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Cante, canção com o ritmo do coração

ana baião

A missão não era fácil: fixar em fotografias o som das planícies, o ritmo das tabernas. Cumprida, de mão ao peito e rosto fechado, a melodia impõe-se a preto e branco nas páginas de “Cante — Alma do Alentejo”. Vitorino, autor e cantor de modas, partilha memórias a propósito do livro da fotojornalista Ana Baião, que é lançado este sábado em Lisboa

Depoimento recolhido por Christiana Martins

“As minhas memórias do cante alentejano vão buscar raiz no fim dos anos 50, início dos anos 60. Havia na aldeia do Montoito, no concelho do Redondo, o Cortejo das Oferendas, em que os mais ricos ofereciam prendas aos mais pobres, normalmente pão ou azeite, e desfilavam pelas ruas para exibir a caridade que faziam. Era um grupo de homens que pareciam muito tristes, melancólicos. Entre eles havia um rapaz, o aguadeiro, que cantava uma oitava acima dos demais. Distanciava-se dos outros, destacava-se do grupo. Tínhamos na altura a mesma idade, por volta dos 11 anos. Nunca o esqueci.

Também me recordo de ouvir o cante das tabernas e ir aprendendo as modas quase sem querer. Cantava-se se tinha voz de homem. Meninos, só um, o que tinha a voz uma oitava acima. Nunca cantei assim. Habituei-me àquilo, àquele cenário. Os cafés eram espaços reservados à pequena burguesia, à classe média, aos latifundiários. Eram uma coisa fina. As tabernas, não. Mas ali as mulheres não entravam e, por isso, o cante nas tabernas era uma moda de homens. Elas cantavam nos campos, no trabalho. Quem inventou que o cante alentejano era masculino foi António Ferro, ministro de Salazar. Mas o cante é dos homens e das mulheres.

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O que mais marcou no cante é que era muito atento às condições de vida, tinha sentido político, era crítico. Muitas vezes era cantado à porta das câmaras municipais, com textos que se queixavam da fome. Também é muito romântico, fala de um amor ingénuo, rural.

Não faz muito tempo o cante tinha um forte sentido depreciativo. Estava associado aos pobres, achava-se que só eles é que cantavam. Mas eu e o meu irmão Janita Salomé nunca deixámos de ter orgulho no cante. Zeca Afonso atreveu-se a escrever modas. Grândola é uma moda de cante.

O cante verdadeiro era clandestino, porque abordava temas que o Estado Novo proibia. Ficou na moda porque chegou aos media, mas nunca vai ter grande expansão, porque é cantado por homens de bigode. E se mudar muito, perde a essência. Se compararmos com o fado, cantado por mulheres jovens, muito bonitas e tatuadas, percebe-se logo a diferença. Mas, se o cante não se renovar, fica uma peça de museu.

Quando alguém diz que o cante parece uma música fúnebre, não é disparatado, porque muitos textos falam da morte, são quase filosóficos. Também não é uma canção que possa ser acompanhada por conversa. Impõe-se - e quem falar é abafado. O cante é marcial, tem o ritmo do coração. É impositivo.

Eu escrevo modas. O António Lobo Antunes também. a última que fiz, letra e música, diz assim: “Ó Pias, tu és altiva, ó Pias, tu és elegante, onde fores, dás nas vistas, és a rainha do cante.”