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Agora que já sabemos quem matou Laura Palmer...

foto Suzanne Tenner/SHOWTIME

...mergulhemos na memória de “Twin Peaks” (1990-1991) à descoberta da muito aguardada terceira temporada que no passado dia 28 de maio se estreou em Portugal no TVSéries. David Lynch está de volta, veremos se voltará a estar na moda

Havia, é claro, aquele genérico — o pássaro, os fumos fabris, as lâminas, a água, as árvores, a bruma — referenciando um lugar, mas, logo logo, introduzindo um clima ficcional, conjugando a placidez campestre com elementos de ameaça e de segredo. E havia, mais do que tudo, a obsessiva música de Badalamenti que impregnava todas as coisas como uma massa fluida que pudesse passar por quaisquer interstícios. Aparecia, em vários episódios, tocada em jukeboxes ou em gira-discos, não sendo portanto só música de fundo, mas música em cena, numa incomum fusão de realidades. Transgredia-se, assim, uma das mais antigas convenções fílmicas (a música de fundo dos filmes não é escutada pelos personagens) — e não era a única coisa violada pelos dois criadores centrais de “Twin Peaks”, o realizador David Lynch e o argumentista Mark Frost.

Estávamos, é bom lembrar, em 1989 — e a televisão era muito diferente do que é hoje.

A proposta que Lynch e Frost então fizeram à ABC era bastante ousada e a cadeia de televisão decidiu avançar com a produção de um episódio-piloto para teste. Filmado entre março e abril de 1989, com uma duração mais longa do que a normalmente atribuída a episódios televisivos, impressionou os financiadores positivamente. Todavia, a ABC, consciente dos riscos, decidiu apostar apenas numa primeira temporada de 8 episódios, para medir o pulso das audiências. Ninguém se atrevia a pensar que pudesse ser um grande êxito, mas foi. Foi mesmo um estouro quando, a partir de abril de 1990, a série começou a ser emitida. O piloto teve uma audiência de mais de 34 milhões de telespectadores e os episódios seguintes estiveram sempre acima dos 15 milhões o que, para um projeto muito experimental e nada calhado nos usos e costumes da televisão, era extraordinário. Uma segunda temporada de 22 episódios foi comanditada logo em seguida, as vendas internacionais dispararam (em Portugal, “Twin Peaks” começaria a ser emitida a partir de 22 de novembro desse mesmo ano).

Ícones. Sheryl Lee como Laura Palmer morta e embrulhada em plástico; e a tabuleta de boas-vindas à cidade, aqui numa imagem da nova temporada; à direita, a capa do “Cartaz” de 10/02/90 e a VHS “Calma Assassina”

Ícones. Sheryl Lee como Laura Palmer morta e embrulhada em plástico; e a tabuleta de boas-vindas à cidade, aqui numa imagem da nova temporada; à direita, a capa do “Cartaz” de 10/02/90 e a VHS “Calma Assassina”

foto CBS Photo Archive/Getty Images

O sucesso obtido foi espantoso pelo carácter singular da série. É que, embora centrada no assassínio de uma jovem de 17 anos, Laura Palmer, encontrada morta mesmo no princípio do episódio-piloto, logo nesse alvor da narrativa se percebia que o modus operandi de “Twin Peaks” era obtuso. Era o cruzamento entre um hiper-realismo maníaco nos pormenores de uma quase reconstituição de época, com uma espécie de surrealismo aberto a múltiplos patamares de realidade, tudo temperado por um humor em várias gradações e constante assombro. Era, desde logo, a figura aprumadinha, muito arrumada, muito autoconvencida, do agente especial Dale Cooper, do FBI, que chega à cidade de Twin Peaks com a missão de desvendar o mistério, com aquelas conversas recorrentes para um gravador em que se dirige a uma tal Diane — que nunca havemos de ver. São conversas de serviço que podem ser pontuadas seja por comentários pessoais seja por questões irónicas. Logo no primeiro episódio, ainda o espectador não sabe que a busca de quem matou Laura Palmer vai durar, ele diz para o gravador que “há duas coisas que continuam a perturbar-me, não só como agente do FBI mas como ser humano: que se terá realmente passado entre Marilyn Monroe e os Kennedys? E quem terá premido o gatilho sobre JFK?”. Lynch a mostrar que havia enormes enigmas na vida real, ou apenas notações de um humor retorço?

