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Salvador Sobral: “Estava numa missão de trazer música com algum conteúdo”

A vitória assombrosa de ‘Amar pelos Dois’ fez já de Salvador Sobral uma referência na história do Festival da Eurovisão e elevou-o a um patamar de visibilidade internacional. Na raiz de tudo está uma história pessoal que passa pelos Beatles e pelo jazz

POR NUNO GALOPIM* em kiev (TEXTO), e CÁTIA CASTEL-BRANCO (FOTOGRAFIAS)

CÁTIA CASTEL-BRANCO

Foi sob cerrada escolta policial que Salvador Sobral e a restante comitiva portuguesa regressaram ao hotel, já noite dentro, após a vitória de ‘Amar pelos Dois’ no Festival da Eurovisão, realizado em Kiev, com a soma recorde de 758 pontos. Horas depois, o segundo voo que completaria a viagem desde a capital ucraniana até Lisboa saudava o cantor, a irmã Luísa Sobral (autora da canção) e restante equipa ao som da canção que os passageiros escutaram, já dentro do avião, antes da largada para Lisboa. No aeroporto esperava-o uma multidão, que o acolheu num efusivo momento de glória.

Após uma espera de 53 anos, Portugal obtinha uma primeira vitória no Festival da Eurovisão. E fazia-o com uma canção nos antípodas dos paradigmas atualmente em vigor no concurso. De resto, na conferência de imprensa que se seguiu imediatamente ao triunfo, Salvador Sobral referiu que, admitindo não saber se esta vitória mudará ou não o futuro do concurso, espera pelo menos que a canção possa “trazer mudança”. E aí falou não apenas da Eurovisão mas da música popular em geral, desejando que ‘Amar pelos Dois’ possa ajudar a dar maior visibilidade a uma música “com conteúdo emocional e lírico” e assim poder contribuir para que se possa fazer a diferença. Sobre se se sentia um herói nacional, foi bem claro, respondendo ali que deixava esse papel para Cristiano Ronaldo.

Em Kiev, além do triunfo no Festival da Eurovisão, a canção deu ainda mais dois outros prémios aos irmãos Sobral. Luísa venceu o Prémio de Composição Marcel Bezençon (o nome do profissional da TV suíça que idealizou o concurso nos anos 50), que é votado entre os músicos presentes no concurso. Salvador, por sua vez, ganhou o Prémio Artístico. Aos 27 anos, o músico, que em 2016 editou o seu álbum de estreia, foi esta semana um dos mais escutados pelo mundo fora, tendo a canção ‘Amar pelos Dois’ conquistado números expressivos em muitos territórios nas plataformas digitais tanto por streaming como por download. E antes de regressar a Lisboa falou ao Expresso.

Que ideia fazia do Festival da Eurovisão antes de saber que ia representar Portugal na edição deste ano do concurso? Era para si um mundo distante?
Era para mim um planeta superdistante. Nunca tinha visto o Festival da Eurovisão.

Nem em criança, com os pais?
Nem em criança com os pais, de facto. Foi algo que com o tempo eles deixaram de ver. Sei que eles viam noutros tempos e, de repente, deixaram de o acompanhar. E eu nunca o vi. Por isso, era um universo completamente distante, embora fosse ouvindo algumas coisas que de lá iam chegando. Como, por exemplo, quando se disse que tinha ganho uma miúda com barba... Percebia também que era pop e que tinha coisas que são um bocado postiças. Continuo a acreditar que é ainda assim, um pouco postiço. Mas é o que é. E se calhar podemos fazer parte da mudança. E fazer com que o Festival da Eurovisão possa ser como quando os nossos pais eram pequeninos.

Sentiu-se, contudo, na obrigação de fazer um trabalho de casa para conhecer melhor este universo. Isso aconteceu após a vitória no Festival RTP da Canção, a 5 de março, em Lisboa? Ou foi até mesmo quando a sua irmã, Luísa, lhe apresentou a ideia de ali cantar um tema dela?
Nunca senti essa necessidade. Mas, quando me apercebi de que no YouTube apareciam as atuações com as canções dos outros países que iam participar este ano, aí é que vi... Vi por um lado a Lúcia Moniz [que representou Portugal em 1996 com ‘O Meu Coração não Tem Cor’ e era até aqui a melhor classificação nacional, com um sexto lugar], vi o Paulo de Carvalho [que cantou ‘E depois do Adeus’ na edição de 1974]. E depois não vi mais nada de Portugal. E vi também os outros países que estariam este ano em Kiev. Como, por exemplo, a Itália. Para, como é natural, perceber com quem ia competir... Essa palavra!...

