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Robert Service: “É inconcebível Lenine não ter aprovado o assassínio dos Romanov”

Nicolau II

D.R.

Um livro agora publicado descreve o percurso que culminou na morte de Nicolau II e da sua família, incluindo cinco filhos menores

Luís M. Faria

Jornalista

O historiador britânico Robert Service, um dos maiores especialistas mundiais sobre a Rússia no século XX (são clássicas as suas biografias de Lenine, Trotsky e Estaline, por exemplo) veio a Portugal apresentar uma obra sobre o último monarca russo, que foi também o derradeiro representante da dinastia Romanov. Na conversa com o Expresso, não faltaram pontes para o presente.

Escreveu uma série de livros sobre a URSS e alguns dos seus líderes iniciais, bem como sobre a queda do comunismo e o período subsequente. Agora recua e fala do último czar, Nicolau II, mais precisamente dos seus últimos dezasseis meses de vida. Outros livros recentes têm-se igualmete ocupado dos Romanov sob uma forma ou outra. Porquê esse interesse agora?
Durante décadas, a Rússia não pôde examinar a sua própria história. Sabia-se que Nicolau II teve um fim brutal, mas os respetivos detalhes e motivos, bem como as condições da sua detenção, foram mantidos secretos durante as sete décadas da URSS. Quando ela acabou, o campo abriu-se e a liberdade de investigação fez com que as prateleiras das livrarias se enchessem.

Na sociedade havia um sentimento de que os russos tinham o direito a outros sentimentos em relação ao seu passado. O Kremlin reconheceu isso e procurou compor uma narrativa que é mais ou menos assim: no século XXI, houve ruturas radicais na Rússia. Uma delas aconteceu em 1917, quando Nicolau II abdicou e uns meses depois os bolcheviques tomaram o poder. As revoluções, disseram Boris Yeltsin e agora Vladimir Putin, são quase sempre trágicas. Putin, em particular, não quer nenhuma revolução, pois ela afastá-lo-ia do poder. Por isso, ele é os seus ministros olham com algum afeto para os últimos anos de Nicolau II, e não vêm alguns aspetos negativos do seu governo.

Embora ele fosse uma pessoa modesta e afetuosa no trato com os próximos, houve razões para ter perdido o poder. Era um nacionalista extremo e um antissemita e mesmo depois da desgraça não mudou. Com as revoluções de 1917 não tinha a menor chance. Os camponeses e os trabalhadores estavam fartos dele. Com a inflação, os ordenados caíram. Os soldados nas guarnições não queriam ir para a frente ocidental combater por ele. Mais importante, os generais queriam livrar-se dele. Eram quem tinham nas mãos a guerra importantíssima contra o imperialismo germânico e disseram-lhe que não achavam poder vencer a guerra se ele continuasse czar. Nessa altura, a sua coragem quebrou-se e ele abdicou. A sua saída foi seguida pelo abandono da guerra por parte da Rússia. O que quase levou à vitória da Alemanha. Se tivesse acontecido, toda a história do resto do século XIX teria sido diferente. Portanto, a queda de Nicolau II tem um significado histórico mundial. Foi por isso que escrevi este livro.

Como é que a Rússia atual vê o czar?
O imperativo da Rússia oficial hoje em dia é curar as feridas e assegurar aos cidadãos que o caminho melhor é a evolução, não a revolução. Assim, o governo colaborou na santificação de Nicolau II pela Igreja Ortodoxa russa. Putin diz que é crente, e sabe-se que tem um conselheiro espiritual que é um padre. Ele associa-se não apenas à Igreja, mas também aos valores sociais tradicionais. Tem sido assim nos últimos quatro ou cinco anos. Ele fala contra o desrespeito pelas mulheres, em particular pelas mães. Na esfera social, os seus valores são os de um conservador do século XIX. E antes de o demonizarmos, devemos recordar que esses valores ainda há não muito tempo eram promovidos na maioria dos países europeus. Só recentemente tivemos a nossa transformação de atitudes em muitas questões sociais. A Rússia está mais atrasada. As pessoas educadas, que obtém a sua informação da internet e não da televisão russa, têm opiniões mais próximas da Europa ocidental. Mas não é assim nas províncias, nas aldeias.

Quanto das atitudes políticas de Putin acha que é convicção e quanto é oportunismo?
Acho que ele é ao mesmo tempo um oportunista e um crente. Ele tem consciência de que o seu apoio a atitudes dominantes da sociedade russa lhe valerá muito provavelmente a reeleição como Presidente no próximo ano. Ao mesmo tempo, basta vê-lo em entrevistas, e há muitas na internet, para perceber que ele se anima quando fala de patriotismo, de voltar a erguer a Rússia como um grande poder no mundo, de fazer os cidadãos sentirem-se orgulhosos. Isto é genuíno. Como o é a sua formação como agente do KGB. Os seus princípios condutores formaram-se muito cedo na vida e ele continua-lhes fiel. Falta de escrúpulos, quebrar as regras, quebrar mesmo as suas próprias leis. Isso para ele não é um problema. Ele é um governante nascido do velho KGB.

Enquanto historiador que escreveu biografias de líderes soviéticos, e portanto fez um esforço longo e dedicado para entrar na psicologia do poder, vê alguma continuidade entre Putin e outras figuras do passado?
Sim, vejo conexões entre ele e secretários-gerais comunistas. Também eles governaram de forma autocrática, com um completo desrespeito pela lei nos seus países. Mas os czares fizeram a mesma coisa. Putin não só lembra Brejnev e Estaline, como alguns dos czares mais agressivos do passado. Ele conta, por exemplo, como Alexander III disse que o orgulho de toda a Rússia era o seu exército e a sua marinha. Não tanto a sua cultura, o seu ballet ou a sua literatura. Podemos ver os predecessores não apenas no tempo da URSS, mas nos czares do século XIX.

Finalmente, no que toca à execução de Nicolau e de toda a sua família, incluindo as crianças, o senhor não têm dúvidas sobre a responsabilidade de Lenine.
Não. A linha de responsabilidade não pode ser traçada até nenhum documento em concreto, pois Lenine teve muito cuidado em não se deixar implicar. Mas as provas circunstanciais bastariam para ele ser condenado num tribunal. Nicolau estava nas mãos de comunistas cujo contacto com Moscovo era constante. A situação tornava-se cada vez mais perigosa para os comunistas, não apenas em Ekaterinburgo (onde a família real foi morta) mas até em Moscovo, com a ameaça de revoltas. É inconcebível que Lenine não fosse solicitado a dar a sua aprovação para o assassínio dos Romanov. Ele era minucioso a garantir que as suas ordens eram cumpridas. Nesse verão de 1918 os bolcheviques mataram todos os Romanov a que conseguiram deitar as mãos, incluindo vários que tinham prendido. De resto, já perguntaram publicamente a Putin por que é que Lenine tinha de matar a família toda. Ele não negou. Mesmo as crianças foram mortas, e até o cão! Um ato completamente bárbaro. Não obstante todos os defeitos de Nicolas II, temos de ter pena dele.

(a crítica a "O Último dos Czares" será publicada na edição impressa do Expresso no próximo sábado)