Atente-se naquele conjunto de personagens que sentíamos pendurados em cordéis artificiosos: Andy, o ajudante do xerife, alma sensível que chora quando vê um cadáver e tem o cabelo espetado a lembrar o Tintim; Nadine, a mulher comovente e inquietante, traída pelo marido, obcecada na invenção de rolamentos para cortinados absolutamente silenciosos, que usa uma pala num olho, como se fosse uma harpia pirata de um velho mito grego em banda desenhada e que, depois de uma tentativa de suicídio, sairá do coma com uma força descomunal e a pensar que é, outra vez, adolescente; a impossível Lucy, telefonista na esquadra do xerife, com a sua vozinha fanhosa, o impensável cabelo, a eficiência turbulenta de quem tem dificuldade em encontrar as palavras certas para dizer o que precisa; o dr. Lawrence Jacoby, psiquiatra de roupas exóticas, óculos com lentes de duas cores, uma coleção de sombrinhas de cocktail com datas e lugares e o coco onde guarda segredos; a enigmática “Senhora do Tronco”, sempre com um pedaço de árvore ao colo, como se fosse um ser vivo que visse coisas e as pudesse testemunhar. E até há, já com a série em velocidade de cruzeiro, um agente policial transexual que David Duchovny interpreta com inexcedível panache — e igual dose de coragem, sejamos justos. Acho que foi a primeira vez que vi (e, como eu, o mundo) na televisão generalista e em horário nobre, um personagem assim. Eram, ainda, as diversas e constantes referências à comida, em especial ao café e a uma tarte de mirtilo particularmente deliciosa no restaurante local, o Double R Diner, ou os inevitáveis donuts com geleia, sempre abundantes no meio de uma multiplicidade de variedades e sabores de outros donuts, presentes em constância na esquadra do xerife, ou não fossem donuts e polícias uma dupla tão firme no imaginário americano como o 4 de Julho e o peru no forno. Isto para já não falar da chegada de Jerry Horne com as imensas sanduíches de queijo brie em baguettes, sanduíches que, por momentos, tomam conta da atenção narrativa de uma série que faz muito mais do que andar atrás de quem matou Laura Palmer.

SEXO, VIOLÊNCIA, MISTÉRIOS

O que havia a esperar do homem que nos dera, poucos anos antes, o malsão “Veludo Azul” (e que, no próprio ano de 1990, ganharia Cannes com “Um Coração Selvagem”, graças à coragem de um júri presidido por Bertolucci)? Decerto nada menos do que escalavrar a superfície social de uma pequena cidade de 50 mil habitantes onde, à primeira vista, tudo vai bem numa América onde nada vai muito mal. Uma América desenhada como se os anos 50 estivessem ali mesmo atrás (vejam-se as roupas, os penteados, as mobílias, um certo estilo de vida), mas, na realidade, uma América sem tempo, fusão de matérias que poderiam ser anacrónicas se as datas estivessem definidas com precisão. Uma América onde logo abaixo da película envolvente, da pele, da imagem pública, mora um sem-número de interditos, de não-ditos, de violências, de práticas inconfessáveis. Paira um persistente odor a sexo, quando não a incesto — e não é preciso chegar à revelação de quem matou Laura Palmer ou à cena em que Audrey, trabalhadora do One Eyed Jack’s, o casino-bordel logo a seguir à fronteira, recebe o pai como cliente, já que o patrão da casa gosta de experimentar a carne fresca. Será delirar em extremo ler inferências mamárias no símbolo e no nome da cidade, ou dizer que há um jorro ejaculatório na queda de água do Great Northern Hotel? O que é certo é que o erotismo adolescente está à solta, proliferam lolitas escondidas em roupas respeitáveis e sorrisos com segundas intenções, Laura já era assim, com umas pitadas de cocaína a abrilhantar. E há uma atmosfera suja, veja-se o que um dos personagens diz à filha quando a acusa de lhe ter estragado um negócio. Ameaça pô-la “a esfregar bidés num convento búlgaro” — isso é coisa que um pai prometa a uma filha?

