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Somos perigosos

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Vamos falar de coros de igreja, de faixas punk-rock e daquela canção triste sobre uma depressão e um funeral. E sim, este início de texto foi estranho - tal como o novo disco dos Alt-J

Temos boas notícias para si que comprou o novo álbum dos Alt-J (ainda haverá quem compre discos?) ou que abriu o Spotify (ou o Deezer ou a Apple Music ou o Google Play Music ou o Tidal ou etc) para descobrir as coisas novas de “Relaxer”: na verdade, aqui há dois ou três, talvez oito discos diferentes, tantos quantas canções cabem em 39 minutos. Sobre este novo álbum, dificilmente se podem fazer os elogios cliché da música, aqueles dos álbuns coesos e da evolução coerente – a cada faixa parece que uma aventura nova começou, a cada viragem conhecemos uma banda diferente.

Para dar alguns exemplos e perceber do que estamos a falar: neste disco curto incluem-se participações de coros da igreja, punk puro, referências literárias aleatórias e letras sobre diabos da Tasmânia que se apaixonam por mulheres que nadam todas as manhãs. Se o caos de contradições e confusão pura não parecer suficiente, comece-se logo pelas imagens que acompanham o disco: logo na capa há uma imagem de um corpo ensanguentado.

Aqui nada tem ordem lógica – tem sim apostas arriscadas e uma reinvenção constante, como numa procura de estilo próprio que passou de um qualquer estúdio privado para ficar exposta ao mundo. Antes de “Relaxer” houve “An Awesome Wave” (2012, vencedor de um Mercury Prize) e “This Is All Yours” (2014) e falámos deles para dar contexto e explicar o papel dos Alt-J no mundo: a “Consequence of Sound” chamou-lhes “fenómeno”, eles que são uma banda de rock alternativo que encontrou sucesso comercial. Daí a ansiedade para entender o que vem em “Relaxer” e saber se a fama os desestimulou.

Romantismo, rock sem sentido e uma versão inesperada

A aventura em “Relaxer” arranca com “3WW”, um exemplo que não prepara ninguém para o que vem aí. Afinal, esta é uma canção romântica que fala das “três palavras gastas” que os amantes trocam entre si, melodiosa e doce. “Oh, estas três palavras gastas / Oh, que suspiramos (…) / Eu só quero amar-te na minha própria língua”. A canção ama a três vozes, as dos vocalistas Joe Newman e Gus Unger-Hamilton com a participação de Ellie Roswell, a fazer lembrar o tom e os versos de Lana del Rey (“O amor é só um botão que pressionámos / Ontem à noite na fogueira”).

A esta história de amor errático segue-se, e nós avisámos, “In Cold Blood”, que foi feita para ser divertida e vazia, uma distração para a banda e para quem a ouve. O nome refere-se à obra prima de Truman Capote “porque soava bem”, mas a canção repete-se sobre “verão, piscina, verão, piscina”, e Gus explica à BBC Radio 6 que os fãs têm explicações muito mais profundas que eles próprios: esta letra “não é massivamente profunda”, é só um desvio elétrico, contagiante, a primeira incursão no rock que voltará depois.

A esta segue-se o estranho cover ou talvez homenagem a “House of the Rising Sun”, com versos da canção original e versos novos sobre um pai com os vícios do álcool e do jogo, sobrepostos a um dedilhar de guitarra que soa a Mumford and Sons a espaços. “Dia feliz, dia divertido”, canta um coro com uma disposição que soa pouco divertida. “É um trabalho original e não um cover metido ali para ocupar espaço”, esclarece a banda. “Nós sempre nos vimos como uma espécie de banda folk, por isso parece adequado tentarmos uma canção como esta. Continuámos o processo folk de pegar numa canção, mudá-la e passá-la ao próximo”, cita a NPR.

Dave Mangels/ Getty Images

As aventuras que abrem o disco têm continuação por caminhos mais ou menos óbvios: a veia punk-rock continua com a provocante “Hit me like that snare”, com o cenário de um motel (“‘Moon Shaped Pool’ toca na cela de veludo / Sinal de néon verde que diz ‘Bem-vindos ao Inferno’”) a dar o mote a uma faixa mais pesada, distorcida. “Somos adolescentes perigosos /Vai-te lixar, eu faço o que quiser”, diz o grito da libertação, com a banda a explicar que esta é suposto ser uma faixa “divertida, sem preocupações”. “Deadcrush” vai pelo mesmo caminho, com um nome literal – os versos focam-se nas paixões platónicas, mulheres há muito mortas, de Joe (a fotógrafa Lee Miller) e Gus (a rainha Ana Bolena) – e uma batida de respiração humana gravada e repetida.

Fora as incursões rock, a estranheza continua em “Adeline”, uma canção que nos obriga a desapertar os cintos de segurança e escutar a tristeza de um diabo da Tasmânia apaixonado por uma mulher, Adaline, que todas as manhãs vê nadar e ouve cantar uma canção irlandesa, “The Auld Triangle”. Podia ser uma interpretação rebuscada, mas é mesmo a explicação da banda sobre estes versos: “Onde o maxilar do diabo é demasiado fraco para te despedaçar / Oh, eu desejo-te o bem/ Minha doce Adeline”.

Kevin Winter/ Getty Images

O ano do funeral e as experiências que correm bem

O melhor presente de “Relaxer” chama-se “Last Year”, uma canção melancólica que Joe escreveu e achou demasiado “deprimente” mas que felizmente veio parar ao alinhamento. Durante seis minutos, canta-nos de sílabas arrastadas sobre o último ano da sua vida (“Janeiro veio e levou o meu coração (…) / Em dezembro, cantaste no meu funeral”). Ao verso de dezembro segue-se a tal canção do funeral, cantada aqui por Marika Hackman, a lembrar a voz delicada mas enérgica de Birdy e a trazer vida nova à canção. “A primeira parte, em que Joe está a cantar, é a leitura de alguém sobre o seu declínio e depressão e morte ao longo de um ano”, explica Gus.

A fechar chega “Pleader” – precisamos de falar de todas, porque todas trazem elementos que surpreendem –, cantada a meias com o coro da igreja em que Gus costumava cantar, de novo com uma referência literária (a inspiração é “How green was my valley”, de Richard Llewelyn) e feita para ser um hino épico, numa confusão de guitarra, piano e violino em crescendo. “Gloriosa a voz dos homens / Victoria! / Vozes que talvez a nossa rainha inveje.” Volta a soar a Mumford and Sons nos arranques mais épicos e, de repente, tudo acaba, estranho como começou.

Quem ouve “Pleader” ou “Last Year” terá dificuldades em perceber que se trata da banda de “In Cold Blood” ou até de êxitos mais antigos, como “Breezeblocks”. Mas eles não têm medo de experimentar – e se às vezes as experiências parecem despropositadas e algo vazias, outras são certeiras e nenhuma delas aborrece.