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Rola a bola no Serralves em Festa e no final ganha a arte 

Serralves atrai multidões para uma festa sem parar

Pedro Figueiredo

O Serralves em Festa faz a festa durante 50 horas. O Expresso tem estado a acompanhar esta celebração da cultura e da natureza. Fomos ver arte – muita arte – e ficamos para ver a bola

André Manuel Correia 

As duas equipas sobem ao relvado. É o momento de todas as decisões. O Real Madrid e a Juventus medem forças. A taça com oito quilos de prata está à vista de todos. As duas formações estão perfiladas e escuta-se o hino da Liga dos Campeões. Moeda ao ar e estão escolhidos os lados. Tudo a postos para o início do encontro. 19h45. O árbitro alemão Felix Brych dá o apito inicial e já rola a bola no Estádio Nacional do País de Gales. Não estamos em Cardiff. Estamos na cidade do Porto, a fazer a cobertura da 14.ª edição do Serralves em Festa, onde o jogo é transmitido num ecrã gigante instalado no Prado do Parque de Serralves, acompanhado da sempre entusiasmante narração de João Ricardo Pateiro. Cai a tarde, mas “ninguém dorme a sesta, porque em Serralves faz-se a festa”, diz o radialista.

A sua voz não nos chega, como habitualmente, através de ondas de rádio. É ele que está no palco do Prado, como um maestro, a relatar as emoções da partida e a pautar o ritmo da banda Space Ensemble, responsável por adornar com música improvisada as emoções incontornáveis de um jogo de futebol. “Dá aí um toque de bateria, Zé. Mais, mais! É Champions, Zé!”, pede animadamente Pateiro, com cantigas adaptadas e preparadas para o caso de Ronaldo marcar o 600.º golo da carreira. Será que marca? Ninguém sabe o resultado final, mas em Serralves haverá, garantidamente, prolongamento pela noite dentro.

Milhares de pessoas estão sentadas ou deitadas sobre o relvado do Prado. Bebe-se mais uma cerveja. Um cigarro é cravado a um amigo. “Depois dou-te”. É o frenesim da festa do futebol associada à celebração da arte e da cultura. Não é apenas uma comum transmissão de um jogo, mas o ambiente remete-nos para um estádio. Também não é bem um concerto, mas somos imbuídos pelo espírito festivaleiro. Com amigos ou em família, o Serralves em Festa é um encontro de pessoas de todas as idades e culturas. Um espaço de partilha onde se fortalecem laços de amizade, onde a fruição se joga intensamente e ao mais alto nível, com o objetivo de “Quebrar Muros” (mote desta edição).

Babel artística

Afastemo-nos do jogo, recuando no tempo. Porque no Serralves em Festa o tempo passa de forma diferente. Os momentos parecem mais delongados. Os ponteiros do relógio marcavam as 14h quando chegámos. O sol aquece a tarde de sábado, segundo dia de um certame com lastro até à baixa portuense. Milhares de pessoas deambulam pelo Museu e pelo enorme Parque, onde muitos estendem as toalhas e as conversas. Uma criança passa de triciclo. Outra, a seguir, traz uma coroa na cabeça e o inseparável “spinner” numa das mãos, enquanto caminha uns passos mais à frente dos pais. Um casal empurra vagarosamente, numa acalmia primaveril, um carrinho de bebé. Os turistas multiplicam-se. Os idiomas misturam-se nesta autêntica babel artística. São colocadas à prova as memórias dos smartphones com tantas fotografias tiradas.

Descobrem-se os recantos de um espaço no qual a arte e natureza estão em comunhão. Pelos trilhos de terra do parque de Serralves, exploram-se todas as zonas e a extensa oferta cultural, com o auxílio de um mapa programático, para dessa forma não nos perdermos numa festa com a duração de 50 horas.

