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Resistir para “Fazer a Festa” – nem só com primavera se faz um festival

As páginas da história do “Fazer a Festa” são escritas com muita resistência e amor a uma causa: o teatro. Os tempos são de aperto para o terceiro festival internacional mais antigo em Portugal, mas mais uma vez abre alegremente ao público, entre 29 de junho e 9 de julho

Em tempos foi um festival de primavera – realizado de forma simbólica entre 25 de abril e 1 de maio –, mas atualmente e desde o início do milénio o “Fazer a Festa” – Festival Internacional de Teatro subsiste, como pode, a um inverno rigoroso, imposto pela quebra no financiamento. Os dias áureos do evento, organizado pela companhia Teatro Art’Imagem, ficaram nas décadas de 1980 e 1990, quando arrastava milhares de pessoas até ao Palácio de Cristal, no Porto. Arredado do circuito cultural da cidade e há 12 anos sem apoio autárquico, desse passado afortunado nada sobra. Somente um palacete na Quinta da Caverneira, na cidade da Maia, onde um grupo de resistentes teima em não deixar cair o terceiro festival internacional mais antigo em território nacional.

Com resiliência, lutam por manter uma programação digna do historial do certame, subordinado este ano ao tema “o tempo que passa não passa depressa ou o teatro entre passado e futuro”. Quem o põe de pé, não esquece a época dourada, mas adapta-se a uma nova realidade, e é assim que o “Fazer a Festa” regressa sem qualquer amargura. Nesta 36.ª edição, com a apresentação de nove espetáculos entre 29 de junho e 9 de julho, promete levar o público até um “Milagro” ou um país insuflável alicerçado nos simbólicos versos de Mário Cesariny: “Queria de ti um país de bondade e de bruma / queria de ti o mar de uma rosa de espuma”.

Ao longo de mais de uma semana, o festival divide-se entre as cidades da Maia e do Porto. O epicentro desta celebração da arte dramática faz-se na Quinta da Caverneira, na Maia, mas estende-se também ao Fórum da Maia e à Casa das Artes do Porto, bem como a três bares da Invicta: Maus Hábitos, Aduela e Pipa Velha. Às cinco peças nacionais de teatro, destinadas a todas as idades, juntam-se três espetáculos de companhias espanholas e ainda uma produção luso-australiana.

Cegueira, reinos de indignidade e enciclopédias para quem não sabe o hino

O arranque do festival terá lugar no Grande Auditório da Fórum da Maia, no dia 29 de junho, pelas 21h30, com o espetáculo “Os Cegos”, a mais recente criação da Companhia Teatro de Braga, a partir de um texto do Nobel da Literatura Maurice Maeterlinck, encenado por Rui Madeira. Na conferência de imprensa de apresentação realizada esta quarta-feira, o diretor artístico do festival José Leitão explicou que a peça remete para um teatro simbolista, muito baseado no texto e quase estático. “É um espetáculo para uma Europa paralisada pelo medo. O medo de perder o emprego, o medo do outro que nos vem roubar a comida… É o medo de nós próprios”, acrescentou o responsável, relativamente a uma produção a cargo de uma companhia profissional, mas protagonizada por um elenco amador, membros de um clube de leitura em Braga, sendo muitos deles refugiados.

Entre 30 de junho e 2 julho, as apresentações terão lugar nos jardins e nos espaços da Casa das Artes do Porto. No dia 30, próxima sexta-feira, sobe ao palco, às 21h30, “A Commedia Dell’Arte Show AKA Gabrielliana For Two”, com representação de uma atriz portuguesa e um ator australiano, numa produção a cargo de Mari & Crupi Theatre Company. A peça – falada em inglês, italiano e português – tem por base “um conto sobre dois reinos rivais, os de Cima e os de Baixo, ambos semelhantes em pobreza e indignidade de vida”, lê-se na sinopse.

