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Parte o Comboio Presidencial ao encontro de Camilo e da burra Felicidade

D.R.

No dia em que se completaram 127 anos da morte de Camilo Castelo Branco, o Expresso partiu a bordo do histórico Comboio Presidencial, numa viagem ao encontro do autor de “Amor de Perdição” e em busca de uma Felicidade que anda fugida

André Manuel Correia

Os cavalheiros e as donzelas aproximam-se da linha 2 da plataforma de embarque. Faltam poucos minutos. Eles com cartolas, bengalas e bigodes penteados com brio. Elas ostentam deslumbrantes vestidos que adornam as elegantes silhuetas. As hospedeiras dão as boas-vindas. Tudo nos remete para uma outra época, mas o presente lembra-nos que está na hora. Os passageiros entram no Comboio Presidencial – composição de luxo, construída pela empresa Nicaise & Delcuve, especialmente utilizada pelos chefes de Estado e pelas suas comitivas entre 1910 e 1970.

1 de junho de 2017. 13h55, marca o relógio da estação ferroviária de Vila Nova de Famalicão. Estamos prestes a partir ao encontro de Camilo Castelo Branco (1825 – 1890), no dia em que se assinalam 127 da sua morte. Último toque. O maquinista faz arrancar a locomotiva e, a todo o vapor, inicia-se o Roteiro Literário Camiliano. O Expresso apanha a boleia desta odisseia literária e recriação histórica. “Agarra-te, que já vamos a 30 km/h”, pede Milo à esposa.

Milo e Natércia da Silva são um casal de humildes camponeses. Estão casados “há demasiados anos”, explica ela prontamente ao Expresso. Nunca foram entrevistados, mas “esta coisa de estar a falar para uma coisinha preta é gira”. É também a primeira vez que vão ver uma cidade grande: o Porto. Ao longo do percurso, interpelam os doutores, autarcas, engenheiros e jornalistas, “gente importante e conhecida”, como dizem, para lhes perguntar se sabem do paradeiro da Felicidade. Aqueles senhores, tão letrados, acenam negativamente com a cabeça. Ninguém a viu. Ninguém sabe de nada. A viagem prossegue.

Em 2011, aquando da comemoração do centenário do Turismo de Portugal, devolveu-se a este comboio emblemático toda a integridade física e funcional, através de um meticuloso labor de conservação e restauro. No interior das carruagens preciosamente decoradas, todas alcatifadas e com revestimento em madeira, temos o Salão Restaurante, o Salão da Comitiva e Segurança, o Salão dos Ministros, o Salão do Chefe de Estado, a carruagem dos jornalistas e ainda o Furgão.

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Ninguém me soube dizer onde estava a Felicidade

A locomotiva avança em direção ao Porto. Através da janela, a paisagem dos campos forma um cenário verde e disforme que passa rápido perante o olhar. Os passageiros exploram todos os recantos do histórico comboio. Acomodam-se, depois, nos confortáveis sofás. Geram-se tertúlias agradáveis. Enquanto isso, Milo e Natércia vão deambulando de um lado para o outro. Preocupados. Agitados. Mas, afinal, quem é e onde estará a Felicidade que tanto procuram? “Era a nossa burrita que fugiu e depois disseram-nos que o senhor Camilo – aquele, o escritor – tinha um livro que nos dizia onde está a felicidade. Só que eu já encontrei aqui muita gente importante e ninguém me soube dizer onde estava a Felicidade”, conta Natércia.

A burra nunca tinha fugido e Milo – que às vezes até se entusiasmava a agarrar a Felicidade – culpa a mulher por ter deixado a porta aberta. “Tu gostavas muito de apalpar a Felicidade não é, meu estupor?”, atira a camponesa, a quem a avó deu sábios conselhos no tempo em que Natércia ainda era uma jovem moça. “Eu queria muito um hóme rico, mas a minha avó disse para eu não ser tola e casar com um rico hóme. Para minha desgraça, nem uma coisa nem outra. E, agora, ando à procura da Felicidade.”

Levam um cesto com poejo, hortelã (“muito boa para os cabritos”, assegura Natércia), alfazema “muito jeitosa para tirar as traças da roupa”, alfaces, frutas e umas “coisinhas redondas” que foi capar naquela manhã. Não sabem muito bem o que é o Porto, mas disseram-lhes que é uma cidade grande. Em alguma parte a Felicidade haverá de estar. E Natércia até desconfia, embora com alguma relutância. “Diz o senhor Camilo que a felicidade estava escondida debaixo de uma tábua e que tinha lá 150 contos de reis. Mas isso não é felicidade. Isso é porque ele não viu a nossa Felicidade.”

Milo e Natércia são, na verdade, duas personagens encarregadas de garantir a animação durante a viagem entre Vila Nova de Famalicão e o Porto. A atriz Cidália Araújo junta-se ao ator Serafim Costa, da companhia Grutaca, e estão casados artisticamente há somente duas semanas. Foi a paixão pelo teatro que os uniu, a convite do Centro de Estudos Camilianos, para darem corpo ao desconcertante casal. Neste roteiro literário não falta o próprio Camilo Castelo Branco, interpretado pelo ator Reinaldo Ferreira, o mais requisitado para fotografias.

