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Uma réstia de nada na voragem de tudo

Serralves apresenta em Portugal a primeira exposição individual da etíope, residente em Nova Iorque, Julie Mehretu

d.r.

Há uma incontida amargura nas lágrimas vertidas no silêncio da imensidão de revoltas suscitadas pelo frenesim quotidiano de um mundo devorador de acontecimentos transformados em voláteis fragmentos de imagens diluídas na sua própria efemeridade.

Há uma obsessiva procura de uma totalidade, em cada momento esboroada na inutilidade de discursos fragmentadas, incompreensíveis, incompreendidos.

Por entre essa floresta de desenganos e ilusões coletivas, levantam-se vozes empenhadas em construir um discurso outro. Refletem, expõem atitudes, revelam pontos de vista cuja singularidade está, não tanto na construção de uma narrativa literal, mas no modo como dialogam e interpelam a realidade que lhes cabe viver.

Quem nos próximos sábado e domingo se dispuser a participar no Serralves em Festa poderá experienciar o impacto contido na força desse novo olhar. Basta deixar-se perder nas salas do Museu e desfrutar de uma das mais relevantes e impressionantes exposições ali apresentadas nos últimos tempos.

“Uma História Universal de Tudo e de Nada” é como se chama a primeira exposição individual de Julie Mehretu em Portugal e a mais importante na Europa dedicada à obra desta artista nascida em 1970 em Addis Abeba, capital da Etiópia, mas a viver e a trabalhar em Nova Iorque.

Julie Mehretu, nascida em Addis Abeba, vive e trabalha em Nova Iorque

Julie Mehretu, nascida em Addis Abeba, vive e trabalha em Nova Iorque

d.r.

O título remete para o universo de Jorge Luís Borges e em particular para uma coletânea de textos do escritor argentino intitulada “Everything and Nothing”. E é essa sensação de tudo e de nada que acaba por se impor no final de um demorado percurso através de uma obra na qual a mistura das pinturas de grande formato, visualmente poderosas no modo como nos arrastam para um vertiginoso mundo feito de espantos, se entrelaçam com a singularidade dos desenhos, alguns deles do início da carreira, mas sem os quais não seria possível apreender na totalidade a obra de Meheretu.

Há trabalhos com uma escala monumental, em particular os posteriores ao 11 de setembro de 2001. Já antes havia questionamentos implícitos na abordagem de temas da vivência quotidiana. São vários os quadros em que o ponto de partida é a arquitetura e o conceito de cidade, densificada, massificada, acelerada, marcada pela ausência de diálogo num tempo em que nunca a comunicação foi tão fácil e acessível.

"Chimera"

"Chimera"

Foto Tom Powel

Mas é naquele conjunto de obras posteriores a um dos mais marcantes acontecimentos do século recém-iniciado que Julie faz da pintura, não apenas uma interpelação ética e estética. Escorre por aquelas telas uma espécie de manifesto, de grito, contra o espetáculo da guerra, trazida para o banal quotidiano de todos nós. As mortes, às centenas ou aos milhares, não passam de um episódio, uma fração do carrossel mediático em que se transformou a vida nas sociedades ocidentais.

Com o tempo presente massacrado pelo imediatismo do tempo mediático, sem espaço para o debate sereno e a reflexão consistente, nada do que parece é. Nada é o que poderia ser. Nada é tão falso como as suposições de verdades, construídas a partir da reconfiguração do modo como somos, estamos ou nos posicionamos perante a avalanche de acontecimentos.

No outono de 2016 Julie Mehretu expôs em Nova Iorque o mais recente conjunto da sua obra, no qual evoca a destruição de Alepo. De novo, assistimos ao confronto entre o tudo e o nada. Há uma cidade que desaparece. Há uma indizível tragédia humana e civilizacional associada àquela hecatombe.

De alguma forma, e para quem por lá vivia, materializou-se ali uma certa ideia de apocalipse. E, no entanto, para quem está do lado de cá, a passageira emoção é logo anulada pelo desabar de novas imagens, de novos e porventura fúteis acontecimentos.

Uma das salas de Serralves com trabalhos de Mehretu

Uma das salas de Serralves com trabalhos de Mehretu

d.r.

O ciclo de produção informativa é indiferente às subtilezas inerentes à indispensável necessidade de dar tempo ao tempo contido no mal absoluto.

Compromisso não é um termo alheio à pintura de Mehretu, para quem os problemas inter-raciais nos EUA, a violência policial, a guerra na Síria, as convulsões no mundo árabe, impulsionadas pela intervenção de potências estrangeiras, não são apenas uma legenda numa imagem rasgada e perdida numa valeta.

São constantes dolorosas do dia-a-dia deste mundo onde o tudo e o nada se confundem demasiadas vezes. A permanente tentação da exibição de tudo resulta na amarga constatação de que, no final, o que sobre é apenas o nada.