Não gosta da palavra competir?
É uma palavra que nunca devia estar junta com música numa só frase. Mas pronto, a verdade é que estou aqui em Kiev e não posso estar sempre a criticar tudo, sobretudo porque estou aqui no meio.

Qual foi a diferença entre os visionamentos que foi fazendo através da internet, ainda em casa e, depois, o confronto com aquela passadeira vermelha, que assinalou o início oficial da semana ‘eurovisiva’ em Kiev, e onde teve um acolhimento quase ao jeito dos Beatles?
E essa é mesmo uma boa maneira de descrever o que sucedeu, porque foi exatamente assim que aconteceu... Fui dos visionamentos de YouTube para uma passadeira vermelha... Estava acabado de chegar de Portugal, de horas passadas em duas viagens de avião... E estava atrasadíssimo... Vinha já no carro, com uma guia ucraniana, que me dizia, falando em inglês, “we are late, we are late” [trad. “estamos atrasados”]... A dada altura, estamos a andar entre um parque e, quando chegamos ao fim do parque, aquilo está cheio de pessoas... Finalmente! E foram uns duzentos metros de passadeira, com entrevistas seguidas... E pensei: vou fugir daqui! Às vezes tenho a sensação de que me estou a vender. O que é uma estupidez, porque a canção é tão bonita que não me compromete de maneira nenhuma. Parece prepotente mas sabia que estava numa missão de trazer música com algum conteúdo, que não é vazia. Tem conteúdo lírico, melódico e emocional. Estávamos por isso nessa missão... E isso é mais importante do que a maneira como me sinto em relação a isto, de me chatear com as entrevistas. Era uma missão mais forte...

Respirou fundo...
Sim... Aconteceu-me mais do que uma vez essa sensação de questionar o que estava aqui a fazer... Acho que nenhum músico de jazz que eu conheça viria aqui para fazer o que eu estava a fazer...

CÁTIA CASTEL-BRANCO

Mas ao mesmo tempo pode agora servir de exemplo para muitos outros...
Claro que sim! E o que me fez continuar foi essa ideia de estar numa missão.

E o facto de ter havido este encantamento generalizado pela canção ajudou-o a alcançar um patamar de tranquilidade, constatando que a missão tinha sido bem-sucedida e que pode ter ainda mais resultados no futuro?
É isso. Vi que as pessoas sentiam a canção, perceberam-na, e que sabem que tudo isto pode ser importante. E estão a seguir outra vez o Festival da Eurovisão. E gostam de mim. Quem sou eu para vir agora dizer que não quero saber disto ou que me vou embora? As pessoas gostam e eu tenho essa noção... Não sei se o país, mas algumas pessoas acreditaram nisto e estava a representá-las também. Era um bocado mimado da minha parte estar contra isto.

Encontrou assim um espaço de tranquilidade ao entender todo este processo como sendo uma missão?
Exatamente, era assim que a via. Nessa missão de trazer a música boa e também na de poder representar bem as pessoas de Portugal e dar uma alegria a alguém. E também de poder trazer, talvez em anos próximos, canções diferentes ao Festival da Eurovisão.

Ver todo um país mobilizado em volta de um músico não é habitual... É inclusivamente raro...
É verdade... Por isso é que tenho de estar agradecido e não posso estar constantemente em birra. Mas às vezes as emoções são mais fortes do que a razão. E aí aqueles que estiveram aqui comigo ajudaram-me. Foi impecável e tudo aconteceu num clima de amizade. E assim fomos até ao fim.

Os ensaios onde se libertava e nos dava a escutar abordagens bem diferentes à canção, recorrendo à improvisação, eram momentos de descompressão?
Eram momentos de descompressão, sim. Mas era também às vezes a minha birra. Pensava: vou fazer só para chatear, confesso... Era só para que depois falassem mal quando vissem no YouTube e dissessem que tinha estragado tudo... E criava-se aquela coisa de que tinha estragado a música e que afinal já não ia ficar num bom lugar, que já não ia ganhar... E confesso que gosto disso. Sou diferente e sinto-me diferente, mas admito que puxo também por essa diferença.

Há então um lado provocador?
Há, sim...

