Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

O rei do pesadelo

Naomi Watts 
e Laura Harring em “Mulholland Drive”

D.R.

A ressurreição de “Twin Peaks” desencadeou uma pequena avalancha de filmes de e sobre David Lynch

A pretexto do regresso da série de TV “Twin Peaks” (cuja nova temporada começou no domingo a ser exibida por cá), a Midas Filmes propõe-nos um pacote de títulos de ou sobre David Lynch. Os pratos fortes são as reposições de duas das suas longas (“Twin Peaks: Os Últimos Sete Dias de Laura Palmer” e “Mulholland Drive”), bem como a estreia comercial entre nós de cerca de vinte das suas curtas. Além delas, o programa das festas comporta ainda um documentário sobre o cineasta (“David Lynch — A Vida Arte”), e a estreia em sala de “Twin Peaks: The Missing Pieces”, que agrega cenas que não encontraram lugar na montagem final de “…Os Últimos Sete Dias…”.

Trata-se de uma boa ocasião para revisitar a obra de um autor singular, que — como poucos — passou a vida a tentar diluir a linha de demarcação entre o real e o imaginário. De facto, o cinema de Lynch constitui uma máquina de produção de pesadelos enxertados no quotidiano, que dificilmente se deixam ler à luz da razão lógica (a que rege 99% dos filmes). Percebe-se: estamos perante um cineasta cuja formação se fez no domínio das artes plásticas (é esse o tema central de “…A Vida Arte” — já lá iremos), e que, desde as suas primeiras curtas, se dedicou a criar quadros animados, onde o narrativo se mistura com o abstrato. É essa posição fronteiriça (entre o narrativo e o abstrato, o real e o imaginário) que transforma os trabalhos de Lynch numa espécie de pesadelos despertos.

Como uma alucinação se projeta o mais célebre dos mundos que habitam esta obra: o da cidade fictícia de Twin Peaks. É a ela que nos devolve “…Os Últimos Sete Dias…”: uma prequela da série de TV, que examina o calvário da figura com cujo homicídio ela arrancara (o da adolescente Laura Palmer). Ao invés da série, este belo filme foi zurzido pelo público e pela crítica. Talvez porque, onde ela disseminava o mistério por uma miríade de personagens, ele concentra-o de modo quase obsessivo no corpo opaco de Laura. A sequência do genérico (que acaba com a destruição de uma televisão) avisa-nos, desde logo, que Lynch deseja afastar-se do modelo da série, sem perder de vista o tom — meio-macabro, meio-burlesco — que assegurou o seu sucesso. Prova disso é aquele longo e esdrúxulo prólogo, que segue a investigação de um assassínio que, à distância de um ano, pressagia o de Laura. Como todas as démarches policiais de “Twin Peaks”, esta conduz-nos a um beco sem saída, não sem antes multiplicar os cromos (os agentes da cidade de Deer Meadow) e os fantasmas (as criaturas que povoam o quarto vermelho). Após este prefácio, ouvimos os acordes da canção que Angelo Badalamenti compôs para a série, e, graças a uma elipse, aterramos um ano depois em Twin Peaks, para, em travelling, acompanharmos Laura no seu caminho para o liceu. O contraste então forjado entre a pacatez do décor (uma rua ajardinada) e o timbre fúnebre da canção é quanto basta para nos mergulhar no mistério, isto é: para sugerir que algo de sinistro se esconde por trás daquelas belas aparências. Daí em diante, Lynch limitar-se-á a tecer a crónica de uma morte anunciada, espalhando um pouco por todo o lado os sinais que a antecipam. Nesse processo, o que nos cativa é — como em “Veludo Azul” — a forma como o cineasta ancora o filme ao estudo de um quotidiano aparentemente banal (e marcado pelos lugares comuns da adolescência: o colégio, a casa da amiga…), para, passo a passo, fazer emergir os monstros que ele recobre. Isso e a maneira como Lynch recusa lançar luz sobre a verdadeira natureza dos desejos que animam o corpo desamparado e evasivo de Laura, que, como um anjo da guarda, ele seguirá fielmente até ao abismo.

