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O novo “Twin Peaks” continua a ser o ovni que foi nos anos 90

Kyle MacLachlan como Dale Cooper

Foto Suzanne Tenner/SHOWTIME

Os primeiros episódios da série passam em Portugal hoje à noite

Francisco Ferreira

enviado a Cannes

A passagem de “Twin Peaks” em Cannes foi um acontecimento estranho a acrescentar à absoluta estranheza da série porque já muita gente (para não dizer 'toda') tinha visto na Net os dois primeiros episódios que o Showtime exibiu na madrugada do domingo passado. Minutos depois, já estavam 'disponíveis' pela pirataria. E além daqueles, também o terceiro e o quarto episódios andam pelos sites de partilha de ficheiros. De pouco importa isso, em Cannes, a sala encheu-se à mesma, foi uma oportunidade única e histórica para ver a arte de Lynch em muito grande ecrã, onde ela decerto não voltará a ser exibida. Houve aplausos loucos quando a música de Badalamenti inundou a sala.

E depois a surpresa absoluta: Lynch não cede um milímetro, volta a desestabilizar, leva-nos de novo para o novelo siderante que mudou a história da televisão há mais de um quarto de século. Voltamos a encontrar o agente do FBI Dale Cooper (Kyle MacLachlan), que no final da segunda temporada nos deixara já do lado de lá dos seus sonhos insanos e numa altura em que já se sabia quem tinha morto Laura Palmer — a pergunta que alimentou toda a primeira temporada.

David Lynch e Miguel Ferrer em “Twin Peaks”

David Lynch e Miguel Ferrer em “Twin Peaks”

Foto Suzanne Tenner/SHOWTIME

O novo “Twin Peaks” recupera um momento incrível da série dos anos 90, quando Cooper se encontra com o espectro da adolescente assassinada na sala vermelha do Black Lodge, esse espaço extradimensional que é a antecâmara de todos os horrores. Falando como uma cassete de fita magnética tocada em sentido inverso, Laura marca encontro: “I'll see you again in 25 years.”

Terá afinal sido “Twin Peaks” uma ficção em que o seu criador se apaixonou por uma mulher morta, tentando depois trazê-la à vida, como no mito de Orfeu e Eurídice? Será aquela sala de cortinas vermelhas e mosaicos em ziguezague uma figuração do inferno de onde Orfeu tenta resgatar a mulher que ama? A verdade é que, tanto no primeiro como no segundo episódios, Laura volta a assombrar Cooper, uma e outro já com rugas, ela ainda loura, ele com cabelos brancos, como se as personagens antigas nos viessem indicar o caminho para outros labirintos, decerto entrando neles também. E nós, conseguiremos entender, por exemplo, que a morta Laura Palmer esteja de novo viva — tão viva que é ela quem de novo visita Cooper no início do segundo episódio? Estaremos prontos para aceitar essa alucinação?

Regressam Mädchen Amick e Peggy Lipton

Regressam Mädchen Amick e Peggy Lipton

FOTO Suzanne Tenner/SHOWTIME

O que foi visto é trabalho de génio, talvez ainda mais denso e secreto que os episódios de 1990. Mal visitamos Twin Peaks, a cidade fictícia do título: Lynch leva-nos para outros lados, para Nova Iorque, onde um segurança vigia uma misteriosa caixa transparente no topo de um arranha-céus, para o South Dakota, onde um crime hediondo acontece, incriminando um fulano que parece estar a cair numa armadilha. Entre estas duas linhas narrativas que se entrelaçam, descobriremos em Cooper o sereno agente mas também o seu irado e demoníaco duplo, assassino a soldo, mau como as cobras mas capaz de arrancar gargalhadas. Estes dois episódios, que estão fundidos num só, sem interrupções a meio (assim passaram em Cannes), e que a TVSéries exibe em Portugal às 22h de domingo, são o momento de abrir o leque, deixam água na boca. Acrescentam novas camadas de delírio ao delírio, numa fusão de tragédia e comédia com ambientes opressivos e truques de Méliès que continuam a não ter paralelo, ontem como hoje.

  • 4 factos que fizeram a diferença de “Twin Peaks”

    Quem se lembra da Laura Palmer do início dos anos 1990? A série começava com a descoberta do seu corpo, mas mesmo morta ela não deixou de atormentar o pobre detetive do FBI Dale Cooper ao longo dos 30 episódios das duas temporadas da série de culto de David Lynch. No dia em que a terceira temporada estreia em Portugal, recordamos a série original