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Daniela Ruah: “A atitude portuguesa faz-me falta”

Joao Lima

Daniela Ruah defende Portugal com a mesma intensidade com que critica Donald Trump. Vive em Los Angeles há oito ou nove anos e continua a sentir falta da alma portuguesa

André de Atayde

André de Atayde

entrevista

Jornalista

“Como é que é possível ter um Presidente que acorda às 7h e a primeira coisa que faz é escrever um tweet porque ficou ofendido com o que alguém disse?” Esta pergunta é o que se chama na gíria futebolística uma “entrada a pés juntos”. E é levantada pela atriz Daniela Ruah.

“Não sei se é arrogância americana, mas sempre representámos uma imagem de força, de respeito, e neste momento passamos uma imagem ridícula e somos ridicularizados pelo resto do mundo. Custa-me imenso ter um homem como Donald Trump a representar um país como os EUA”, acrescenta depois.

“Sempre se teve em conta a possibilidade de ele chegar a Presidente, mas havia uma esperança de que se isso acontecesse ele ficaria mais calmo, mais moderado na forma de ser e estar... mas não. Só esta ideia, de resto partilhada por vários republicanos, de que o aquecimento global é uma teoria... é absurda! Toda a gente sabe que não é uma teoria, toda a gente sabe que existe. E ele vai tirar os EUA do Acordo de Paris...”

Daniela Ruah vive nos EUA há 10 anos e tem dupla nacionalidade (portuguesa e norte-americana). Esta explicação é para quem possa estranhar a ferocidade com que a atriz defende aquele que também é o seu país. Foi assim ao longo de toda a entrevista. “Nós” em Portugal e “nós” nos Estados Unidos, e a garantia de que não se sente, de todo, mais americana do que portuguesa.

“Em Portugal há um carinho diferente. Comecei a trabalhar com 16 anos e sempre falei do meu sonho de ir para os EUA e de como consegui atingir esse sonho. Talvez as pessoas se identifiquem com isso e acarinhem isso. Os mais novos muitas vezes dizem-me que também querem ir para fora trabalhar nesta ou naquela área e perguntam-me o que é que têm de fazer. Portanto, acho que em Portugal o entusiasmo é diferente.”

joão lima

Portugal, um diamante polido

Daniela Ruah é a mais recente capa da revista “GQ”, um namoro que começou “há três anos, ou mais. Entretanto engravidei, nesse mesmo verão casei-me, e depois não conseguimos conciliar horários com a disponibilidade da revista e a minha. Depois engravidei outra vez. Foi uma série de fatores, mas agora aconteceu”.

“Gostei imenso do resultado, apesar de estar superconstragida no início. Estávamos a fotografar num hangar e eu assumi que estivesse desativado, mas não. Estava cheio de trabalhadores, homens, a puxar dos telemóveis para tirar fotografias e eu estava um bocadinho mais despida... e então fiquei assim mais envergonhada. Mas acabou por correr muito bem.”

Instagram

Daniela defende Portugal com unhas e dentes e acha normal o “boom” de turistas no nosso país. “Como não gostar de Portugal? A arquitetura, a história, a comida, as pessoas. Passares por um edifício que tem uma placa que diz ‘este edifício sobreviveu ao terramoto de 1755’... os EUA nem existiam em 1755! Somos um país que tem peso e isso é incrível. Esta leva de pessoas famosas que compram casa em Lisboa - Monica Belucci, Fassbender, talvez a Madonna - têm a ideia que Portugal é um diamante em bruto. Errado. Somos um diamante bastante polido e algumas pessoas começam a ver, aos poucos, o nosso brilho. Portugal é a Florida da Europa (risos).”

“As pessoas em Portugal têm um calor, um à-vontade e uma forma de falar muito genuína, mais direta (quase bruta, no bom sentido). Temos uma forma mais ‘sincera’, se quiseres, de nos relacionarmos uns com os outros. Eu tenho saudades disso. Os americanos têm uma forma mais melosa de falar, mas ficas sempre a pensar se aquilo é genuíno ou não. Portanto, tirando a comida, as praias, a família, é do que sinto mais saudades. A atitude portuguesa faz-me falta.”

joão lima

O “ultimate dream”

Há 10 anos a viver nos EUA e a dois meses de iniciar as gravações da nona temporada da série “NCIS: Los Angeles”, a questão de dar o salto para um papel no cinema foi inevitável. Apesar da aposta cada vez maior em séries televisivas, algumas com orçamentos maiores do que certos filmes, a personagem que se cria para um filme é um desafio diferente, talvez mais intenso, do que para uma série. Será assim tão desafiante?

“De uma forma criativa, quero fazer o máximo de coisas, mas neste momento estamos a viver uma era dourada com as séries de televisão. Há uma quantidade enorme de plataformas que apostam nas séries, são centenas e centenas de produções. Isso implica que há muito mais competição entre atores e produções. Quando nós gravamos um episódio estamos a fazer uma espécie de filme de ação em sete dias e com um 'budget' muito mais reduzido. Isto para dizer que claro que gostava de fazer cinema, quem não quer. É o ultimate dream. Mas a minha condição de vida mudou. E eu procuro estabilidade geográfica, que tenho, e estabilidade financeira, que também tenho. É raro uma série passar da sexta temporada e esta vai para a nona, portanto seria muito parva em deixar de fazer isto para ir fazer outra coisa qualquer. Além de que me sinto desafiada constantemente - e isso é bom.”

À pergunta, a úlima, sobre o que diria caso ganhasse um óscar, Daniela não tinha discurso preparado, mas garantiu que seria impossível não falar português. “É o que sou.”