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Ange Dargent e Théophile Baquet em “Micróbio e Gasolina”: Michel Gondry visita a adolescência

O francês Michel Gondry assina um dececionante teen road movie

Não estaremos a dar uma notícia se dissermos que o que distingue o cinema de Gondry é o seu lado fantasista, o seu desejo quase infantil de transfigurar o real através de artifícios narrativos e gadgets visuais, num processo onde, amiúde, os efeitos acabam por sufocar as personagens (veja-se o desastroso “A Espuma dos Dias”). Frisamos este ponto óbvio apenas porque a nona longa de Gondry (“Micróbio e Gasolina”, que data já de 2015) é aquela onde, de um modo mais vincado, o cineasta procura ancorar o seu olhar ao real, atenuando a sua vocação de bricoleur para sondar a intimidade das personagens e, talvez, as suas próprias memórias pessoais. Vamos por partes.

O território onde o filme nos instala é, como a primeira sequência revela, o da adolescência (que Gondry percorrera já no curioso “A Malta e Eu”). Nela, uma série de panorâmicas inspecionam o quarto onde, entre desenhos e roupas espalhadas pelo chão, vai tentando pregar olho o Micróbio do título: um tímido rapaz de catorze anos residente em Versalhes, que — fazendo jus à sua alcunha — prima pela sua estatura diminuta (e, também, pelos seus longos cabelos loiros, que levam muitos a tomá-lo por uma rapariga). O prólogo do filme limitar-se-á a demarcar os espaços que balizam o dia a dia de Micróbio: a escola, a casa (dominada por uma mãe depressiva) e, dentro dela, o quarto (onde passa a vida a desenhar). Entre estes lugares, o protagonista vai fazendo sem grande vontade um movimento de vaivém, que será interrompido no dia em que um novo aluno aterra na sua turma. Trata-se de Gasóleo, um rapaz afirmativo que, para gozo dos colegas, chega sempre ao liceu coberto de manchas de óleo. Estes dois outcasts encontram depois um no outro o ponto de fuga que lhes permitirá evadirem-se da modorra dos dias. E abraçam um projeto comum: construir uma casa sobre rodas com peças de ferro-velho, para, no verão, partirem juntos pelas estradas de França.

O que daqui nasce é um road movie errante, onde as personagens se vão lentamente definindo. Porém, aqui chegados, a manta de Gondry fica curta, isto é: que “Micróbio e Gasolina” vai a reboque de uma ideia (a da viagem como metáfora de um processo de autodescoberta) que não é capaz de explorar plenamente. Isso fica claro no último terço, que, à falta de combustível, se desdobra inutilmente em situações caricatas para evitar aprofundar a relação dos miúdos. De facto, os momentos em que nos sentimos mais próximos deles são alguns daqueles que precedem a viagem: pensamos naquela genuína conversa sobre a masturbação e, sobretudo, na sequência em que, para consolar Micróbio, Gasóleo finge estar numa sala cheia de gente, valsando no vazio entre corpos imaginários. A trip que se lhe segue é um estudo da adolescência em piloto-automático que, em última análise, acaba por fazer esquecer o modo sensível como Gondry chega a olhar aqui para as personagens. É pena.