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“Compõe algo sem início e sem fim, Angelo”: o relato das canções paranormais de Twin Peaks

Lynch, um herói alternativo

d.r.

Já se escreveu muito sobre o regresso de Twin Peaks mas não se escreveu tudo - faltou explicar aquelas canções, saber de onde vieram, entender o seu propósito, perceber aquele romantismo paranormal. Mais do que um texto para ler, isto é um artigo para ouvir

11h30, 24 de fevereiro. A entrar na cidade de Twin Peaks. Fica a cinco milhas a sul da fronteira canadiana, doze milhas a oeste do limite do estado. Nunca vi tantas árvores na minha vida.”

Esta é a impressão de quem entra pela primeira vez na aparentemente pacata cidade de Twin Peaks, segundo o relato que o detetive Dale Cooper faz logo no episódio piloto da série, antes de surgir a icónica tabuleta que anuncia uma população modesta: 51201 habitantes, os suficientes para encher a série de personagens peculiares e, dita a trama de David Lynch e Mark Frost, cheias de segredos pouco abonatórios.

A descrição aparece quando já passa cerca de meia hora do primeiro episódio, originalmente estreado a 8 de abril de 1990, a data em que a cultura mudou e o que era só de culto passou a pertencer às massas. Mas nesses 30 minutos já nos tinha sido apresentada Twin Peaks de várias formas, parcas em palavras e mesmo assim claras. Por exemplo, quando o longo genérico de troncos de árvore, estradas vazias e maquinaria variada ganha vida com o “Twin Peaks Theme” a tocar e ouvimos o nevoeiro de segredos e melancolia a invadir a cidade, ou quando Bobby, depois de tomar o pequeno-almoço no vulgar diner americano, escolhe na jukebox uma música de Angelo Badalamenti, “I’m Hurt Bad”, para dedicar a Norma.

Se o assunto são momentos sonoros icónicos não podemos deixar passar a descoberta do corpo da jovem Laura Palmer, o evento que dá o mote à estranha série de mistério de Lynch e que nos deixa perceber que a cidade paralisada – os alunos dispensados das aulas, a doca fechada – não está habituada a eventos deste calibre. Quando os cabelos femininos se tornam visíveis por entre o plástico em que o corpo de Laura foi enrolado, soa “Laura Palmer’s Theme”, a mescla de melancolia e doçura que marcará a partir daí a arte da banda sonora e da música em geral, de acordo com qualquer crítico de uma destas artes ou de qualquer fã das mesmas.

“Abranda as coisas e ela torna-se mais bonita. Vejo Twin Peaks”

O momento da criação de “Laura Palmer’s Theme”, entre Lynch e o compositor que com ele fez parceria em várias obras, Angelo Badalamenti, já se tornou em si uma lenda à parte do fenómeno de popularidade de Twin Peaks. Essa lenda reza – e tem mais do que um fundo de verdade, porque os protagonistas já a contaram uma e outra vez – que um dia, corria o ano de 1988, Lynch visitou o amigo Badalamenti no seu estúdio de Manhattan, perguntando se este estaria interessado em compor a banda sonora da série televisiva que andava a preparar. Com um senão: não havia guião por onde Badalamenti se pudesse inspirar. “Senta-te no teclado e toca. Vou descrever-ta”, disse então Lynch, citado pelo “The Guardian”.

“Faz como se estivesses numa floresta escura e depois prossegue para algo bonito para refletir os problemas de uma adolescente bonita. Quando tiveres isso, volta e faz algo que seja triste e torna à escuridão”, explicou Lynch, aqui citado pela “Rolling Stone”. A única indicação que deu: “Abranda as coisas e ela torna-se mais bonita”. Numa sessão de 20 minutos, a magia fez-se. Badalamenti ainda quis aperfeiçoar a peça, que já era “Laura Palmer’s Theme” nota por nota, mas Lynch impediu-o: “Vejo Twin Peaks”. “Conseguia perceber que David estava tão feliz. Ele tinha os olhos fechados, estava a ver imagens na sua cabeça. Aquela música estabeleceu o tom para tudo o que se seguiu. O ambiente todo da série está ali”.

O ambiente de “Laura Palmer’s Theme”, uma espécie de nevoeiro inquieto que vai caindo, interrompido a espaços pela doçura jovem da homenageada – o que a acaba por tornar ainda mais triste – foi conseguido apenas com as descrições de Lynch, talvez porque Badalamenti já estivesse habituado aos métodos de trabalho do realizador para quem a música era mais uma das suas protagonistas. Conheceram-se em 1985, quando Lynch precisava de um professor vocal para ensinar Isabella Rosselini, que interpretaria uma cantora de bar em “Veludo Azul”. Badalamenti acabaria por trabalhar com o realizador a compor uma alternativa para a canção “Song to the Syren”, dos “This Mortal Coil”, cujos direitos eram demasiado caros para a usar em “Veludo Azul”. Badalamenti lá interpretou os versos “sem rimas, sem refrão” que o realizador escreveu: “Fá-la como o vento, Angelo. Deve ser uma canção que flutue no mar do tempo. Compõe algo sem início e sem fim”.

