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O lugar estranho da verdade

Os London Grammar apresentam o novo álbum em Portugal no dia 14 de julho no Super Bock Super Rock, em Lisboa

foto Eliot Lee Hazel

Ao segundo álbum, os London Grammar afirmam-se como uma das bandas mais entusiasmantes da pop britânica

Quando os britânicos London Grammar começaram a dar que falar, no início de 2013, foram fustigados com comparações aos colegas The xx, muito por culpa das guitarras espaciais de temas como ‘Strong’ ou ‘Wasting My Young Years’. Quatro anos volvidos, a banda liderada por Hannah Reid regressa com um segundo álbum de originais, este “Truth Is a Beautiful Thing”, e não só se demarca radicalmente dos elementos que lhe valeram tais comparações como, pelo caminho, se afirma como uma das maiores forças motrizes da pop britânica atual. O trio londrino explora o lado negro da música popular como poucos outros, apostando nesta nova coleção em canções pintadas com ambientes soturnos, de respiração lenta, que colocam a voz andrógina e cheia de vicissitudes de Reid sob um gigantesco holofote. Não sendo tão ostensivamente dramáticos quanto os Mazzy Star ou os Cocteau Twins, torna-se impossível não traçar uma linha genealógica com as duas bandas que ajudaram a definir a dream pop. Contudo, os sonhos, neste disco, parecem ter virado pesadelo, com Reid, que além de cantar também é responsável pela escrita de canções, a refletir sobre a solidão que sentiu nos dois anos e meio que passou em digressão pelo globo. “Estar longe de todas as pessoas que amo foi particularmente difícil em determinados momentos”, confessou em entrevista ao Expresso, “e a solidão é uma sensação que demora a passar”.

A artista tem, no entanto, uma visão muito própria do álbum que criou com o guitarrista Dan Rothman e o multi-instrumentista Dominic Major, os restantes vértices da banda, “é engraçado porque, para mim, este álbum é menos negro do que o primeiro, embora algumas pessoas sintam que é mais”. A luz que se sentia (ou pressentia) em ‘Flickers’, ‘Hey Now’ ou mesmo ‘Wasting My Young Years’ pouco se avista por aqui, a nosso ver. Entre o existencialismo de temas como ‘Who Am I’ e canções agressivamente comoventes — ‘Rooting for You’ é hipnotizante, ‘Oh Woman Oh Man’ arrisca-se a fazer chorar as pedras da calçada — os London Grammar constroem um álbum com poucos momentos de fuga: a bateria de ‘Bones of Ribbon’ ajuda a aliviar um pouco a tensão, mas é na sequência constituída por ‘Everyone Else’ e a eletrónica quase dançável de ‘Non Believer’, bem no centro do álbum, que encontramos um pouco de luz.

A complicada dinâmica das relações humanas e a forma como ela nos define é algo que nasce da tal solidão que Reid assume ter sentido e é esse o ponto nevrálgico de um registo que, tal como o título indica, problematiza o conceito de “verdade”: “todos nós experienciamos as coisas de formas tão diferentes que é interessante pensar na forma como negociamos entre nós para encontrar um meio-termo ou respeitar as diferentes verdades uns dos outros”. Nesse sentido, as belíssimas ‘Big Picture’ e ‘Hell to the Liars’ e, claro, o tema-título, que encerra o disco despido de artifícios, num jogo intenso entre a voz de Reid e o piano, são as verdadeiras pedras de toque de um registo que conta com produção de luxo (Paul Epworth, nome associado a Adele e U2; Greg Kurstin, colaborador de Sia, Lily Allen e Shins; e o génio das eletrónicas ambientais Jon Hopkins têm todos o nome inscrito nos créditos), que não só não macula a identidade da banda como a faz explorar com maior profundidade uma sonoridade única e rapidamente identificável. Nem todos os segundos álbuns são difíceis.