Ali, a criação artística e os momentos recreativos são os capitães de equipa. Exposições, música, dança, teatro, cinema e fotografia. Já chega? Há mais. Muito mais, como acrobacias, novo circo, marionetas, contadores de histórias, instalações artísticas, performances, debates, visitas orientadas ou atividades para os mais novos. São estes os ingredientes de uma comemoração cultural tão profícua e heterogénea. Num cartaz tão vasto, destaca-se a última oportunidade para ver de perto a joia da coroa. Uma fila serpenteante e interminável forma-se junto à Casa de Serralves. Espera-se o que for preciso para ver a exposição “Materialidade e Metamorfose”, com obras que percorrem seis décadas do desconcertante universo artístico do pintor surrealista catalão Joan Miró, comissariada por Robert Lubar Messeri e à vista de todos até este domingo.

A mirar os Mirós encontramos António Magalhães, de 51 anos, e a esposa, Sónia Magalhães, com 45. Vêm quase todos os anos ao Serralves em Festa, mas ainda não se tinha proporcionado a oportunidade de ver a exposição. Com eles está a pequena Francisca, a filha de sete anos, bastante empolgada com tudo o que a rodeia. “É diferente, realmente. É Miró. É difícil descrever, porque tem diversas fases diferentes e estamos a aprender também um pouco sobre o artista”, explica António à conversa com o Expresso. “O ambiente que se vive aqui é sempre fantástico. As pessoas estão com um bom astral. Absorvem cultura e arte. Eventos como este deviam repetir-se mais vezes”, frisa.

Deslocamo-nos agora até ao museu, onde o público aproveita para visitar as exposições “Coleção de Serralves: 1960-1980”, “Splitting, Cutting, Writing, Drawn, Eating”, focada nos aspetos gestuais, formais e sociais da arquitetura de Gordon Matta-Clark e ainda “Uma História Universal de Tudo e de Nada”, a primeira mostra de trabalhos plásticos da artista etíope Julie Mehretu. Sobre esta última exposição, o jornalista do Expresso Valdemar Cruz escreveu: “é essa sensação de tudo e de nada que acaba por se impor no final de um demorado percurso através de uma obra na qual a mistura das pinturas de grande formato, visualmente poderosas no modo como nos arrastam para um vertiginoso mundo feito de espantos, se entrelaçam com a singularidade dos desenhos”.

Uma festa para todos: dos dois aos 94 anos

A Rita tem quase dois anos, já caminha e é o rock que já a faz dançar em tão tenra idade. Está impaciente. Não pára de chamar os pais, Luciana Marques e Flávio Ramos, que fazem um curto intervalo no passeio para falar com o Expresso. São presenças assíduas no Serralves em Festa. Agora, fazem-no noutros horários, para que a filha também possa fazer parte desta celebração.

Não planearam nada, consultam ali a programação, e aproveitam para visitar as exposições do Museu, assistir aos concertos e desfrutar do ambiente. Chegaram cedo, pela manhã, e gostaram bastante da atuação da Escola do Rock – Paredes de Coura. “É engraçado estar a ouvir músicas da nossa geração, interpretadas por pessoas mais novas”, explica Luciana. “A Rita fartou-se de dançar”, acrescenta Flávio. Seguem caminho. Vão visitar aos jardins.

É no parque que encontramos também as três Marias. Maria Palmira Martins, Maria Olímpia, e Maria Júlia, com 94 anos, amiga de Serralves desde a sua fundação. Garantem que não perdem uma edição e o que as move é, precisamente, a “amizade” pela arte, explica Maria Palmira. Chegaram depois do almoço e estão a saborear cada momento da visita. Já vistos os Mirós, aproveitam para comprar alguns souvenirs, passear junto ao lago e observar a riqueza da vegetação do Parque.

