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Pode uma heroína “branca, de proporções impossíveis”, ser feminista?

MARIO ANZUONI / REUTERS

Há queixas nas redes sociais e na Comissão de Direitos Humanos de Nova Iorque: numa exibição do novo filme da Mulher Maravilha foi proibida a entrada de homens. O debate veio recuperar dúvidas antigas: pode uma heroína “branca, de proporções impossíveis”, ser feminista – e pode este filme polémico ser “o melhor filme baseado em banda desenhada de sempre”?

“Entrada não permitida a homens.” O aviso constava do anúncio sobre uma exibição do filme “Mulher-Maravilha”, numa sala da cadeia de cinemas Alamo Drafthouse, neste caso em Austin, Texas. “Estamos a falar a sério: toda a gente que trabalhar nesta sessão – staff do cinema, projecionista, equipa de cozinha – vai ser mulher.” Não foi preciso mais para uma série de reclamações dispararem nas redes sociais e chegarem, esta quinta-feira, a uma reclamação oficial que deu entrada na Comissão de Direitos Humanos de Nova Iorque, cidade onde a cadeia de cinemas decidiu fazer mais exibições para mulheres depois de a primeira ter esgotado.

“Espero que todos os homens boicotem Austin e façam o que puderem para diminuir Austin e causar danos à imagem da cidade”, lê-se numa das mensagens mais agressivas, um email dirigido ao mayor de Austin, Steve Adler, cujo autor refere que as mulheres são habituadas a gostar de maquilhagem porque esta “lhes ensina a fingirem ser mais do que são” e desafia: “Diz uma coisa que tenha sido inventada por uma mulher!”.

Steve Adler tornou-se entretanto um “herói sem capa” para muitos dos internautas que leram o email de resposta, publicado no seu website, em que ironiza com a mensagem– “esta conta deve ter sido atacada por hackers” – e declara que aquelas palavras são “um embaraço para a modernidade, o bom senso e a decência”. A cadeia de cinemas também ripostou, anunciando novas sessões e explicando que “seria bastante divertido – por uma exibição – celebrar uma personagem que há perto de oito décadas significa muito para as mulheres”. E é no meio deste campo de batalha que “Mulher-Maravilha” estreia também nos cinemas portugueses – numa guerra em que o que menos importa são as imagens que passam no grande ecrã.

Um filme que é uma causa em espera

Muito antes da polémica sessão em Austin e das que se seguiram em várias partes do país, discutia-se o feminismo da heroína e a importância de este filme chegar finalmente ao ecrã, depois de décadas de histórias em papel da Mulher-Maravilha e de projetos abortados nos estúdios cinematográficos. Afinal, escreve-se no “The Telegraph”, “os estúdios querem sucessos, não querem causas, e a Mulher-Maravilha é uma causa em espera”.

O filme pode representar uma causa, mas ela é muito mais abrangente – tem que ver com a representação das mulheres no cinema e no mundo dos livros de banda desenhada em particular, onde se fazem contas para se descobrir que há poucas raparigas a crescer com a ideia de que também elas podem ser fortes e salvar o mundo. Segundo as contas do “Gizmodo”, desde 1920 houve cerca de 130 filmes adaptados de livros de banda desenhada ou que giram à volta de histórias de super-heróis mas só oito destes contaram com protagonistas femininas. No “The Telegraph” o problema é resumido assim: “Dos 55 livros de banda desenhada adaptados por Hollywood na última década, zero centraram-se numa personagem feminina sozinha; para pôr essa estatística em perspetiva, são menos dois do que os que se centraram em cães”.

No jornal britânico, escreve-se pela pena de Radhika Sanghani que “quer seja por causa do efeito Frozen ou da hilariante comédia ‘A última despedida de solteira’, Hollywood começou finalmente a perceber o poder de um filme com uma forte presença feminina”. Já tinha acontecido recentemente com a versão feminina de “Caça-Fantasmas” – que valeu às atrizes, particularmente a Leslie Jones, do Saturday Night Live, ataques sexistas e até racistas. Mas é a primeira vez que a Mulher-Maravilha tem direito ao seu próprio filme – e que um blockbuster deste género é protagonizado por uma mulher e que um filme do DC Extended Universe, o estúdio da Warner Brothers dedicado a fazer passar para o grande ecrã as histórias dos livros da DC, é realizado por uma mulher (Patty Jenkins, também responsável por “Monster”, de 2003).

Um ícone feminista com alguns obstáculos

“Ok, vamos dizê-lo: a Mulher-Maravilha é a heroína mais famosa de sempre. Sem ofensa às Lara Crofts, Buffys e princesas Disney do mundo, mas nenhuma delas apareceu em tantas capas de revista, t-shirts ou vendeu os incontáveis livros de banda desenhada e bonecas que ela vendeu. Sendo o pacote completo de beleza, inteligência e força, ela é um ícone feminista desde a sua apresentação, em 1941”. O elogio, feito no site da DC, mostra a força da personagem, uma princesa amazona da mitologia grega que cresce na ilha paradisíaca de Themyscira, onde amazonas como ela treinam e combatem.

