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Cultura

Perdidos na penumbra do tempo

Emília Silvestre e João Reis são o terrível casal Macbeth na nova produção do Teatro Nacional São João

João Tuna/TNSJ

“Macbeth”,com João Reis 
e Emília Silvestre, é a grande peça de abertura do FITEI, a decorrer no Porto até 17 deste mês

Há experiências sensoriais únicas. Irrepetíveis. Só vivenciáveis no misterioso universo criado pelo teatro. Ali, onde os atores nos interpelam sem filtros, sem mediações, sem espaço para a tentativa e erro, desde logo por ser o erro descarnado e derramado perante os olhos e ouvidos de quem observa, é onde se celebra o poder da palavra enquanto edifício assente na memória de todos os tempos.

“Macbeth”, de William Shakespeare, chegará na próxima quinta-feira ao Teatro Nacional de São João pela mão de Nuno Carinhas, a partir de uma nova tradução de Daniel Jonas. Mais do que o reencontro com uma das peças mais perturbantes da dramaturgia shakespeariana, o que ali acontece é um poderoso trabalho de atores, que vai desde a encantatória presença das bruxas (Diana Sá, Joana Carvalho e Sara Barros Leitão, todas desdobradas em outras personagens), a Jorge Mota (Duncan, Seyton), Paulo Calatré (Mcduff), Paulo Freixinho (Banquo, Ross) ou João Cardoso e João Castro.

E depois há João Reis e Emília Silvestre. Formam o terrível casal Macbeth. Pelo modo como manipulam a beleza das palavras, sem esconderem o percurso trágico de cada uma das suas personagens, derramam em cena uma luminosidade capaz de por completo transformar aquele terrífico ambiente de trevas.

Emília Silvestre é, de longe, uma das melhores atrizes portuguesas contemporâneas em atividade. João Reis, sempre discreto, como Emília, é cada vez mais o grande e indispensável ator para os grandes papéis que qualquer encenador ambiciona ter ao seu dispor.

Ao longo de mais de 90 minutos de ensaio corrido presenciado na noite da passada segunda-feira foi possível vivenciar uma tremenda viagem através da “animalidade de que se alimenta a peça”, como diz o tradutor. Nuno Carinhas concebe uma cenografia marcada pelo intenso negrume de um cenário que é, ele próprio, um achado pela simplicidade e, em simultâneo, pela multiplicidade de soluções proporcionadas. O chão, por contraste, é de um vermelho intenso e tanto num momento é criado um ambiente de reduzidas dimensões, quase concentracionário, como logo a seguir tudo se pode abrir em direção a um impossível infinito.

Nesta sua primeira incursão pelo mundo de Shakespeare enquanto encenador, interessou a Carinhas a brevidade da peça, “muito económica na sua narrativa”, e o encontro com uma personagem “fascinante”, Macbeth, “porque é um poeta. Os raciocínios que tem sobre os seus atos e as consequências são pensados como se o fossem por uma pessoa que tem imensa imaginação”.

Esta é uma peça por onde perpassam sempre as questões do tempo e o modo como nos apoderamos da ideia de dominar o tempo. Surge então a questão de saber, como diz Carinhas, “o que acontece quando alguém toma conta do tempo e suprime esse valor que é dar tempo ao tempo”.

Esse é o dilema do casal Macbeth, duas personagens “maiores do que a vida”. Há algo de sinistro no modo como pretendem tomar conta, não apenas do tempo, como das vidas dos outros, eliminando-lhes o tempo.