Nove anos separam “…Os Últimos Sete Dias…” de “Mulholland Drive”, que foi concebido como o episódio-piloto de uma série de TV que a ABC viria a rejeitar. Entre eles, Lynch assinou um filme sublime (“Estrada Perdida”), que nos preparou para a ficção dúplice que encontramos em “Mulholland Drive”. O território que — aqui como em “Inland Empire” — é identificado como a pátria da duplicidade é o da própria Hollywood. É aí que, no início, aterra Betty, uma jovem aspirante a atriz que, ao instalar-se em casa de uma tia ausente, dá de caras com uma mulher amnésica, que vai buscar o seu nome (Rita) à Rita Hayworth que descobre num cartaz da “Gilda” de Charles Vidor. Apiedando-se daquela mulher sem passado, Betty embarca com ela numa espécie de inquérito policial, destinado a reconstituir a sua identidade. Com este motivo se ocupa a primeira secção de uma narrativa que, em paralelo (e sem razão aparente), vai detalhando os trabalhos de casting de um filme dentro do filme. A alternância entre estes dois planos desconexos acabará, inevitavelmente, por suscitar uma dúvida sobre a sua relação, e, por arrasto, sobre o ‘grau de realidade’ das imagens que vemos (faz a história daquelas mulheres parte do filme dentro do filme?). Mal tivemos tempo de formular essa questão, e já Lynch nos deu matéria para mais duas ou três, por via de uma longa sequência que cava um buraco negro na ficção. Falamos daquela em que, já apaixonadas, Betty e Rita se infiltram no Teatro Silencio, para assistirem à ‘performance dissociativa’ de uma trupe de artistas que, numa óbvia metáfora do cinema, simulam produzir em palco um conjunto de sons previamente gravados. No fim, Rita abrirá uma caixa que — como a de Pandora — haverá de submergir as amantes num pesadelo. A narrativa dobra-se então sobre si mesma, gerando um segundo ato que baralha as pistas que antes foram distribuídas (Betty é agora a atriz Diane Selwyn, que anteriormente víramos morta, e Rita é agora a atriz Camilla Rhodes, que, para desespero de Diane, se prepara para casar com o realizador do filme dentro do filme). É a primeira parte um sonho que a última desmente, ou é a última um pesadelo nascido da primeira? Não sabemos, nem isso nos interessa. O que nos interessa, sim, é a forma como Lynch nos deixa à deriva no interior de um labiríntico sistema de vasos comunicantes, para criar um universo onde — como nos desenhos de Escher — ninguém pode dizer o que está antes ou depois, em cima ou em baixo, dentro ou fora. Ou, no caso: onde começa um sonho e onde termina outro. Desiludam-se já os que aqui quiserem entrar em busca de explicações: sairão estupefactos, com uma mão cheia de duplos que não conhecem modelo.

Uma palavra mais para a estreia de um documentário sobre Lynch (“…A Vida Arte”), que procura analisar a sua carreira enquanto artista plástico. Para fazê-lo, o filme implanta-nos no ateliê onde o cineasta continua a fabricar as suas telas e colagens, convidando-o a discorrer sobre a sua juventude e, sobretudo, sobre a sua formação pictórica (o arco narrativo aqui descrito detém-se no termo dos trabalhos de produção da primeira longa de Lynch: “Eraserhead”). O objetivo do projeto é claro: promover um vaivém entre o presente e o passado, para mostrar como as artes plásticas configuram a base da atividade criativa do autor, cuja incursão pelo cinema se deu quase por acidente, quando, na academia, ele começou a filmar os seus quadros, para lhes emprestar som e movimento. Os momentos mais estimulantes deste documentário televisivo (que vive da justaposição de comentários em off e imagens de arquivo) são, porém, aqueles em que Lynch aborda a sua infância, iluminando — quase sem querer — o ambiente de alguns dos seus filmes (percebe-se que a sua estada na cidade de Boise funcionou como um estudo preparatório para a construção de “Twin Peaks”…). Mas, essas notas intimistas são raras, e, além delas, este documentário limita-se a oferecer-nos blocos de informação que, embora bem articulados, são demasiado académicos para fazer jus ao seu objeto: o génio polimorfo de um dos maiores cineastas americanos das últimas décadas.

4 ESTRELAS
TWIN PEAKS: OS ÚLTIMOS SETE 
DIAS DE LAURA PALMER
De David Lynch
Com Sheryl Lee, Ray Wise, Moira Kelly (EUA/França)
Drama/Terror M/16


5 ESTRELAS
MULHOLLAND DRIVE
De David Lynch
Com Naomi Watts, Laura Harring, Justin Theroux (EUA/França)
Drama/Thriller M/12


2 ESTRELAS
DAVID LYNCH — A VIDA ARTE
De Rick Barnes, Jon Nguyen, Olivia Neergaard-Holm
(EUA/Dinamarca)
Documentário M/16

  • Agora que já sabemos quem matou Laura Palmer...

    ...mergulhemos na memória de “Twin Peaks” (1990-1991) à descoberta da muito aguardada terceira temporada que no passado dia 28 de maio se estreou em Portugal no TVSéries. David Lynch está de volta, veremos se voltará a estar na moda