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Natureza, sol e Rock Nordeste - a música portuguesa vai ao parque

Hugo Sousa D.R.

Mão Morta, Dead Combo, The Legendary Tigerman, Sensible Soccers ou Samuel Úria são alguns dos nomes que vão agitar Vila Real, na quarta edição do Rock Nordeste, um festival inteiramente dedicado à música portuguesa

A música vai ao parque. O verão ainda não chegou, mas os festivais de música parecem dar-se bem com a primavera e já aquecem as expectativas de muitos melómanos. Para lá das altitudes do Marão ou do Alvão, numa cidade entre as serras, realiza-se a 4.ª edição do Rock Nordeste, em Vila Real, entre esta sexta-feira e sábado. O evento, de entrada livre, assume-se como uma autêntica montra para a música portuguesa, com um cartaz inteiramente composto por bandas e artistas nacionais. Os concertos de The Legendary Tigerman, Dead Combo ou Sensible Soccers são alguns dos atrativos do certame. Muito há para ver e ouvir, entre mergulhos na piscina ou nas águas calmas do Rio Corgo, durante um festival em sintonia com o meio ambiente. É só armar a tenda e deixar-se embalar – por vezes com recurso a uma “Carga de Ombro” mais acentuada, num lance musical perfeitamente legal de Samuel Úria. Não é preciso ir até “Budapeste” com os Mão Morta para fazer a festa, porque eles deslocam-se até Nordeste, onde as noites também são de rock n’roll… mas não são só bandas a tocar.

No cenário envolvente do Parque Corgo, com quase 30 hectares de frescos relvados, a responsabilidade de abrir o festival – que, em tempos, foi um concurso de novos talentos – fica este ano a cargo dos Dead Combo, acompanhados por um conjunto de cordas (violoncelo, viola de arco e violino), num concerto, pelas 22h30, que servirá para apresentar o trabalho discográfico mais recente, “Dead Combo e As Cordas da Má Fama”.

A noite prossegue e a animação também, com a atuação da rapper Capicua – de regresso ao festival – agendada para a meia-noite. Esta será uma noite de reencontro também para os Sensible Soccers, um dos nomes mais pedidos pelo público, com o quarteto a subir ao palco à 1h40, para nos levar numa viagem experimental e exploratória até às paisagens sonoras de “Villa Soledade”, nome do álbum editado em 2016, mas com passagens obrigatórias por sucessos precedentes como “AFG” ou “Sofrendo por Você”. O dia inaugural fecha com o dj set de DJ Marfox, a partir das 2h50.

Da “Urgência” de Márcia até à arte de abrandar de Slow J

A agitação musical começa mais cedo no sábado, logo ao início da tarde e prolonga-se noite dentro. Márcia chega a Vila Real com “A Urgência” (nome do mais recente single) de quem traz na bagagem o último registo discográfico para interpretar ao vivo. Intitula-se “Quarto Crescente” e, entre outros temas da artista, será apresentado num concerto agendado para as 18h. Uma hora depois, é a vez de Samuel Úria pegar na guitarra e embalar-nos com “Carga de Ombro”, nome do último álbum. “Põe o teu ombro junto ao meu, carga de ombro é legal”, assim dizem os versos do cantautor português, responsável por nos levar até latitudes musicais situadas algures entre o amparo e a provocação.

À noite, a partir das 22h30, chega um dos concertos mais aguardados do festival. A emblemática e histórica banda bracarense Mão Morta, liderada pelo sempre desconcertante Adolfo Luxúria Canibal, desloca-se ao Rock Nordeste para um concerto comemorativo e que assinala os 25 anos da edição do álbum “Mutantes S.21”. “Entre as sombras e o lixo”, esta será uma odisseia por Lisboa, Amesterdão, Budapeste, Barcelona, Marraquexe, Berlim, Paris, Istambul e Shambalah, nomes das faixas que integram o disco, considerado pela crítica como um dos melhores da década de 1990 em Portugal.

Às doze badaladas, é a vez do “one man band” The Legendary Tigerman – alter ego musical de Paulo Furtado – assumir a responsabilidade de animar a noite ao som de sucessos como “Twenty First Century Rock n’ Roll” e apresentar o tratado musical “How To Become Nothing”, diário de bordo sonoro de uma travessia pelas paisagens secas do deserto da Califórnia. Pode dizer-se que há um antes e um depois do surgimento de Tigerman no panorama do rock nacional. O agora é em Vila Real.

“The Art of Slowing Down” é o mais recente álbum de Slow J, artista que toma conta do palco a partir da 1h40 com o seu hip-hop visceral, mas onde se encontram também remanescências de fado, rock e semba. O Rock Nordeste termina com a atuação, às 2h50, dos Beatbombers, dupla formada por DJ Ride e Stereossauro, pioneiro do scratch no nosso país.

Em declarações ao Expresso, o programador Ilídio Marques, da produtora “covilhete na mão”, frisa que o “pilar base [deste festival] centra-se na melhor música que é produzida em Portugal nos dias que correm”, numa programação variada, com a intenção de alinhar bandas e artistas de diferentes géneros e gerações. “Esta mescla forma um público muito interessante e muito interessado em ver os nomes que o leva ao festival, mas também muito curioso para ver outros que ainda não conhece na íntegra”, explica o responsável artístico. “No fundo, a Nordeste, há um encontro de gerações que se movem pela música, que é algo que não tem e nunca terá idade”, acrescenta.

A bússola da música “made in Portugal” aponta, assim, para o Rock Nordeste. “E não desaponta mais”, garante Ilídio Marques. Desde 2014, ano da primeira edição, já passaram pelo evento aproximadamente 45 mil pessoas, sendo que na edição anterior a adesão rondou a marca dos 23 mil, de acordo com os números avançados pelo programador. O Rock Nordeste é uma iniciativa da Câmara Municipal de Vila Real.