Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

Perguntamos sobre mulheres poderosas: ela é vulnerável, ela é humilde, ela sorri?

Não sabemos apresentar Sevdaliza em poucas palavras. Por isso vamos desistir desta entrada ansiando que você não desista do texto - porque ela, Sevdaliza, refugiada que queria ser jogadora de basquetebol e acabou a cantar canções eletronicamente melancólicas, é merecedora de uma leitura longa

Créditos: conta no Facebook de Sevdaliza

Sevdaliza é uma mulher de extremos. A sua voz, rica e protagonista, oscila entre a doçura e a crueza; o som que a ampara, escolhido com método, passa do piano sem adornos à música eletrónica próxima do dubstep; e a sua imagem, em tudo o que faz – no que canta, nos vídeos que cria, na arte que inventa – varia entre o véu do mistério e a imagem de uma mulher simples, verdadeira, que se quer mostrar como é, porque às vezes tem “pena das pessoas que ficam prisioneiras da representação das suas próprias vidas”.

As mudanças de estilo, de humor, de método ou de ambiente são explicadas pela própria: “Somos humanos, não somos os mesmos todos os dias, mesmo que tenhamos de representar uma certa imagem.” Para mais, o seu disco de estreia, “ISON”, encapsula os últimos cinco anos da sua vida, pelo que a textura da sua voz, palavras e som acaba por ser necessariamente rica e diversa. O resultado é um disco surpreendentemente coeso – o elemento comum é que acabamos por vê-la, Sevdaliza, com todo o seu poder, no centro de tudo.

É exatamente isso que ela sente em relação a este disco, o primeiro mesmo que já venha lançando música desde 2014, e apenas uma das muitas demonstrações artísticas que nos traz, por entre as criações visuais (há uma versão visual que acompanha o disco, inteiramente disponível no Youtube, neste caso criada pela artista Sarah Sitkin) ou a voz que educou de forma autodidata, depois de até aos 23 anos “não ter cantado uma única nota”. O que fazia era escrever versos, dar-se bem com as palavras, sem imaginar poder dar-lhes voz.

Por entre essas vidas tão diferentes – ela é uma refugiada política, que tem origem iraniana mas vive em Roterdão; sonhou ser jogadora de basquetebol profissional, mas abandonou a equipa holandesa em que jogava; esteve nos seus planos tirar um mestrado em comunicação; por entre tudo isto, soma apenas 28 anos – foi possível reunir palavras e experiências para encher este “ISON” de verdades diferentes. E é também por isso que no Facebook anunciou assim a chegada deste trabalho: “O álbum novo manifestou-se e estou pronta para o partilhar com vocês”.

Sobre a arte visual que acompanha o disco, Sarah Sitkin (uma das parceiras artísticas – Mucky coproduziu o disco, e há ainda a assombrosa sessão fotográfica de Sevdaliza e a mãe para acompanhar a canção “Hero”) explicou como todas as pontas se unem: “A ideia base é a de Sevdaliza ser a sua própria mãe e a das suas vidas passadas”, cita a “Pitchfork”. Também a artista fala em “vestir as 16 vidas passadas” – “ISON” tem 16 faixas – e reviver os últimos anos da sua vida, num disco que “vai além do óbvio das desilusões amorosas, sobre a vida, o universo, o envelhecimento, sobre tudo, basicamente”, diz à “Billboard”.

As palavras nunca são leves

Se é verdade que o disco é sobre mais do que “o óbvio das desilusões amorosas”, estas também têm lugar – em cinco anos é provável que as tenha sofrido, mas com tempo para as perceber, pensar e recontar ao mundo. “Marilyn Monroe”, a terceira faixa, arranca com um tom de voz – e é preciso saber que na música de Sevdaliza a voz toma o papel principal, mas com tantas subtilezas que consegue tornar-se quase irreconhecível, a que ouvimos no princípio do disco quase indissociável da que escutamos no fim – mais doce, facilmente imaginável num remix de DJ para dançar, por entre as músicas do verão.

Mas as palavras não se tornam mais leves por isso. “É verdade / Aos teus olhos / Eu nunca fui a tal / Tudo o que viste / Foi um espelho partido / E eles disseram-me / Que me preocupasse / A tentar curar o teu coração / É injusto/ Estou a tentar curar-me / Sem me preocupar muito contigo.” A fechar, uma confissão falada: “Ele nunca quis mesmo que eu fosse sua mulher / Eu não passava de um troféu / Foi incrivelmente sufocante”.

“Amandine Insensible”, que ao princípio pode parecer mais uma incursão pelos caminhos de um coração desiludido (“Há uma mulher / Ela falha-lhe sempre / Ela vive para ser rejeitada (…) Há uma gravidade / Que está a puxar a essência dela para baixo”) ganha outra dimensão acompanhada do seu videoclipe, ou não fosse Sevdaliza uma artista multidisciplinar, que se expressa conforme se sente no momento – como ela diz sobre a música, mas explicando mais do que a sua música: “Não me inclino necessariamente para um género, mas um processo, ou um humor específico, como a melancolia”.

