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Coração ao alto

Sílvia Pérez Cruz mostra a sua capacidade vocal ao lado de um quinteto de cordas e convida a uma visita ao cancioneiro universal

Sílvia Pérez Cruz apresenta “Vestida de Nit”, no Teatro Aveirense, Aveiro, dia 26, 21h30; no Teatro José Lúcio da Silva, Leiria, dia 28, 21h30; e no Centro Cultural de Belém, Lisboa, dia 29, 21h

Sílvia Pérez Cruz apresenta “Vestida de Nit”, no Teatro Aveirense, Aveiro, dia 26, 21h30; no Teatro José Lúcio da Silva, Leiria, dia 28, 21h30; e no Centro Cultural de Belém, Lisboa, dia 29, 21h

Tem uma voz prodigiosa que lhe permite ir onde quiser, trabalhar o tom, elevá-lo, torná-lo baixo e fazê-lo crescer ao limite. Joga com esse dom e com a força que ele lhe dá para enfrentar um quinteto de cordas difícil de domar: dois violinos, viola, violoncelo e contrabaixo. A luta é desigual, apercebemo-nos no início do disco, um “Vestida de Nit” que leva o coração da intérprete e compositora ao alto, numa entrega total, mas que deixa escapar frágeis quebras nas tentativas sucessivas de acompanhar os violinos, por exemplo. No entanto, a sofisticação vence sempre que o improviso assoma, e são muitas essas vezes, não fosse Sílvia uma especialista em jazz, o curso que frequentou na universidade. A caminhar, porém, por muitas outras águas, a cantora espanhola esboça aqui a sua deambulação pelas músicas da sua vida, as músicas do mundo e as músicas de todos nós. Veja-se ‘Estranha Forma de Vida’, da incontornável Amália Rodrigues; oiça-se ‘Hallelujah’, do grande Leonard Cohen; atente-se em ‘Não Sei’. Depois procure-se o melhor do álbum: ‘Tonada de Luna Llena’ e ‘Gallo Rojo, Gallo Negro’. Brasil, Portugal, Espanha, Catalunha, Canadá, mundo.

Hoje é este o universo de Sílvia Pérez Cruz, que começou a cantar o que ouvia de tradicional no seu ambiente familiar. Pai e mãe cantavam e tocavam violão. Não havia hipótese de sair desse caminho onde a colocaram desde tão cedo. Aos 12 anos já dava espetáculos e com 13 ganhava o primeiro cachê! Precoce, sim. Consciente, também. Quis estudar filosofia, antropologia. A música crescia dentro dela, e as profissões de um sonho antigo distanciavam-se face a um desejo cada vez maior de mergulhar na magia que é a música. “Sempre soube que a música faria parte da minha vida, não sabia é que poderia viver dela”, conta. A sua é uma busca pela “honestidade”. É por isso que canta o que vai vivendo e que a sua inspiração se solta das pessoas que vai encontrando. “Quero ser valente e honesta e quero continuar conectada com a verdade e comigo própria.” Simples. Sílvia não sente necessidade de procurar uma carreira, não é esse tipo de ambição que a move. “Não quero chegar a sítio nenhum, quero estar onde estou, neste momento. Quero estar mais a salvo, quero cuidar muito a minha música e quero que esteja sempre associada ao meu eu interior. E não me importo de mostrar as minhas fraquezas, que o público as sinta comigo, é assim a magia coletiva da música. Em palco, eu sou o canal por onde passam as energias.”

Entre a multiplicidade de estilos que foi absorvendo ao longo da vida sobressaem aqui o flamenco, onde Sílvia vai buscar “força e profundidade”; a música clássica, à qual suga “o cuidado com a sonoridade”; o jazz, do qual sai o seu “improviso”; a pop, que lhe permite “concretizar”; e o folclore, que a “ajuda a partilhar a música”. Nada que custe fazer a uma mulher madura que aprendeu a comunicar através do som. Foi assim desde os 3 anos, quando cantava e conseguia comunicar melhor do que quando falava. A aprendizagem séria veio pouco depois, e a menina aprendeu solfejo, piano, saxofone, composição e jazz, exatamente por esta ordem. A vocação transformou-se então numa “necessidade louca de cantar e de estar na música”. A mesma loucura com que canta ‘Loca’, mais um tema do disco que agora apresenta também em Portugal, em Aveiro (segunda-feira), Leiria (quarta) e Lisboa (quinta).