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Leïla Slimani: “Tenho uma imaginação muito negra”

Tornou-se uma estrela da literatura francesa ao arrebatar o Goncourt, em 2016. Conversa sobre o seu romance-choque, “Canção Doce”, editado agora em Portugal

JOEL SAGET/AFP/Getty

Ao telefone, a partir de Paris, Leïla Slimani aproveita uma sesta do filho recém-nascido para falar com o Expresso. Embora o primeiro livro já tivesse causado algum alvoroço (com elogios da crítica e boas vendas), foi o segundo romance que a projetou para a ribalta mediática, ao vencer a mais recente edição do Prémio Goncourt. “Canção Doce”, uma narrativa duríssima sobre a destruição de uma família, analisada a raios-X, acaba de ser publicada por cá pela Alfaguara.

O ponto de partida para este livro, já o assumiu, foi um fait divers acontecido em Nova Iorque. Uma ama assassinou a criança que tinha à sua guarda. Quais foram os aspetos dessa história que a atraíram?
Na verdade, antes de descobrir esse fait divers, já tinha vontade de escrever sobre a figura da ama, fazendo dela a personagem central. Porquê? Porque a ama é alguém com um papel muito particular numa família. Ela ocupa-se das crianças, ama-as, cria-as, muitas vezes ensina-as a falar, a andar, mas ao mesmo tempo está numa posição complicada, porque as crianças que vê crescer não são suas, a ama está no interior da família mas não faz verdadeiramente parte dela. Sempre achei que nestas relações havia matéria para um romance, mas não encontrava a forma de abordar o assunto. Ao ler aquele fait divers criminal, pensei: ora aí está um ponto de partida.

E é literalmente um ponto de partida. O crime de infanticídio — hediondo, brutal — é descrito nas três primeiras páginas. Porque escolheu começar assim o romance?
Em primeiro lugar, quis captar desde logo a atenção do leitor. Colocar na sua cabeça as perguntas difíceis de responder. Por que razão decidiu aquela mulher matar as crianças? No princípio, há um efeito de choque. E esse choque vai fazer com que se queira ir mais longe na tentativa de compreender o que terá acontecido. No fundo, quis que o leitor se tornasse, ele mesmo, um investigador. A partir daí, todos os pequenos pormenores da vida quotidiana se transformam em pistas para entender o mistério. É uma investigação psicológica, mas também uma radiografia dos factos aparentemente insignificantes do quotidiano. E com um efeito de real: tudo o que se passa na vida destas pessoas, pode acontecer também na vida do leitor.

De início, Louise parece a ama perfeita. Os sinais da sua perturbação psicológica vão surgindo muito gradualmente. Dar a ver esse movimento lento foi um desafio narrativo?
Sem dúvida. Acho mesmo que foi o aspeto mais difícil do livro. Criar essa progressão, pouco a pouco, em fragmentos. Não quis que ela se tornasse inquietante de forma brusca. Há pequenos indícios de que algo de errado se passa, mas nunca sabemos bem o quê. Em termos de escrita, o principal desafio foi mostrar que a Louise não cai de repente no abismo da loucura, vai deslizando para lá.

A inquietação que o livro provoca nasce em larga medida da ausência de uma explicação razoável para o crime.
Para mim era a única forma de contar a história. E foi por isso que fiz questão de deixar a personalidade da ama envolta numa aura de mistério. Por muito que investiguemos, um crime destes é sempre inexplicável. Nunca conseguiremos compreender por que razão alguém chega ao ponto de matar crianças. Por outro lado, o papel de um romancista não é encontrar todas as explicações. É antes tentar reconstituir o que se passou. Cabe a cada leitor construir depois um sentido para o que é contado.

Seria fácil reduzir Louise ao estereótipo do monstro, mas o romance nunca vai por esse caminho.
Pois não. Ela cometeu um ato monstruoso, sim, mas tem outras dimensões. É um ser humano complexo. Acho que o papel do escritor, ao contar a história de um pretenso monstro, é mostrar que ele nunca se resume ao crime que cometeu, por repugnante que seja.

Acaba de ter um filho, neste momento com poucas semanas de vida. Quando chegar a altura, vai ser capaz de deixá-lo ao cuidado de uma ama?
Sim. Sem problema nenhum. Há uma ama que vai ocupar-se do meu filho. Ela já tratou, aliás, da minha filha. Está comigo há muitos anos. E não se parece nada, mas mesmo nada, com Louise... [risos]

Sabe por acaso se ela leu este livro?
Leu, sim. E disse que eu era maluca por imaginar coisas tão horríveis. Mas como também leu o meu primeiro romance, já sabia que eu tenho uma imaginação muito negra.

Esse primeiro romance, “Dans le Jardin de L’Ogre” [com edição portuguesa prevista para 2018], tem uma protagonista — Adèle, uma mulher incapaz de controlar as suas pulsões sexuais — que escapa igualmente ao que se designa como normalidade social. O que aproxima Louise e Adèle? E o que as afasta?
O que têm de mais próximo é a solidão. Só mostram aos outros uma aparência perfeita, doce, como se estivessem bem, quando na verdade são outra coisa, são mulheres devoradas por uma forma de melancolia, por uma forma de violência, aspetos que escondem. A diferença é que Adèle se esforça, apesar de tudo, por pertencer ao mundo dos outros. Repare que deixei o fim do livro em aberto. Não sabemos se ela vai conseguir voltar a corresponder ao que esperam dela. Adèle não tem pulsões violentas para com os outros, só para consigo. Por seu lado, Louise não conseguiu construir uma vida pessoal. Ela é capaz de um paroxismo de violência de que Adèle seria incapaz.

Viveu metade da sua vida em Marrocos e metade em França. Considera-se mais francesa ou mais marroquina?
Nem uma coisa nem outra. Considero-me cem por cento marroquina e cem por cento francesa. Vivo em França, mas a minha mãe continua em Marrocos. Vou lá muitas vezes. Aquela é a minha cultura, a minha comida, as minhas paisagens. Amo os dois países como amo os meus dois filhos.

Sente a pressão de ter chegado à ribalta da literatura francesa surpreendentemente depressa, ganhando o Prémio Goncourt logo ao segundo romance?
É preciso não pensar nisso. Fazer as coisas com sinceridade. Escrever só quando temos mesmo vontade, quando queremos mesmo dizer qualquer coisa. Não tenho a atração da ribalta, dos projetores. Eu gosto da minha vida simples, como ela é, de ter tempo para me ocupar dos filhos, viajar, estar com os amigos, divertir-me. Tenho toda uma vida fora da esfera literária. Dito isto, o Goncourt foi uma enorme, uma belíssima surpresa. Foi maravilhoso porque me permitiu chegar a leitores a que de outra forma nunca chegaria.