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“Viver sem cozinha”? Anna Puigjaner explica como se faz

António Pedro Ferreira

A arquiteta catalã é a primeira convidada da conferência do ciclo “Conferências da Garagem”, promovido pela Garagem Sul no Centro Cultural de Belém, esta terça-feira, às 19h. “Quero uma casa que tome conta de mim quando estiver doente”, diz numa entrevista ao Expresso

Casas sem cozinha, casas projetadas para se adaptarem às várias fases da nossas vidas. Casas onde nos sentimos confortáveis quando estamos doentes e que nos ofereçam condições para envelhecer bem. Espaços coletivos, espaços partilhados. Este pode ser o futuro. A ideia é desenhar uma habitação adaptada às necessidades de gente deste tempo.

Anna Puigjaner, arquiteta e investigadora catalã de 36 anos, cofundadora do atelier MAIO, de Barcelona e responsável pela revista “Quaderns d'Arquitetura i Urbanisme” ganhou o prémio Wheelwright da Universidade de Harvard, cerca de cem mil euros, que lhe permitirão durante dois anos, andar pelo mundo a investigar vários modelos de casas coletivas.

É possível vivermos sem cozinha?
Utilizo essa imagem como uma provocação. Quando comecei a investigar sobre modelos de casas com espaços coletivos e a trabalhar sobre modelos de casas que possam ser divididas, percebi que quando dizíamos a alguém que iríamos fazer uma casa sem cozinha, as pessoas reagiam imediatamente. É divisão que toda a gente tem mais dificuldade em partilhar e que mais quer preservar. Essa constatação, permitiu-me iniciar uma a reflexão sobre a casa e passou a servir como ponto de partida para começar o diálogo.

Então não corresponde à realidade do seu projeto?
Sim, corresponde. Mas poderia falar de qualquer outra divisão, como por exemplo da sala de estar ou da sala de jantar. O mais importante é perceber como é que a casa se pode estender para além dos limites da propriedade privada e ter certas áreas, que graças a serem coletivas. Uma das coisas que me dei conta desde que comecei a trabalhar este tema é que associamos o coletivo a uma determinada ideologia política, socialista ou comunista e não é assim. A coletividade aparece em muitas ideologias. A finalidade é mostrar a diversidade e melhorar o nosso quotidiano através do apartamento.

As pessoas estão dispostas a partilhar?
Depende muito. Por exemplo, se houver um infantário no edifício ou a possibilidade de haver um serviço de refeições partilhado por inquilinos que não tenham tempo de cozinhar, e se trouxer vantagens para a comunidade, as pessoas estão dispostas a partilhar. Um dos modelos de cozinha comunitária, que foi posto em prática na Cidade do México, em 2009, dava a opção às pessoas que viviam em apartamentos com mais de 30 metros quadrados de cozinharem para a coletividade e, em contrapartida, o Governo instalava uma cozinha industrial e, mensalmente, facultava certo tipo de alimentos. Neste projeto, as pessoas retomaram relações de vizinhança, muito úteis para todos. Foi uma ajuda, por exemplo, para as mulheres trabalhadoras, e muita gente da terceira idade que já não conseguia cozinhar. Foi uma forma de unir e melhorar a vida quotidiana de um bairro. Mas há muitos modelos diferentes. Podemos também pensar no caso de Copenhaga, onde certas comunidades começaram a partilhar a cozinha ainda nos anos 80, apesar de cada casa ter a sua cozinha. Há uns anos era impensável, em Barcelona, dividirmos o carro. Hoje, já acontece. Para mim, por exemplo, ter carro em Barcelona é um luxo ao qual não posso aceder. A ideia de partilhar, depende muito das condições do momento de vida.

