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Prazer com compromisso

Sara Rafael

“Casa de Cima”, das Pega Monstro, será lançado segunda-feira num ‘arraial’ no jardim do Palácio do Machadinho, na Madragoa, Lisboa, entre as 18h e as 24h, com entrada livre. Maria e Júlia tocam às 2

Luís Guerra

Jornalista

Tem sido um privilégio testemunhar a caminhada das irmãs Júlia (bateria, voz) e Maria Reis (voz, guitarras) desde que, nos idos de 2011, nos assaltaram com fervor adolescente e um arsenal elétrico aos quais a nação (sónica, se quisermos) não estava habituada desde os primórdios da década de 90 do século XX. Quatro anos depois, por altura do excitante “Alfarroba”, falava-se em salto gigante rumo a um rock encorpado, amansado por harmonias vocais, uma tendência shoegaze nos ambientes mais etéreos e até um certo andamento pop. Maria Reis, ao Expresso, explicava a nova ambição: “Está maior, o som. As canções têm mais dinâmica, há um fado e uma canção ao piano. Têm mais espaço, dão para respirar, não é sempre a abrir.”

2017, agora. Desde os primeiros riffs de ‘Ó Miguel’, primeira canção do novel “Casa de Cima”, que se vislumbra nas Pega Monstro um brilho ainda maior — e, não por acaso, há uma viola braguesa a emergir pouco antes do primeiro verso, “Troquei as cordas todas da guitarra”. Dois anos volvidos sobre as descargas de ‘Branca’ ou ‘Estrada’, fazemos a mesma pergunta a Maria Reis: não tendo mudado tudo — mas tendo-se, também metaforicamente, trocado as cordas —, que disco é este, mais polido, mais melódico (os últimos três minutos de ‘Odemira’ quase beijam a folk coral de uns Grizzly Bear), menos caudaloso? “Aqui tentámos que a elegância das canções falasse mais alto”, esclarece. “As vozes tornam-se as personagens principais. A bateria também, não pela força mas pelas dinâmicas. Usámos viola acústica e a braguesa, que ajudaram nas texturas.”

Conciso e com uma consistência quase pop, apesar dos laivos punk da deliciosa ‘Partir a Loiça’ (onde se atira, viperinamente, “E tá na hora de espancar/ A cabecinha dos betinhos”), “Casa de Cima” é um disco de canções “com as quais temos grande intimidade, e isso nota-se”, sublinha Maria. Há, também, um jogo de contrastes: ‘Cachupa’ tem um lado cândido que confere a versos como “Não quero mais este prazer sem compromisso/ Tá fodido, vacilei” uma camada de nostalgia por cima do teenage angst; açúcar puro prova-se na insatisfação amorosa de ‘Pouca Terra’ (“João-sem-medo/ És um nómada do namoro/ A misantropia caía-te melhor”). E há coisas que se mantêm: onde “Alfarroba” tinha um ‘Fado d’Água Fria’, “Casa de Cima” tem o ‘Fado da Estrela D’Ouro’, cujo título referencia um ponto de encontro numa vila operária no bairro lisboeta da Graça — é uma canção onde se encaixa airosamente (bendito Português!) a palavra ‘Cinemateca’.

Sobriedade? Também. “A qualidade terapêutica de fazer canções tem de ser moderada pelas pessoas que as fazem. O clique é perceber que não é uma autobiografia; é uma canção. A angústia vai existir paralelamente à prática de compor, por isso é preciso um controlo naquilo que fica por dizer. A canção é mais importante do que o teu estado emocional”, remata a mulher das seis cordas, com sageza. Dito e feito.