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Três dias e meio de música, ecologia e francesinhas no Porto

Lucília Monteiro

Esta quarta-feira, os mais ansiosos pelo início da sexta edição do NOS Primavera Sound já puderam dançar e aquecer para o fim de semana em vários espaços míticos do Porto. Fazemos a antevisão do melhor que se vai ouvir e fazer no Parque da Cidade entre esta noite e 10 de junho

Quando os festivaleiros mais adiantados atravessarem as entradas que dão acesso ao Parque da Cidade, no Porto – transformados neste fim de semana no portão de cores chamativas que volta a ser instalado todos os anos – já a música terá invadido a cidade há umas horas. Tudo porque o NOS Primavera Sound, versão 2017, não se dá por satisfeito com os três dias de duração do festival (8, 9 e 10 de junho) e instalou-se no Porto desde a noite de ontem, quarta-feira.

À semelhança de quatro dos seis anos em que o festival se realizou, o NOS Primavera Sound voltou a organizar uma espécie de primeira ronda noturna para animar os espíritos. Em espaços míticos como o Hard Club ou o Passos Manuel, os mais ansiosos já puderam na última noite reunir-se e disfrutar do primeiro sabor a festival, mesmo no centro do Porto.

Samuel Úria

Samuel Úria

Divulgação

Depois de trocarem o passe geral pela pulseira e o cartão de acesso ao evento, os festivaleiros estarão prontos para atravessar a tal entrada fotogénica. A invasão será grande, porque os passes gerais já estão esgotados (restam bilhetes para os dias 8 e 10, a 55 euros), e far-se-á em várias línguas, como adianta José Barreiro, diretor do festival, ao Expresso: “Na edição passada foram 58 as nacionalidades presentes no NOS Primavera Sound. Para 2017, esperamos manter o número de visitantes estrangeiros, que ronda os 40% do total do público do festival. Neste momento, já verificamos um aumento do número de bilhetes vendidos no Reino Unido e espera-se maior expressão de países como Itália, França, Alemanha, Irlanda e Estados Unidos”.

As várias línguas começarão por ouvir uma – a portuguesa – logo no arranque do festival, que contará com Samuel Úria, o cantor e compositor de Tondela que ainda há dias reuniu amigos ilustres (Ana Moura, Manuel Cruz, Manuela Azevedo dos Clã) no palco do Tivoli BBVA, em Lisboa, com o disco do ano passado “Carga de Ombro”. Depois de Úria, a dupla Rodrigo Leão e Scott Matthew, também no Palco Super Bock pelas 17h50, a cantar o melancólico disco conjunto “Life is Long”, que foi apresentado em Lisboa no Misty Fest (e onde houve surpresas como a versão de “I wanna dance with somebody”, de Witney Houston, pela voz das profundezas de Matthew).

Run the Jewels

Run the Jewels

Divulgação

Não só de nomes nacionais se faz o palco, com os veteranos escoceses Arab Strap (que vieram substituir os Grandaddy depois da notícia da morte do baixista Kevin García, a meio de maio) a seguir-se no alinhamento. A seguir – saímos em breve deste palco para dar palco a outros nomes, mas esta tarde de abertura pede atenção – há Flying Lotus, pelas 23h30, para apresentar o quinto disco do produtor que vai a todas, desde experimentar com hip hop e jazz a colaborar com Kendrick Lamar ou Thom Yorke.

Neste primeiro dia é preciso gerir com cuidado o horário para visitar Run the Jewels (22h20), no Palco NOS – há o risco de voltarem a aparecer as caras de Donald Trump ou Bernie Sanders nos ecrãs, porque o duo de rap de Killer Mike e El-P pode ainda não se ter recomposto do “ano de doidos” durante o qual gravou este “RTJ3”. Logo a seguir, é tempo de dançar com Justice (00h45), seja para clássicos como “D.A.N.C.E.” ou para os êxitos do novo disco, “Woman”.

Angel Olsen

Angel Olsen

Divulgação

Chegamos assim ao segundo dia, com mais português no palco Super Bock (First Breath After Coma, às 17h) e com mais do melhor que se tem feito no campo do rap, com Skepta no mesmo palco, às 23h55, trazendo as rimas carregadas de sotaque britânico que já lhe valeram um prémio Mercury. Antes disso, é inevitável virar as atenções para o Palco NOS, onde estarão neste dia algumas das principais atrações do festival. A chuva de estrelas começa com Angel Olsen, pelas 19h50, para nos cantar o seu “MY WOMAN” que no ano passado tantas listas de melhores disco do ano conquistou, com o seu folk-country-rock-pop que recusa etiquetas.

Depois de Angel há Bon Iver (22h15), com “22, A Million” que Justin Vernon escreveu depois de enfrentar a depressão que a fama lhe trouxe, com a voz, o piano, a guitarra e o sintetizador a juntarem-se para cantar a tristeza que é “um rio sem fim”, e à 1h da manhã o produtor e DJ chileno Nicolas Jaar fecha o Palco NOS, com “Sirens”, um dos melhores discos de música eletrónica do ano passado.

Nem só de música se faz este festival

Se entretanto se cansar de estar diante dos palcos, nos 83 hectares do Parque da Cidade (pode passear à vontade, porque embora o céu esteja nublado, segundo as previsões do IPMA, a chuva tem zero possibilidades de cair), caberão outras iniciativas, com a zona de francesinhas e outros petiscos portuenses a fazer companhia às bancas de street food mas também às marcas de moda e até ao estúdio de tatuagens que vai andar por lá.

Justice

Justice

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A ecologia continua a marcar a personalidade do festival, que adota o “sistema de copos reutilizáveis” e a garante que “tudo é reciclado”. “Este ano, todas as presenças da reputação do festival vão utilizar embalagens recicláveis e biodegradáveis”, explica José Barreiro. Na entrada do recinto haverá um parque para bicicletas, numa série de iniciativas que, defende a organização, distingue o festival e conquista novos adeptos: “Pessoas que não costumavam frequentar festivais, ou que o faziam em idades mais jovens, e que com o NOS Primavera Sound voltaram a querer estar num recinto de festival”.

Por entre os passeios, no último dia ainda há muita música para ouvir: a rainha do “samba sujo”, Elza Soares, que já apresentou o 34.º disco “A Mulher do fim do mundo” em Lisboa (no Vodafone Mexefest do ano passado e há quatro dias no Coliseu), vem desta vez cantar aos fãs do Porto as suas canções de protesto. A seguir, também no Palco Super Bock, canta Sampha, que já punha o seu talento nas canções dos outros (e que outros, de Beyoncé a Drake) mas decidiu lançar o seu “Process”, em nome próprio, em fevereiro.

Elza Soares

Elza Soares

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A fechar o último dia de música haverá Metronomy no Palco NOS (22h10), a trazer o que o “The Guardian” definiu como “punk inglês que pede por favor e diz obrigado”, e Aphex Twin (00h30).

Para quem quiser continuar a dançar, no Palco Pitchfork a música prossegue (a última atuação começa, no dia 9, às 4h15, com Mano Le Tough, e no dia 10 às 5h, com Marc Piño), e os transportes foram reforçados para garantir que há alternativas até tarde – ou cedo, dependendo da perspetiva (com o STCP a funcionar nesses dias entre a 1h e as 7h).