Por sobre tudo isto, que já não era pouco, derramou-se um manto fantástico, capaz de conduzir a narrativa para espaços tenebrosos, inexplicados quando não inexplicáveis — o fundo da noite, o outro lado da câmara das almas perdidas, o lugar onde as corujas não são o que parecem, onde há gigantes, anões e canções de Julee Cruise. Visões e sonhos irrompem logo desde o primeiro episódio da série — o próprio Bob, demónio que encarna em mortais para uma insaciável ânsia de corrupção e morte, surgiu por acaso num reflexo durante as filmagens do piloto (Frank Silva, o intérprete, era um elemento da equipa de decoração da série) e de imediato Lynch lhe pegou. E há mesmo um lugar fantástico que se tornaria um dos maiores ícones de “Twin Peaks”, a sala de cortinas vermelhas com o chão em ziguezague e o anão, onde todos falam de uma forma arrastada e quase ininteligível. É nesse lugar, durante um sonho, que Laura revela a Dale quem a matou, mas fala-lhe em voz baixa, ao ouvido. Nós não ouvimos e Dale, quando acorda de manhã, já se esqueceu. Fica, todavia, a saber uma coisa, uma coisa que o espectador mais avisado devia ter tomado em consideração: esse sonho é um código à espera de ser decifrado. Como toda a série, aliás... Acontece que não há uma pedra de Roseta para aclarar o que está escondido nas dobras da noite. E será nossa missão de espectadores continuar a percorrer o labirinto, a ler e a tresler os sinais que nele se afixam. Deve dizer-se que, volvidos todos estes anos, ver “Twin Peaks” continua a ser uma experiência muito eletrizante, mesmo agora que já sabemos quem matou Laura Palmer. Porque o que houve de mais extraordinário em “Twin Peaks” foi a quebra do contrato narrativo que é uso estabelecer com o espectador e que este toma como garantido, como se houvesse um pacto firmado entre quem conta e quem escuta ou vê. Uma narrativa tem sempre uma ou mais questões a que é suposto ir respondendo, até à resolução final. Em “Twin Peaks” a questão era ‘quem matou Laura Palmer’, mas de facto, dar-lhe resposta nunca foi prioritário. A questão atravessou meio mundo ao ponto de, dizem as lendas, Gorbatchov a ter posto ao Presidente Bush quando visitou Washington em junho de 1990 — e a Casa Branca ter feito chegar a demanda a Lynch. Foi só então que Jules Haimovitz, à época presidente da Spelling Productions, envolvida na produção da série, se terá apercebido de que o próprio Lynch não fazia a mínima ideia... Percebe-se? Percebe-se. Ao invés do que é usual, o importante em “Twin Peaks” não era o que havia ao fundo do túnel, era o próprio túnel. A identidade do assassino era a cenoura diante do nariz do espectador, o que interessava a Lynch e a Frost era a caminhada.

A capa do “Cartaz” de 10/02/90 e a VHS “Calma Assassina”

A capa do “Cartaz” de 10/02/90 e a VHS “Calma Assassina”

Terá sido por isso que, uma vez revelado, no episódio 14, que o assassino era o próprio pai de Laura Palmer, possuído pelo espírito de Bob, quer Lynch quer Frost pareçam ter esmorecido no interesse pela série? Testemunhos da época constatam o facto, ao ponto de alguns atores se terem sentido abandonados e de a trama ter entrado numa deriva algo desordenada que fez debandar boa parte da audiência. A ABC apressou-se, então, a cancelar a sua produção, apesar do esforço final de Lynch que voltou para realizar o que viria a ser o último episódio que terminava de uma forma espetacular, com Dale Cooper a ser possuído pelo espírito malévolo de Bob, abrindo portas para a hipótese de uma terceira série. Mas nunca chegou a acontecer, malgrado os muito fiéis fãs se terem afadigado, ao longo dos anos, para manter viva a chama. Porque, como algures dizia a “Senhora do Tronco”, faltou sempre uma última questão: porquê? E ainda: será Bob uma verdadeira entidade autónoma, ou apenas o mal que os homens fazem, como alvitra um dos personagens? Será isso que estará na mente de David Lynch ao voltar agora a “Twin Peaks” no momento culminante do derradeiro episódio, já ali datado para 25 anos depois da morte de Laura Palmer? A expectativa não pode ser maior.