José Hevia

Tem cozinha?
Sim. Muito pequena, de um metro e vinte. A minha cozinha tem poucas coisas: um fogão mínimo e um frigorífico também muito pequeno. Todos os dias vou ao mercado. Se temos um frigorífico pequeno há menos consumo e menos desperdício. Uma das coisas que também podemos partilhar com os nossos vizinhos, tal coma parte da lavandaria, é uma arca congeladora. Reduz brutalmente os níveis de consumo, torna-se muito mais ecológico.

A ideia de partilhar a cozinha e desenhar casas sem cozinha, não terá a ver com uma fase da vida em que a Anna se encontra? Muito trabalho, pouco tempo para cozinhar. Não poderá ser uma questão geracional?
Não creio. O que está a acontecer em Espanha e penso que o mesmo acontece em Portugal, é que a maioria dos apartamentos, quase 90%, continua a ter uma tipologia baseada no padrão da família tradicional - pai, mãe, um ou dois filhos. Mas atualmente, só 27% da sociedade espanhola é que integra este padrão. Há um sector enorme que não se vê representado neste modelo. Temos de pensar que as necessidades são cada vez mais diversas e desenhar casas que possam crescer ou diminuir conforme a fase da vida em que nos encontramos. É verdade que nem sempre queremos dividir, mas podemos fazê-lo mantendo a privacidade. A ideia é que o desenho da casa se adapte às nossas necessidades dependendo de que momento de vida nos encontramos. As nossas realidades são muito diversas. É importante que uma casa possa responder a essa diversidade.

Como é que isso se pode traduzir em projeto?
Vou dar uma imagem muito clara. A tipologia maioritária que estávamos a falar, que existe em Espanha, é esta: quarto grande para os pais, com casa de banho incorporada, quartos muito pequenos para os filhos. A maior parte da sociedade que não está representada nesta estrutura familiar, também vive com esta forma arquitetónica que, logicamente, implica uma hierarquia. Pensar num apartamento sem hierarquias espaciais e que todos os espaços possam ser utilizados de diversas formas é um exercício importante. Isto permite, por exemplo, que as nossas alterações vitais possam acontecer sem que a nossa casa nos condicione.

Como se desenha?
Há várias maneiras. Uma é ir eliminando o espaço entre a casa e a rua. Pode existir uma fase intermédia na estrutura urbana que não seja a minha casa, mas faça parte da minha habitação. É muito diferente ir a um restaurante do que ir ao piso a baixo e jantar com alguém que eu conheça. Outra é desenhar os edifícios com apartamentos modelares para que a casa se possa ampliar ou reduzir. Ou seja, que possa ser desenhada com um quarto que tenha a possibilidade de ser integrado na casa do vizinho, caso ele venha a precisar de mais um quarto e nós possamos dispensá-lo.

As pessoas adaptam-se sempre a viver com mais espaço do que a viver com menos, ou não?
Não é verdade. A casa dos meus pais, por exemplo, desde que eu e a minha irmã nos fomos embora, ficou vazia, enorme e com gastos desnecessários. Mas os meus pais adoram a casa, não querem sair. Portanto é um problema. Eles estariam dispostos a reduzir o espaço da casa, se tivesse sido desenhada com essa possibilidade. Eu por exemplo, quero uma casa que me cuide quando eu estiver doente, que tenha uma enfermaria partilhada com os vizinhos que possa servir as crianças ou mais idosos quando estão doentes. É um luxo e um conforto a que poderemos acesso se podermos partilhar espaços comuns. A chave é, precisamente, que nos mesmos edifícios hajam diferentes gerações, diferentes necessidades sociais e diferentes modos de vida.

Foi o seu trabalho de investigação que a levou a pensar numa arquitetura consciente do ponto de vista social?
Talvez. Mas o que me interessa é sempre a arquitetura. Se não tivermos uma forma de desenhar adequada a tudo isto, nada poderá acontecer. Não sou socióloga nem antropóloga, apenas entendo que a arquitetura tem um impacto enorme na vida das pessoas. A nossa sociedade está a sofrer transformações tão radicais que a habitação tem de saber refletir sobre estas mudanças. O modo como projetamos não nos pode condicionar.