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A última conversa de Umberto Eco: “Não contem com o fim dos livros”

GIUSEPPE CACACE/GETTY IMAGES

Uma conversa sobre o futuro dos livros entre o historiador e escritor, Umberto Eco, falecido em Fevereiro de 2016, e o argumentista e encenador Jean-Claude Carrière é agora editada (em livro) no mercado português

O filósofo Umberto Eco advoga que o livro ou "alguma coisa" que se assemelhe a ele, permanecerá como suporte de leitura e justifica, afirmando que uma vez inventado, não se pode fazer melhor.

Umberto Eco, falecido em fevereiro do ano passado, fez esta afirmação numa conversa com o argumentista e encenador francês Jean-Claude Carrière, moderada pelo jornalista e escritor Jean-Philippe de Tonnac, editada este mês pela Gradiva, sob o título "Umberto Eco-Jean-Claude Carrière. Não contem com o fim dos livros", numa tradução de Joana Chaves.

O francês Jean-Phillippe Tonnac refere que para os seus dois interlocutores - Umberto Eco e Jean-Claude Carrière - o livro é "uma espécie de perfeição inultrapassável na ordem do imaginário". Os dois investigadores são "experientes bibliófilos, escrutinadores e batedores de incunábulos".

A hipótese do desaparecimento do livro como suporte de leitura nos próximos 15 anos foi uma das possibilidades antecipadas por um "futurólogo" em 2008, no Fórum Económico Mundial de Davos, na Suíça, conta Jean-Claude Carrière.

Segundo o argumentista e encenador, o "futurólogo" previu que no futuro a água seria cotada na bolsa de valores, enquanto o barril de petróleo chegará aos 500 dólares e África "se tornará, seguramente, nas próximas décadas, numa potência económica".

"A questão é, pois, saber se a extinção definitiva do livro, se este desaparecer verdadeiramente, poderá ter as mesmas consequências para a Humanidade que a rarefação prevista da água, por exemplo, ou a inacessibilidade do petróleo", afirma Jean-Claude Carrière.

Tonnac, por seu turno, no prefácio, atesta que "o e-book [livro eletrónico] não matará o livro" e justifica esta sua sentença, afirmando que "se o livro eletrónico acabar por se impor em detrimento do livro impresso, há poucas razões para a expulsão deste último das casas e dos hábitos".

Umberto Eco aponta uma outra razão, de caráter prático: "o livro apresenta-se como uma ferramenta mais flexível" e acrescenta que "o computador depende da presença de eletricidade, não pode ser lido numa banheira nem mesmo deitado de lado na cama", além do facto de a leitura contínua do ecrã causar danos aos olhos.

Para o autor italiano, "das duas uma: ou o livro permanecerá o suporte de leitura ou existirá alguma coisa que se assemelhará àquilo que o livro nunca deixou de ser, mesmo antes da invenção da imprensa".

Por seu turno, Jean-Claude Carrière questiona se, "com o desenvolvimento de novos suportes cada vez mais adaptados às exigências e conforto de uma leitura todo-terreno, seja o das enciclopédias ou dos romances 'online', porque não imaginar apesar de tudo uma lenta desafeição pelo objeto livro na sua forma tradicional?".

Eco contra-ataca e afirma que o livro poderá, todavia, vir a interessar "apenas a um punhado de incondicionais" que se satisfarão em museus e bibliotecas, mas persistirá, e cogita a possibilidade de "a extraordinária invenção que é a Internet desaparecer por sua vez, no futuro".

Para Jean-Philippe de Tonnac, "a questão é mais propriamente saber que alteração introduzirá a leitura em ecrã" e refere que se vive um período de "dessacralização" do livro, que "uma civilização o colocara sobre um altar".