Neste videoclip, as várias versões de Sevdaliza são na verdade as várias versões da mulher, nos vários papéis que cada uma interpreta. Enquanto deseja “gritar por ajuda” (“mas o meu coração é demasiado frio”, acrescenta), vemo-la e vemos tudo o que significa ser uma mulher. “Quando uma mulher está a mostrar o seu poder, esse tipo de mulher vai ser muito questionado. É quase uma aberração. Perguntamos sobre mulheres poderosas: ela é vulnerável, ela é humilde, ela sorri? Julgamos as mulheres de forma mais dura do que os homens nesse sentido. Acho que é muito interessante poder ser as duas coisas”, explica à “Dazed”.

É quando reflete sobre o que é ser mulher e o seu poder que Sevdaliza nos dá os pedaços mais crus e honestos das suas palavras, mesmo que emprestadas a outra pessoa. Em “Loves Way”, quando declara “eu não rezaria por ti, se ao menos soubesse que o amor é o caminho”, o órgão dá lugar à voz de uma homilia proferida por um homem: “Nenhuma mulher está na situação certa com um homem que já lhe diz, com as suas ações, que o que quiser fazer e quando o quiser fazer não depende de ti, mesmo sobre o teu próprio corpo. O que está errado é que nós, por alguma razão, começamos com as cedências. Porque só Deus pode dar-nos a compatibilidade certa”, explica, para euforia e por entre aplausos de quem o ouve.

Ser mulher e o poder que isso lhe traz

Essa componente de ser mulher e do poder que isso lhe traz também marca presença em “Hero”, em que reflete sobre a maternidade como conceito, desta vez com um som mais eletrónico e a distorção na voz. “Heroína / Nunca te poderia fazer amar-me”, canta, a camada do violino a entrar e o som crescentemente sofisticado. É para esta canção que Sevdaliza fez uma sessão fotográfica com a sua mãe, em que as duas aparecem de branco, serenas, por vezes mostrando muita pele, porque se sente mais verdadeira assim.

“Quando penso em ser mulher ou ser mãe, a maior parte disso é pele. Se pegares na pele como um órgão, ele reflete tanto sobre a vida de uma mulher. Se uma mulher dá à luz, o seu corpo muda completamente.” E completa: “Se uma mulher tem poder, porque é que temos de disfarçar o poder dela? Adoro mostrar a minha pele, não para os homens verem, mas por mim própria. É um órgão vivo, que respira, e acho que usar-me a mim própria como projeção pode ser muito vulnerável e forte ao mesmo tempo”.

A voz e as palavras no centro

Se um só género não se adequa a ela – nem um género de arte, nem sequer um género de música, navegando suavemente do jazz mais clássico a toques de R&B modernos consoante o que a música pede – a dualidade “vulnerável e forte” é provavelmente a melhor forma de descrever o seu trabalho. Em “Shahmaran”, quando percebemos que por muito que o piano seja forte a voz dela tomará sempre o centro do palco, declara: “Eu morreria um milhão de vezes e tu ressuscitar-me-ias / Eu cairia um bilião de vezes / Mas tu não me deixarias”. “Hubris” já a encontra noutro estado de espírito: “Eu já não te amo / No relatório da autópsia lia-se / Que as entranhas eram lindas”. Em “Bluecid”, de novo o desespero: “Estou dividida entre a obsessão e o ódio / Pela confusão que ele me fez fazer”, canta, sobre “o homem com o cigarro”. E em “Replaceable” recompõe-se: “O relógio está a contar / Não percas o teu tempo / Eles vão, eles vêm / Tão substituíveis”.

A unir todas estas canções está a voz, que soe mais doce ou agressiva, sobreposta a um piano melódico e a sons de orquestra ou aos tons mais eletrónicos, nunca parece deste mundo. O resumo faz-se em “Human”: “Sou carne, ossos / Sou pele, alma / Nada mais do que humana / Suor, imperfeções”. E epifania falada em “When I reside”, a chegar ao fim do disco: “Quando mais a luz se tornar brilhante / Espero que revele / Que toda a minha dor valeu a pena”.

Se a voz que merece mais adjetivos do que aqui cabem é o ponto de encontro entre as canções e estados de espírito, assim o é também o seu talento para encontrar e juntar as palavras certas. No fim de ouvir e repetir “ISON”, é possível viajar para o seu Twitter e encontrar pequenas declarações poéticas que nos contam mais sobre ela e as suas mil dimensões. Das mais bonitas: “Uma flor é uma flor, florescerá com ou sem reconhecimento, porque é a sua natureza”.

Esta última reflete a confiança que Sevdaliza sente e que atribui a ter começado a cantar mais tarde, conhecendo-se a si e aos seus processos. “Eu reconheço a minha própria força, e não vejo isso como um perigo”, explica à “Dazed” a artista que se descreve como “pretensiosa”. “Eu tento ser mais livre e filosófica na abordagem do caminho que escolhi. Pode ser sombrio e solitário, por vezes, mas também te dá muita luz, porque é uma escolha tua em vez de ser escolhido para ti.”