São 17h. Muita gente desloca-se para a entrada. Espera-se por alguém. Um automóvel pára e do seu interior sai António Costa. Cumprimenta prontamente a presidente da Fundação de Serralves, Ana Pinho. Do meio do enorme aparato que ali se gera surge Manuel do Laço, o emblemático adepto do Boavista, para saudar e trocar algumas palavras com o primeiro-ministro. António Costa visita depois o Museu, no qual vê as três exposições patentes e onde é presenteado com uma serigrafia de Álvaro Siza Vieira. O passeio continua pelo Parque, com Costa sempre acompanhado de perto por Manuel Pizarro.

Não há Marcelo para as “selfies”, mas o primeiro-ministro desdobra-se para aceder aos inúmeros pedidos, maioritariamente de crianças, para tirar só mais uma fotografia. Uma delas é a Beatriz, de 8 anos, acompanhada pelos pais, Susana e Jorge Costa. “O interesse de já cá vimos há muitos anos com a Beatriz é o facto de ela poder estar em contacto com a cultura e não estar apenas fechada num quadradinho em que, infelizmente, muitas crianças vivem. É importante ter uma mente aberta”, sustenta o pai.

São onze contra onze e no final ganha a arte

Regressemos ao ponto por onde começamos. Terminada a visita da António Costa, é hora de ir ver o jogo no relvado do Prado. João Ricardo Pateiro pergunta ao público: “Quem está a torcer pelo Real Madrid? Quem está a torcer pela Juventus?” O resultado é equilibrado, tal como no encontro em que permanece o empate. O narrador do jogo tem as músicas preparadas para o caso de Ronaldo marcar e este, à passagem dos 2o minutos, faz-lhe a vontade, colocando o Real Madrid em vantagem.

O público celebra e Pateiro canta: “Numa casa portuguesa fica bem este golo com certeza”. Sete minutos depois, Mandzukic, após amortecer o esférico com o peito, faria o empate para a Juventus com um vistoso pontapé de moinho. O jogo chegava ao intervalo e entram em ação, para forrar o estômago, os cachorros quentes, os pregos e os kebabs.

Mauro André, de 30 anos, era uma das muitas pessoas que assistia atentamente à partida, a puxar pelas cores da Juventus. Licenciado em Engenharia Ambiental e estudante na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, Mauro conta que até tem uma prova complicada na segunda-feira e devia estar a estudar, mas aproveitou para se deslocar pela primeira vez ao Serralves em Festa. “Logo que vi que o jogo ia ser transmitido aqui em Serralves, tive de arranjar tempo e fazer uma pausa no estudo. É uma experiência única estar nesse ambiente. É como estar no estádio”, garante. “Cria-se uma sinergia, uma adrenalina, tudo misturado e é muito agradável. É a natureza ligada à poesia e à cultura”, explicava Mauro, quando Casemiro o deixou sem palavras e fez o 2-1 para o Real Madrid.

O jogo não estava a correr bem para este jovem adepto. Ainda iriam correr pior. A equipa espanhola acabaria por vencer por 4-1 e Ronaldo ainda faria o gosto ao pé mais uma vez, dando espaço a mais canções improvisadas por João Ricardo Pateiro. O troféu vai para Madrid, mas o entusiasmo de Mauro mantém-se em Serralves. Porque, ali, todos ganham através da celebração da cultura e da arte.

Este domingo é o último dia desta 14.ª edição do evento, mas ainda há muito para ver. Para as 12h, na Galeria do Museu, está convocado o “Congresso dos Loucos”, um curto espetáculo de teatro que tem por base o livro “Loucuras do Poeta” de Giovanni Papini. Às 13h, no campo de ténis, há concerto dos “Toulouse” e, no mesmo local, a partir das 15h30, o músico Filipe Sambado leva-nos até ao universo sonoro da sua “Vida Salgada”.

O grande destaque deste domingo vai para o concerto de Terry Riley, acompanhado pelo filho Gyan, em que o consagrado músico norte-americano, mestre do minimalismo, se apresenta numa atuação única na Clareira das Azinheiras, pelas 20h. Pai e filho, juntos em palco. Já vos tínhamos dito que esta é também uma celebração de laços afetivos, não já?