Em fevereiro de 1990, dois meses antes de “Twin Peaks” começar a ser emitida nos Estados Unidos, a Warner Home Video editou, em Portugal, em videocassete, a versão internacional do episódio-piloto como se fosse um filme autónomo. Um daqueles acasos felizes com que às vezes somos brindados. Por cá chamou-se “Calma Assassina” e era tão fulgurante que logo se decidiu dar-lhe destaque aqui no Expresso. Foi capa do suplemento “Cartaz” de 10 de fevereiro. Terá sido a primeira capa que “Twin Peaks” mereceu, em todo o mundo? É muito possível. Meses volvidos não houve publicação que não fizesse uma justa genuflexão a David Lynch, até a “Time”.

“Twin Peaks”, TVSéries, domingos, 22h

CBS Photo Archive/Getty Images

SOMBRIA E ASSUSTADORA

Texto de João Lisboa

Angelo Badalamenti deverá estar eternamente grato a Ivo Watts-Russell, o patrão da 4AD, por, sem sequer se ter apercebido disso, lhe ter proporcionado a oportunidade de se tornar o compositor às ordens de David Lynch. Na verdade, em “Blue Velvet” (1986), Lynch desejava muito ter na banda sonora não apenas ‘Song to the Siren’ (de Tim Buckley), na interpretação dos Cocteau Twins para “It’ll End in Tears” (1984) — o álbum do coletivo multiartistas da 4AD, This Mortal Coil —, como pretendia que os próprios Robin Guthrie e Elizabeth Fraser figurassem no filme. Watts-Russell, porém, não foi pobre a pedir pelo licenciamento e essa hipótese foi abandonada (seria finalmente concretizada em “Lost Highway”, 1997, embora sem Robin e Liz no ecrã), abrindo a porta a Badalamenti. Recrutado como vocal coach de Isabella Rossellini e responsável pela totalidade da BSO — que incluiria também ‘In Dreams’, de Roy Orbison, ‘Love Letters’, de Ketty Lester, e ‘Blue Velvet’, de Bobby Vinton —, para ela, em substituição de ‘Song to the Siren’, escreveria ‘Mysteries of Love’ (com texto de Lynch) e a restante música que, segundo a vontade do realizador, deveria ser “inspirada em Shostakovich, muito russa, o mais bela possível, mas, ao mesmo tempo, sombria e assustadora”. Rossellini acabaria por desistir de cantar e seria Julee Cruise (na foto, numa cena de “Twin Peaks”), um vozeirão da Broadway devidamente domesticado e anestesiado por Badalamenti, a interpretá-la. O trio funcionou tão bem que, sem pausa, daria origem ao primeiro álbum de Julee Cruise, “Floating into the Night” (1989), matriz tanto do musical experimental “Industrial Symphony No. 1: The Dream of the Broken Hearted” (1990), apresentado por duas vezes na Brooklyn Academy of Music de Nova Iorque, como, sobretudo, da memorável banda sonora da série “Twin Peaks” para cuja atmosfera noir-narcótica contribuiu com ‘Falling’, ‘Rockin’ Back Inside My Heart’, ‘Into the Night’, ‘The Nightingale’ e ‘The World Spins’. Já na longa metragem “Twin Peaks: Fire Walk with Me” (1992), o triângulo Lynch/Badalamenti/Cruise apenas regressaria num tema, ‘Questions in a World of Blue’.

Lynch não cede um milímetro: o novo “Twin Peaks” é denso, secreto e radical

Texto de Francisco Ferreira, enviado a Cannes

No final da segunda temporada, o agente do FBI Dale Cooper (Kyle MacLachlan) deixou-nos do lado de lá dos seus sonhos de culpa e de morte de onde brotavam os pensamentos mais insanos e as mais aberrantes monstruosidades e criaturas, longe dos primeiros tempos em que o víramos, concentrado e circunspecto, a investigar a morte de Laura Palmer, caneca de café numa mão e tarte de cereja na outra. Rodeado de cortinas vermelhas, naquele chão de mosaico em ziguezague (que tanto recordava as alcatifas dos corredores do hotel de “Shining”, de Kubrick), Cooper encontrava o espectro da adolescente assassinada, que lhe lançava um repto, falando como uma cassete de fita magnética tocada em sentido inverso: “I’ll see you again in 25 years.”