A 1 de julho, às 18h30, chega aos jardins da Casa das Artes “O Republicário”, com encenação de Ricardo Correia, para nos levar a conhecer a história de um vendedor de enciclopédias ambulante, viajante de terra em terra, na demanda de tentar vender o seu produto, numa república perturbada e na qual já ninguém sabe a letra do hino nacional.

A partir das 21h30, no auditório, dá-se o “Milagro”, a cargo da companhia espanhola Tranvia Teatro e com direção cénica de Luis Miguel González Cruz. Trata-se de uma peça sobre o amor, a piedade, a memória e, sobretudo, sobre a identidade do ser humano.

Da procura de um país de bondade e de bruma até ao “Desparaíso”

“Queria de ti um país de bondade e de bruma / queria de ti o mar de uma rosa de espuma”. Estes são dois dos versos – suficientes para se fazerem poema – mais célebres de Mário Cesariny, expoente máximo do surrealismo em Portugal. E são também o ponto de partida para o espetáculo “O meu país é um país insuflável”, apresentado no dia 2 julho, pelas 18h30, na Casa das Artes, com dramaturgia de Rui Alves Leitão e que se assume como uma reflexão sobre Portugal. “Funciona muito bem com o público infantil, que é muito mais surrealista do que o público sénior”, frisa José Leitão, o diretor artístico do “Fazer a Festa”.

De 6 a 9 de julho, o “Fazer a Festa” chega a casa e instala-se na Quinta da Caverneira. Logo no primeiro desses dias, pelas 21h30, apresenta “Shakespeare en Berlin”, com texto original e direção de Chema Carmeña, num enredo que nos leva à capital alemã, com o nazismo em progressão, através de uma viagem temporal até 1933.

No dia 7, à mesma hora, faz-se uma homenagem à escritora e filósofa Maria Zambrano – primeira mulher a ser distinguida com o Prémio Nacional de Literatura Príncipe das Astúrias –, através do espetáculo “Maria Zambrano La Palabra Danzante”. Na peça fica patente o pensamento poético da autora, a emergência de logos femininos e o desenvolvimento da condição humana essencial.

No penúltimo dia do festival, 8 de julho, o público será levado até ao “Desparaíso”, através da história de D’Jon, um migrante em busca de melhores condições de vida em solo europeu, mas relegado para os mais pobres subúrbios de Lisboa. O espetáculo da Musgo – Produção Cultural conta com encenação de Paulo Campos dos Reis e sobe ao palco às 21h30.

Para completar o cartaz, no dia 9 de julho, pelas 18h30, viajamos até “O Sonho de Pedro”, com texto de Ricardo Simões e encenação de Elisabete Pinto, numa criação a cargo do Centro Dramático de Viana. O espetáculo leva-nos numa incursão até à vida e obra do artista António Pedro: poeta, pintor, escultor, autor do “Pequeno Tratado de Encenação” (1962), fundador do Teatro Experimental do Porto e responsável por transformar drasticamente o teatro. Às 20h, na Quinta da Caverneira, faz-se a festa de encerramento de um festival que conta igualmente com uma exposição dos 36 cartazes de todas as edições, intitulada “FESTASfeitas”, numa homenagem aos criadores do evento.

A somar a toda esta programação estão igualmente contempladas conversas informais entre alguns dos diretores de companhias teatrais e o público, entre 3 e 5 de julho, no Maus Hábitos, Aduela e Pipa Velha. Durante esses três dias, sempre às 18h30, serve-se “Teatro ao Châ – Conversas de Fim de Tarde”.

Está, assim, preparada mais uma edição do “Fazer uma Festa”, um festival onde a “teia de cumplicidades” é a unidade motriz que vai permitindo a realização de um certame com 60 mil euros de orçamento global, mas com apenas 13 mil destinados à programação, como explica José Leitão. “Mais uma vez as cumplicidades funcionaram. Mais uma vez as pessoas do teatro fizeram milagres”, assegura o responsável.

Esta edição conta com o apoio da Direção Geral das Artes/Ministério da Cultura, Câmara Municipal da Maia, Direção Regional da Cultura Norte e Instituto Português da Juventude.