No entanto, para percebermos o feminismo da Mulher-Maravilha – e as suas contradições – é preciso recuarmos à tal apresentação e à sua criação, em 1941. Foi durante a Segunda Guerra Mundial, na altura em que o Batman e o Super-Homem se tornavam símbolos da banda desenhada, que surgiu a ideia de contrariar a masculinidade que parecia dominar o meio e criar uma personagem diferente. A proposta foi feita pelo psicólogo de Harvard William Moulton Marston, que se haveria de tornar conselheiro da DC.

Frazer Harrison/Getty Images

Foi Marston que imaginou a história de Diana, a princesa amazona que encontra um piloto do Exército americano, Steve Trevor, na sua ilha de guerreiras femininas e o leva de volta ao “mundo dos homens” – um mundo cujas regras desconhece e cujas guerras não compreende. A ideia foi apresentada assim por Marston, segundo cita o “The Washington Post”: “A Mulher-Maravilha é propaganda psicológica para o novo tipo de mulher que deve, acredito, dominar o mundo”. O criador da ideia decidiu que ela deveria ser acorrentada ou presa de alguma forma em todas as edições, justificando ao seu editor que “as mulheres gostam de submissão” e acreditando que a destruição das correntes seria um símbolo de libertação.

Formando equipa com o artista Harry G. Peter, Marston conseguiu levar a sua Mulher-Maravilha, a da tiara dourada e das botas altas, avante pela primeira vez em 1941. Desde então, a evolução da personagem nem sempre foi a da “mulher que deve dominar o mundo” que Marston desejava: apesar de em 1942 a heroína ter conseguido o seu próprio livro, devido à grande popularidade da personagem, os seus poderes foram sacrificados, na década de 1960, para poder estar perto de Steve, já depois de os livros terem sido “banidos por indecência” e por um suposto “incentivo ao lesbianismo”, conta Jill Lepore, professora de História em Harvard e colunista da New Yorker.

A categoria de símbolo feminista voltou a ser atribuída à Mulher-Maravilha em 1972, quando fez capa da revista Ms., de Gloria Steinem, ou mais recentemente quando no ano passado foi escolhida para ser embaixadora honorária da ONU para a igualdade de género. Por pouco tempo: dois meses depois de ter sido escolhida, em dezembro passado, a ONU concordou com a petição de funcionários que apontava para a “imagem abertamente sexualizada, de peito grande, uma mulher branca com proporções impossíveis” que veste a bandeira dos Estados Unidos e dificilmente representa todas as mulheres.

A melhor adaptação de banda desenhada de sempre?

Mais consensual parece ser a escolha de Gal Gadot, a atriz israelita que no grande ecrã dá vida à Mulher-Maravilha e que o “The Guardian” considera poder ser “o melhor casting para super-heróis deste Christopher Reeve”, uma atriz que “melhora a atuação de todos os que a rodeiam”. Vestida com as tradicionais botas e tiara, Diana – que se transforma em Mulher-Maravilha quando pisa a Londres da Primeira Guerra Mundial, onde a narrativa do filme se desenrola – vai tentar contrariar o mal, lutando ao mesmo tempo contra o deus da guerra, Ares, e a guerra em si.

MOHAMED AZAKIR / REUTERS

Enquanto se analisa o caráter feminista do filme, que é quase sempre subtil, USA Today elenca os “momentos maravilhosamente feministas” da obra – nestes incluem-se a apresentação da ilha Themyscira, onde atrizes como Robin Wright ou até atletas na vida real andam a treinar técnicas e combate e onde não se sabe o que é um bebé; ou os momentos em que Diana mostra não perceber as expectativas que a sociedade a que chegou tem em relação a ela por ser mulher – com a ironia da sua mãe que, quando parte para Londres, lhe diz que vai para o “mundo dos homens”.

Há quem diga que a decisão tardia de trazer a Mulher Maravilha ao grande ecrã não passa de um aproveitamento dos grandes estúdios, que tentam adotar a onda positiva do feminismo e do poder feminino para vender bilhetes. E, depois de um filme em banda desenhada que passou diretamente para DVD, em 2009, e de tentativas falhadas de transformar Diana numa professora de história grega para uma série de televisão, nos anos 1990, este arrisca-se a ser o primeiro filme bem-sucedido com uma super-heroína na capa – talvez o primeiro grande sucesso do DC Extended Universe, que teve desilusões com “Suicide Squad” e “Batman vs. Superman”.

Seja ou não o grande sucesso que boa parte dos críticos indica, com o “The Guardian” a questionar se não será este “o melhor filme baseado em livros de banda desenhada de sempre”, há um alívio que Jill Lepore sentiu ao ver o filme e que espera que mais gente sinta. “Muitos espectadores irão ver este filme, como eu fiz, depois do mais normal dos dias, de reuniões de escritório, de criar filhos, de ver notícias, de ver as mulheres a serem silenciadas, ignoradas, desprezadas, ameaçadas, mal pagas e subestimadas e, de alguma forma, a conformarem-se. Não estou orgulhosa de ter encontrado conforto a ver uma mulher numa tiara dourada e botas até às coxas a combater hordas de homens terríveis”, escreve a autora de um livro sobre a história da Mulher-Maravilha. “Mas encontrei-o.”