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Cultura

O Narciso em cada um de nós

"Metamorfose de Narciso, por Salvador Dali" (1937)

Na era da selfie, um livro sobre individualidade e individualismo questiona o impacto que a obsessão umbiguista irá ter na Humanidade e no mundo

“Espelho mágico, espelho meu, há alguém mais bela do que eu?”, perguntava, ansiosa, a Madrasta da Branca de Neve. Se fosse hoje, é plausível que olhasse não para um vidro refletor mas para um ecrã que não só mostrasse quão bonita estava, mas também registasse a imagem para a posteridade, com a incontornável partilha nas redes sociais. Vivemos na era da selfie e ainda é cedo para sabermos que efeito (se algum) a moda terá nas relações e na forma de indivíduo e sociedade olharem para si mesmos e um para o outro, mas é pertinente refletir sobre o fenómeno.

Selefie, por Will Storr Editora: Picador; Páginas: 369; Preço: £18,99 (€21,46)

Selefie, por Will Storr Editora: Picador; Páginas: 369; Preço: £18,99 (€21,46)

É o que tenta fazer Will Storr, num livro que não se limita à selfie propriamente dita (a foto tirada ao próprio, quase sempre com o telemóvel) mas a toda uma cultura do “eu”. A revista “Literary Review” frisa que poucos questionam a noção de individualidade, mas o autor descreve-a como “apenas uma crença”. É que “os seres humanos são criaturas incipientes, que agem sob influências que mal compreendemos e criam racionalizações a posteriori para o nosso comportamento, para sustentar a ficção de uma identidade coerente”.

Recuando até à Grécia Antiga (onde Aristóteles foi dos mais acutilantes a defender o conceito de indivíduo), passando pela alvorada do cristianismo, a Idade Média e os loucos Sixties, de onde virá esta fome de protagonismo ou, se quisermos, narcisismo? Estaremos condenados à sorte da figura mitológica grega que dá nome à doença e que, apaixonado pelo seu reflexo nas águas, acabou por se deixar ficar a contemplá-la até morrer? Se o título da obra é “Selfie”, o subtítulo é “como nos tornámos tão obcecados connosco próprios e o que isso nos está a fazer”.

O diário “The Guardian” recorda que Freud “diagnosticou esta loucura [o narcisismo]como perversão, uma opção neurótica pela solidão estéril, mas o aviso foi fútil. O iPhone mecanizou o narcisismo e um aparelho destinado a facilitar a comunicação comos outros levou os seus utilizadores mais viciados a comportarem-se como uns primos muito afastados das Kardashian, que sorriem, pirosos, enquanto documentam as suas proezas nada notáveis”.

"Afinal de contas, cada um de nós é o seu próprio espelho mágico"

"Afinal de contas, cada um de nós é o seu próprio espelho mágico"

Da Escócia à Califórnia

Storr mete as mãos na massa, sem fugir ao estilo algo autobiográfico que perpassa em muita não-ficção anglossaxónica. Passa temporadas num mosteiro escocês e visita o sol da Califórnia e as start-ups de Silicon Valley, catalisadoras da atual encarnação do fenómeno. Pelo caminho indaga conceitos como caráter, identidade e personalidade. Entrevista uma jovem que armazena centenas de milhares de selfies em cartões de memória, discos rígidos e iCloud, devidamente filtradas e editadas. Mas tanto olhar para o umbigo não lhe traz felicidade: automutila-se e é ao fazê-lo “que se sente mais viva”. O que leva o autor a admitir que a obsessão narcísica seja sinal de descontentamento e mesmo de falta de autoestima, alimentado por um “perfecionismo social” que pode ter como última consequência o suicídio de quem não se sente à altura.

Todos temos, cá dentro, um “contador de histórias”, propõe Storr. É ele que tenta fazer a súmula da infinidade de estímulos e desafios com que deparamos diariamente. Nela, tendemos a surgir como o bom da história, mas nem sempre é esse o caso. E a obsessão da autoestima conduz ao narcisismo, escreve o autor, com “dados de investigação interessantes a apoiar esta afirmação”, nota a “Literary Review”, menos persuadida pelos capítulos sobre suicídio.

O maior mérito da obra é, segundo a revista, “atacar a ideia sagrada da individualidade, recolocando a cultura no cenário”. “The Guardian” estranha as escassas referências ao narcísico mais proeminente dos nossos dias, Donald Trump, a quem parece servir como uma luva a definição dessa condição dada por um especialista consultado pelo autor: “um poder obscuro… imensamente poderoso e preocupado apenas em perseguir os seus próprios interesses, à custa do resto do mundo”. Há narcisos mais perigosos do que outros…