começado quando a banda lançou o primeiro single, “Third of May”, e as análises se debruçaram sobre aqueles oito minutos e cinquenta e nove segundos que descrevem o hiato que o grupo atravessava desde 2011, quando lançou o último disco – desde então, todos os membros se dedicaram a projetos laterais e a reencontros com bandas antigas, exceto Josh Tillman, que partiu para se lançar como Father John Misty.

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Tanto “Third of May” como aquela primeira faixa foram justas e souberam preparar-nos para o disco impaciente, a precisar de concentração, que aí viria. “Cassius,-”, a canção que se segue, traz o som da chuva e da água, temas recorrentes que fluem como a vida que Robin canta. “Os homens tiram os trocos aos sem abrigo/ Azul e vermelho, as sirenes inúteis gritam / Enquanto eu andava eles estavam todos atrás de nós em silêncio / Como se não fossem afetados pela violência.” “Quem sobra para morrer” é a questão que ecoa no ouvido, depois de a tempestade se calar.

As melodias também conseguem espaço próprio: em “-Naiads, cassadies”, os versos são harmónicos, uma pausa na tempestade cheia de questões: “Quem te roubou a vida? Quem te virou contra ti? E agiu sozinho? Houve mais cúmplices? Quando cantava e te oferecia o anel/ Que voz mais velha te dizia ‘beija-o?’”. Se a canção parece uma inquietação romântica, não está sozinha: “Sou o mesmo que quando me viste então / Estamos destinados a reconciliar-nos”, canta-se em “Kept Woman”, quando o piano agita em vez de acalmar e a ambiguidade não nos descansa, como se onde há luz e esperança tivesse havido antes sempre perda e escuridão.

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“Third of May” é sobre amor, mas amor de uma forma diferente, o amor entre Robin Pecknold e o guitarrista e fundador da banda Skyler Skjelset e como se afastaram durante o hiato, como se voltaram a aproximar – “Fui demasiado lento? Mudei da noite para o dia? Não fomos feitos para estar juntos, como folhas?” – para trabalhar neste “Crack-up”. Porque “a luz acabou com a noite e a canção permaneceu”, canta. E a seguir vem “If you need to, keep me on time”, a continuação ideal, em que se pergunta: “Como é que tudo pôde cair num dia? Estaríamos demasiados seguros do sol?”. É a consequência lógica, o processo da cura, contado em versos.

No final há mais reflexão sobre o que falhou – em “On another ocean (January/June)”, Pecknold canta sobre alguém que acha que tem “alguém à espera” no fim do fumo; “Fool’s Errand” é a confissão do “tolo” que não podia acreditar no amor cego “à medida que os factos chegavam” (“Mas eu sei que vou andar contra o vento / O que tenho senão o pensamento?”).

“Crack-Up”, a canção que dá nome ao disco, deve funcionar como uma catarse, foi pensada para isso: “A mente não vai mentir / E o olho vermelho brilhante / Ainda não está fora de ti/ As palavras não vêm/ E a mão não toca/ E um sol de meia-noite / Não parece muito”. “Consigo ver que te partiste como um prato de porcelana.” Se for preciso mais contexto, Pecknold explica: “Queria que o início [desta canção] apresentasse uma questão que é brevemente solucionada e depois há esta espécie de explosão de energia como uma epifania e depois tudo se quebra mas com êxtase e depois fecha-se e há um arranjo de cornetas. Por isso, o disco acaba com este desanuviamento brilhante”. As palavras, sem pausas ou pontos que as abrandem, são dele, talvez tenham de ser lidas várias vezes para que haja clareza. E referem-se a esta “Crack-Up”, a fechar o disco do mesmo nome, mas quem ouve as dez canções que a antecedem não tem dúvidas de que a descrição, entusiasmada e acelerada, descreve e encaixa no conjunto.