Assim nasceu “Mysteries of Love”, que apareceu em “Veludo Azul” cantada não por Rosselini mas por Julee Cruise, a terceira peça para completar aquilo que a “Rolling Stone” batiza como a “equipa de sonho”. Julee, então cantora e atriz de teatro musical em Nova Iorque, conhecia Badalamenti dessas andanças e fora chamada para ser professora vocal de Rosselini. Em estúdio, Lynch indicava: “Canta como um anjo, como um anjo”. Criava-se a voz de marca de Julee, que ao “The Guardian” admite: “Eu nunca cantava com aquela voz de Julee Cruise até trabalhar com Angelo e David. Trabalhar com eles mudou-me”.

Encontrada a fórmula ideal, os três trabalharam juntos também no álbum de estreia de Julee, “Floating Into the Night”, gravado em sessões que Lynch dirigia como um realizador e incluindo “Falling”, uma das mais icónicas canções da banda sonora de Twin Peaks. A colaboração voltou para comporem “Music From Twin Peaks”, em 1990, o disco que deu a Badalamenti um Grammy, a Cruise um salto na carreira e a Lynch a cimentação do seu lugar de realizador com uma visão musical ímpar.

As “canções poéticas” de Badalamenti, para quem esta banda sonora “definiu” toda a sua carreira, combinavam na perfeição com as imagens com que Lynch desafiava o espectador mais incauto, numa trama que começava por apresentar a história de um homicídio numa vila pacata e acabava por incluir aspetos paranormais como a sua música, mistérios sem aparente resolução, gigantes que faziam profecias e visões de várias espécies. Esses desvios e a prequela de 1992 que mostrava os últimos dias da vida de Laura Palmer não fizeram muito por consolidar o lugar de Twin Peaks no mainstream, mas o aspeto de culto e adoração continuou até hoje.

Muitos desses fãs admiram não apenas a trama ou a estética de Lynch (cuja realização está mais presente nos 18 episódios da nova temporada), mas a música intrínseca a cada cena, naquele estilo fantasmagórico e nos sintetizadores dos anos 80 que voltam, por vezes interrompidos pela estética jazz com que Badalamenti cresceu, em Brooklyn. As homenagens são incontáveis: entre alguns dos artistas que usaram samples da série para as suas obras, contam-se Moby, que usou um pedaço do tema principal da série em “Go”; Mount Eerie, que usa um trecho de “Laura Palmer’s Theme” em “Between Two Mysteries”; ou a canção dos Bastille “Laura Palmer”.

Rachel Zeffira, dos Cat’s Eyes, que começam concertos com uma versão do tema principal da série, explica ao Expresso o fascínio que chegou às novas gerações: “O que adoro em Badalamenti é que ele é um contador de histórias fascinante que também é capaz de provocar emoção genuína. Isto percebe-se na sua música e nas suas entrevistas. Ele consegue levar-te numa viagem com ou sem palavras. Não interessa quantas vezes ouça o tema de Twin Peaks, é sempre tão evocativa como da primeira vez”.

Quem percebe do assunto não hesita em e apontar artistas influenciados pela estética sonora de Twin Peaks – entre os nomes mais citados encontra-se Lana del Rey, pela inspiração da voz enigmática de Julee Cruise. Clare Nina Norelli, música australiana e autora do novo livro “Soundtrack from Twin Peaks”, diz ao Expresso que, “tal como a série, a banda sonora não parece estar localizada num espaço ou tempo em particular”. “Cobre vários géneros musicais, por isso há qualquer coisa para toda a gente – é intemporal.” E à lista de fãs pertencem certamente os Chromatics, que nesta terceira temporada se juntam a Badalamenti e a Lynch nos créditos, agora que os primeiros quatro episódios já foram transmitidos e que se sabe que em setembro serão lançadas duas bandas sonoras para esta terceira temporada.

A novidade dos Chromatics viu-se logo no episódio de estreia, emitido no domingo passado, com a banda de Johnny Jewel a atuar. A canção escolhida foi “Shadow”, que tem a mesma dose de sintetizadores e nostalgia a que os fãs se habituaram. A inquietação estranha, cheia de suspense, também lá está, como numa adaptação adequada da obra prima aos tempos modernos. Habilita-se a perseguir quem a ouvir durante os próximos tempos, como a primeira banda sonora conseguiu fazer durante os últimos 27 anos. “A nova versão vai ser tão falada e influente quanto a original”, arrisca Norelli.

“Sombras, levem-me convosco pela última vez”, canta Ruth Radelet, voz enigmática dos Chromatics que não pode deixar de fazer lembrar Julee Cruise, com os trejeitos angélicos e a delicadeza suave. “E quando estamos a conduzir no teu carro, a fingir que vamos deixar esta cidade”, avisa, falando do que quer que seja, mas até podia ser da série, da cidade, da melancolia, “vemos as luzes da rua a cair / e agora tu és apenas o sonho de um estranho (…) e agora não és nada do que pareces”.