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Festivais Gil Vicente celebram 30 anos com “Os Pescadores” e “Gangue de Guimarães”

"Gangue de Guimarães"

Jaime Machado

Há 30 anos que os Festivais Gil Vicente celebram o teatro contemporâneo em Guimarães e estão agora de volta, até 11 de junho, para valorizar o talento da região, assim como revisitar obras fundamentais e dar palco a novas dramaturgias

Há 30 anos nasciam na cidade-berço, com o objetivo de dar visibilidade ao teatro contemporâneo, os Festivais Gil Vicente. Para a 30.ª edição, realizada entre esta quinta-feira e 11 de junho, a matriz consiste novamente em lançar um olhar profundo sobre a criação nacional, numa aposta em novas dramaturgias e revisitações de textos essenciais, como os “Pescadores” de Raúl Brandão – com encenação de João Sousa Braga –, no ano em que se completam 150 anos do nascimento do escritor. O certame conta com a apresentação de seis espetáculos, metade deles em estreia, e contempla ainda a primeira aparição pública do “Gangue de Guimarães”, projeto que agrega e cartografa vários artistas do município, espalhados pelo país e pelo mundo.

As companhias Teatro Praga e Teatro Oficina, a par de encenadores como João Sousa Cardoso ou Jacinto Lucas Pires, são alguns dos nomes que compõem esta 30.ª edição de um evento que privilegia a proximidade entre o público e os artistas, com passagens por palcos menos convencionais.

O programador do Centro Cultural Vila Flor, Rui Torrinha, explica ao Expresso que a longevidade do evento é, “antes de tudo, o resultado da grande resiliência do teatro na cidade”. Na opinião do responsável artístico, esta caminhada de 30 anos dos Festivais Gil Vicente pode ser explicada pelo facto de “o próprio território conter uma série de ingredientes ligados ao teatro muito fortes”.

Desde logo, sustenta Torrinha, através da companhia Teatro Oficina, mas também com um vasto conjunto de grupos de teatro amador, um curso superior de teatro e ainda uma “permanente preocupação” na oferta formativa. “Esta trigésima edição, é muito mais celebrar o futuro, do que evocar uma história com 30 anos, embora isso se revista de uma grande responsabilidade”, frisa.

A cortina abre-se para a celebração do teatro dos nossos dias já esta quinta-feira, pelas 21h30, no Pequeno Auditório do Centro Cultural Vila Flor (CCVF), com a estreia absoluta da peça “Geocide”, dirigida artisticamente por Cátia Pinheiro e José Nunes. Em palco, três personagens deambulam por temas como a mobilidade demográfica, as narrativas distópicas na era pós-moderna, com espaço para a biopolítica e a geopolítica, e até mesmo para as visões apocalípticas de um futuro assolado por incertezas. Imagine “um tempo (futuro) onde a memória terá sido apagada a favor de uma noção de humanidade reduzida à (sua) eterna contemplação”, é este o repto inscrito na sinopse do espetáculo.

No dia seguinte, sexta-feira, dá-se o “Despertar da primavera, uma tragédia de juventude”, uma peça escrita em 1891 por Frank Wedekind e que tem por base um grupo de adolescentes em conflito com uma sociedade conservadora e moralista. Num cenário cor-de-rosa, convivem a crueldade e o amor, a intolerância geracional e até o suicídio. A revisitação desta obra canónica é a mais recente criação do Teatro Praga e sobe ao palco do Grande Auditório do CCVF, às 21h30.

"Os Pescadores"

"Os Pescadores"

Maria Begasse

Pela mão do encenador João Sousa Cardoso somos levados até “Os Pescadores”, um espetáculo que tem como ponto de partida a obra do escritor Raúl Brandão, numa produção meta teatral, reflexo das narrativas complexas e dos códigos da representação. Esta peça deixa pegadas na areia das noções de masculinidade e de género, de trabalho e suplício, para dar voz aos homens intermitentes que circulam entre o mundo dos vivos. Entrincheirados num espaço incógnito, os personagens estão envoltos num tempo pautado por um imaginário que entrecruza os dogmas da tradição e os impulsos de sobrevivência. Esta adaptação de “Os Pescadores” sobe ao palco do Pequeno Auditório do CCVF este domingo, 3 de junho.

A festa do teatro passeia pela cidade

Com metade da programação ainda por ver, a partir da próxima quinta-feira, dia 8 de junho, os espetáculos abandonam o Centro Cultural Vila Flor e invadem outros espaços da cidade de Guimarães. Pelas 21h30 desse mesmo dia, a “Black Box” da Plataforma das Artes e da Criatividade recebe a peça “Henrique IV parte 3, encenada por Jacinto Lucas Pires. O espetáculo é uma tragicomédia e tem como personagem central Henrique, um príncipe precário dos nossos tempos, um homem condenado a fazer traduções técnicas de autoclismos e empilhadoras. O sonho é traduzir Shakespeare, mas são as contas para pagar que lhe comandam a vida.

A 9 de junho estreia, na “Black Box” do Espaço Oficina, a peça “Ela Diz”, uma performance multimédia da companhia Teatro Garagem, em que é narrado o conflito entre mãe e filha. “As personagens, num face a face desafiante, dizem uma à outra o que nunca disseram e o que precisam dizer”, lê-se no texto de apresentação do espetáculo.

A fechar a cortina da edição de 2017 dos Festivais Gil Vicente, a companhia vimaranense Teatro Oficina estreia a sua mais recente criação, intitulada “Álbum de Família”. Nos dias 10 e 11 de junho, sempre pelas 22h, a Casa da Memória de Guimarães serve de palco para a apresentação da performance de teatro e dança, concebida a partir de um espólio fotográfico da associação A Muralha, em que fica refletida a história da representação das famílias da cidade e a sua iconografia.

Além dos seis espetáculos apresentados durante o certame, esta edição dos Festivais Gil Vicente vai também ser tomada de rompante pelo “Gangue de Guimarães”, reunido pela primeira vez para uma residência artística, na sequência de uma convocatória à qual responderam 49 artistas performativos naturais da cidade. O projeto serve para mapear e cartografar o trabalho e o talento de criadores, intérpretes e dramaturgos vimaranenses, muitos deles espalhados pelo país e pelo mundo, mas agora reunidos neste gangue.

O primeiro encontro do coletivo artístico servirá para revelar publicamente os rostos de todos os membros do “gangue” e anunciar as futuras incursões criativas.