Camilo polvilhado pela cidade

O Comboio Presidencial chega às 14h45 à estação de São Bento, no Porto. A comitiva sai entusiasmada e em passo ligeiro. É a partir dali que se inicia uma viagem em busca dos lugares intrinsecamente ligados à vida e obra de Camilo Castelo Branco, autor de “Amor de Perdição” (1863) e que colocou fim à vida em 1890, na freguesia de São Miguel de Seide, em Vila Nova de Famalicão.

A existência de Camilo foi pontuada por um intenso amor por Ana Plácido, a paixão de uma vida marcada por suplícios e dores existenciais, associada à cegueira e às dificuldades económicas, que o conduziram a um abismo suicidário. Tudo era, de forma extravasante, intenso e pungente em Camilo. Tanto na vida como na obra. Era um homem que vivia poeticamente, com todas as consequências disso mesmo. Entre 1851 e 1890, motivado pelos problemas financeiros, escreveu a um ritmo vertiginoso e publicou 260 obras. Pelas 15h30 de 1 de junho de 1890, uma bala colocava um término abrupto a um sofrimento prolongado por vários anos.

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Vários autocarros aguardam a chegada da comitiva que integra esta rota literária camiliana e transportam-nos, num primeiro momento, até ao cemitério da Igreja da Lapa, no Porto, onde Camilo está sepultado num jazigo do século XIX pertencente à família Ferreira Fortuna. No local é depositada uma coroa de flores, em homenagem ao escritor oitocentista, homem de amor e liberdade, nome maior do romantismo em Portugal.

Daí seguimos para o Centro Português de Fotografia, antigo edifício da Cadeia da Relação do Porto, onde Camilo Castelo Branco esteve preso durante um ano pelo crime de rapto, fruto da sua paixão proibida por Ana Plácido, com quem havia fugido e casada, à época, com Manuel Pinheiro Alves. Ana foi encarcerada em junho de 1860 pelo crime de adultério. Depois de ter estado a monte, Camilo entregou-se às autoridades a 1 de outubro do mesmo ano.

No mesmo dia, escreve uma carta ao amigo Guilhermino de Barros. Na missiva, pode ler-se: “Acuda-me o meu amigo com as suas relações em Lisboa. Acuda que salva da África um seu amigo de 16 anos, e uma desgraçada senhora que lentamente agoniza numa tísica, a poucos passos de mim, sem que eu lhe possa dizer ‘Coragem, Mártir…’. Escrevo-lhe cheio de lágrimas, e não posso mais”.

Camilo e Ana Plácido foram condenados. Foi na prisão – onde permaneceu numa cela do terceiro piso com a companhia de um cão e um pequeno pássaro cantante – que escreveu a obra “Memórias do Cárcere” e travou amizade com o famoso militar e salteador Zé do Telhado, por muitos considerado o “Robin dos Bosques português”.

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A felicidade aparece… mas não era bem essa

O autocarro segue para o último ponto desta odisseia literária pelo universo camiliano: a Livraria Lello. Até ao momento, Natércia e o marido Milo continuam angustiados. Da Felicidade nem rasto.

Os turistas fazem fila à entrada do número 144 da rua das Carmelitas, mas poucos saberão que, para lá da arquitetura deslumbrante e da ligação à saga de Harry Potter, existe uma forte ligação de Camilo Castelo Branco à emblemática Livraria Lello, denominada inicialmente “Livraria Chardron”, nome do conceituado editor francês fixado no Porto responsável por levar a estampa várias obras do escritor oitocentista.

Atualmente são cobrados 4 euros para visitar a livraria e muitos dos visitantes parecem alheados dos livros. São turistas, viajantes ávidos de captar momentos para a posterioridade, indiferentes aos passeios delongados que a literatura proporciona. Aproveitam, sobretudo, para tirar fotografias ao espaço, convictos de que os lugares podem caber e ser transportados na memória de uma câmara fotográfica.

No interior da Lello, a azáfama é constante, mas àquela hora, 16h30, torna-se ainda mais acentuada por um jovem casal, pronto para fazer as juras de amor eterno, que ali escolheu fazer a sessão fotográfica do matrimónio. Ficam espantados com a nossa comitiva e nós, de certa forma, também ficamos espantados com eles. Parece que, mesmo no final do roteiro, encontramos, de forma imprevista, a felicidade. “Não era esta que procurávamos”, explica a personagem Natércia. A burra não aparece. É teimosa. O relógio, esse, é impiedoso. O tempo não espera pela Felicidade e na estação de São Bento o comboio presidencial já está preparado para a viagem de regresso a Famalicão.

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Assim terminou esta viagem histórica e cultural pelos meandros e lugares de Camilo. Esta rota literária camiliana, organizada quinta-feira de forma restrita, exclusivamente para convidados e comunicação social, tem como objetivo tornar-se um produto turístico. O projeto está a ser montado com calma e “há um trabalho que está a ser feito” com a colaboração da Direção Regional de Cultura do Norte, adianta o presidente da Câmara de Vila Nova de Famalicão, Paulo Cunha.

“Estamos a consertar este envolvimento para que depois consigamos colocar isto numa dimensão comercial e promover a atratividade deste roteiro”, explica o autarca, apontando a previsão de que em “meses ou um ano” possa haver já algo mais concreto para avançar com o projeto. Também em declarações à imprensa, o diretor da Casa Camilo Castelo Branco, José Manuel Oliveira, frisa a necessidade de construir o roteiro “com alguma cabeça, porque aquilo que for feito com tempo o tempo há-de dar valor”.