Elenco. David Lynch (Gordon Cole), Miguel Ferrer (Albert Rosenfield), e, em baixo, Kyle MacLachlan (Dale Cooper)

Elenco. David Lynch (Gordon Cole), Miguel Ferrer (Albert Rosenfield), e, em baixo, Kyle MacLachlan (Dale Cooper)

fotos Suzanne Tenner/SHOWTIME

Ninguém passou então cartão a essa frase que hoje pode ser vista como profética. Não foram poucas as vezes que se falou de um reboot da série nos anos que depois se acumularam e a data, não haja dúvidas, é uma coincidência mas a verdade é que, um quarto de século depois (26 anos, mais concretamente), a terceira temporada de “Twin Peaks” está no ar. Começou a ser revelada no canal Showtime na madrugada do passado domingo e os dois primeiros episódios tiveram uma projeção histórica no grande ecrã de Cannes — experiência que ficará gravada na memória de quem a viu e que decerto não se repetirá. Em Portugal, esses episódios serão exibidos ao domingo, no TVSéries.

A primeira coisa que David Lynch nos tira de debaixo dos pés no primeiro episódio é o tempo. Passamos telepaticamente do passado para o presente e de um espaço para outro desde a aparição de Laura Palmer a Cooper naquele Black Lodge que é a antecâmara de todos os horrores. Esperam-nos ao todo 18 novos episódios, todos assinados por Lynch, e aquilo que já se viu é exaltante, um maná de TV, de novo coisa nunca vista para o pequeno ecrã (quem diria, em 2017?) e ainda mais densa e radical do que as memórias que guardámos da série. A ideia geral é que tudo se transformou. Reconhecem-se as personagens principais, apesar das rugas e dos cabelos brancos que testemunham a passagem do tempo: MacLachlan (Cooper), Sheryl Lee (Laura Palmer), Mädchen Amick (Shelly Johnson), Michael Horse (Hawk) e, entre tantos outros, o próprio David Lynch, na pele de Gordon Cole, que ainda está para vir (no primeiro episódio não aparece). A estas vão somar-se caras novas na série, próximas dos filmes de Lynch ou inéditas no seu universo. Tanto quanto se percebe, a nova fornada pega nas personagens no exato momento em que a segunda temporada os deixou, e com Cooper a lançar-nos um misterioso “I understand...”. E conseguiremos nós entender por exemplo que a morta Laura Palmer esteja de novo viva — tão viva que é ela quem de novo visita Cooper no início do segundo episódio? Estaremos prontos para aceitar essa alucinação?

Nada se dirá dos mistérios que já se viram além de um punhado de aspetos que nos permitem concluir que estamos de volta a um trabalho enorme. A cidade de Twin Peaks (que sempre foi fictícia) é visitada esporadicamente no primeiro episódio, que aposta claramente em conquistar outros territórios para o que há de vir. Em Nova Iorque, algures num edifício superpoliciado de um qualquer “bilionário anónimo”, um segurança vigia como boi a olhar para palácio uma misteriosa caixa transparente onde aparentemente nada se passa, à medida que é seduzido por uma mulher que lhe traz insistentemente café, com vontade de entrar na sala proibida. E ela consegue. No pacato South Dakota, descobrimos que um crime ocorreu e que outra mulher, Ruth Davenport, foi encontrada morta na cama em condições que, por mais que quiséssemos (e não queremos), não conseguiríamos descrever por palavras. Não há um só cadáver debaixo dos lençóis e as impressões digitais recolhidas no local incriminam um homem bem conhecido na região que tanto pode ter cometido o crime “num sonho”, estar a ser vítima de uma armadilha, ou ambas as coisas em simultâneo. Entre estas duas linhas narrativas que se entrelaçam, descobriremos também em Cooper o sereno agente e o seu irado e demoníaco duplo, também Diane, a secretária que costumava apontar as suas notas. Por aqui ficamos. Aquilo que resultou do visionamento de Cannes não só é de deixar água na boca como basta para dizer que é Lynch ao seu melhor nível — e quanto mais se conhecer, não só “Twin Peaks”, mas toda a obra do americano, mais sentidos se darão à falta de sentido geral. A pergunta agora já não é “quem matou Laura Palmer?” mas “que raio é isto?” ou “quem é que nos serviu LSD à hora do jantar sem que tivéssemos dado conta?”. Cuidado com as insónias amanhã à noite, que segunda-feira é dia de trabalho.