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Cultura

O lado negro do riso

O calvário de um homem honesto: Stefan Denolyubov em “Glória”

Da Bulgária 
chega um filme onde inocência, corrupção e mentira desenham uma quase farsa 
em que o riso dói

Tzanko Petrov é funcionário estatal dos caminhos de ferro. Vive, solitário, numa casa rural muito pobre — como companhia, apenas uns coelhos de que se ocupa, zeloso para que não lhes falte água e erva para retouçar. E tem um relógio que acerta logo que se levanta, porque as horas do tráfego ferroviário não lhe são indiferentes. Todas as manhãs, empunhando uma enorme chave de porcas, percorre o troço de via férrea que lhe está atribuído para verificar travessas e apertos, cantoneiro de uma espécie de estrada onde só passam comboios. Ele é um tipo hirsuto, de barba que não corta (“fiz uma promessa”, dirá algures no filme), modos rudes, ensimesmado — a fala prende-se-lhe numa gaguez danada que, como se sabe, é atributo não muito favorável à comunicação. Por aqueles dias, o país não vive um clima muito sossegado. A televisão só fala em corrupção nas esferas governamentais, a crise económica está a causar sérios problemas (o nosso homem, funcionário público, não recebe o parco salário vai para dois meses), nos gabinetes ministeriais os nervos estão à flor da pele. É por isso que, quando Tzanko Petrov encontra um monte de dinheiro abandonado na via férrea e se apressa a entregá-lo à polícia, a mulher que está à frente das Relações Públicas do Ministério dos Transportes não cabe em si de contente

Um cidadão impoluto que o ministro possa condecorar e enaltecer, um funcionário exemplar para exibir em horário nobre vem a matar para canalizar a atenção para outro lado. E manda-o vir à capital, depois de enviar lá à terrinha uma equipa que o filme no seu estado simples de herói. Tudo muito bem medido e previsto, só que a realidade vai ser um bocado diferente dos desejos. Um bom bocado diferente. Até porque, na azáfama da cerimónia, a relações públicas perde o relógio do herói, marca Glória, presente antigo do pai — coisa para causar dano irreparável.

“Glória” é, a espaços, quase farsa, mas é o lado negro do riso, por cima de um drama global, já que, do vaivém dos ministérios, aos corredores da televisão, dos trabalhadores dos caminhos de ferro à esquadra de polícia, há qualquer coisa de pegajoso, de irrespirável, de salve-se quem puder que impregna aquela sociedade — qualquer coisa contrária à vida, qualquer coisa de mortífero. Sente-se uma mentira global, um vazio ético — e cresce em nós, espectadores, uma raiva surda, uma boa raiva. E isto sem que o filme se dobre a uma qualquer propaganda ou facilidade incendiária. Pelo contrário, o seu curso é sempre engenhoso e subtil, o seu fio narrativo constantemente surpreendente — até a um final de estarrecer, tanto mais brutal quanto apenas sugerido.

“Glória” é um filme búlgaro, mas aquilo de que fala não é exclusivo da Bulgária. É por isso que, apesar de centrado numa realidade específica, eu acho que todos podemos lá reconhecer realidades nossas.