Quando aborda repetidamente em palco uma canção é importante para si não se cingir a uma leitura canónica e experimentar essas outras variações? Até porque para as leituras canónicas existem sempre os discos que fixam essas versões originais de referência...
É isso mesmo. No meu próprio disco [“Excuse Me”, editado em 2016 pela Valentim de Carvalho] sinto isso. Sinto que estou a cantar mais direitinho. Se calhar, se o fizesse agora, não seria exatamente assim. A canção tem de existir como canção para depois poder ter as suas variações. Esta canção, o ‘Amar pelos Dois’, é linda com a melodia original. Nem precisa destas coisas... Mas estas variações são boas para eu respirar.

A ideia da responsabilidade esteve claramente consigo durante todo este processo. Mas quem o viu em Kiev sentiu que não parecia acarretar ao mesmo tempo uma carga de ansiedade...
É verdade. Não sei se é pelas coisas que já vivi, mas não vejo nisto nenhum problema nem ansiedade. Há outras coisas que causam ansiedade. E essas são coisas que não controlamos... Esta coisa era algo que eu podia controlar. Era uma canção bonita que eu ia cantar. Nunca fiquei nervoso... Tenho a adrenalina de cantar, o que é ótimo e faz parte. Mas nunca fiquei nervoso. E quanto à responsabilidade é claro que a sentia, embora vivendo-a com tranquilidade.

De resto, e logo desde aquela multidão de entrevistas para televisões, rádios, jornais e sites de todo o mundo que deu na passadeira vermelha, sempre que lhe perguntavam se estava nervoso respondia que não, porque sabia a canção e o que ia fazer era cantá-la...
Exato! Eu controlo isso. Eu sei a canção. Sei a letra... O que é que pode correr mal... Fico nervoso quando tenho grupos novos e tenho de fazer um primeiro concerto. As letras ainda não estão completamente no ponto... Não fizemos ensaios suficientes... Aqui fizemos mil e tal ensaios. Tenho a canção supercontrolada...

No ‘postal’ que antecedeu a apresentação da canção tanto na semifinal como na final vimo-lo filmado ora em ensaio ora entre livros. E a dada altura pega num de Woody Allen. É uma referência sua?
Gosto muito de Woody Allen, sim.

Falou, a dada altura, em Kiev, de um desejo em fazer uma digressão europeia ou até mesmo no mundo... Isso poderá acontecer?
Adorava poder tocar com a minha banda. Que vissem a maneira como toco com os músicos... Gostava muito.

Para já, há uma digressão nacional. E com salas grandes pela frente a partir de julho...
Começámos esta tour em abril de 2016 e fizemos até duas datas no São Luiz [em Lisboa] mas não aconteceram muitas coisas porque o disco não foi assim tão aceite nem houve muita publicidade. As pessoas não aceitaram logo a música... E até é normal, porque a música é diferente. E depois disto começaram a surgir muito mais datas... Sobretudo a partir de fevereiro. Disse que íamos aceitar. Mas acho que o disco tem um tempo de vida e por isso só vamos aceitar datas até dezembro. Depois vou fechar-me e trabalhar...

Em entrevistas chegou a dizer que houve espaços que não tinham mostrado interesse em acolher concertos seus mas que, depois do sucesso de ‘Amar pelos Dois’, entretanto mudaram de opinião...
Muitos espaços... E tristemente também muitos jornalistas... Muitos não responderam quando o disco saiu. Agora toda a gente quer uma entrevista. E com os auditórios é a mesma coisa. É o lado da indústria que não é tão musical...

Como é que esta canção chegou às suas mãos? Foi composta pela sua irmã, Luísa Sobral... Mas como nasceu a parceria entre os dois?
Ela primeiro disse que a tinham convidado e que me queria para cantar. Isto mesmo sem ainda haver canção nem nada. E eu disse logo: Nem pensar! Não tem nada a ver comigo. Entretenimento, não, obrigado! E depois começou a falar que este ano ia ser uma coisa diferente. Que havia canções da Márcia, do Samuel Úria, do Pedro da Silva Martins... E disse-me que naturalmente não ia fazer uma canção que não tivesse a ver connosco. Mas ela nunca mais compunha e o tempo passava... Já era janeiro e nada... Perguntei-lhe: então, já fizeste isso? E de repente mandou-ma no último dia. E fez-se aquela primeira versão só com guitarra.

O arranjo de cordas chega então mais tarde...
Sim, acontece mais tarde. Eu toco mais com o Júlio [Resende] e a minha irmã toca mais com o João Salcedo e o Luís Figueiredo. Acho que, depois de eu gravar uma primeira versão, ela diz-me que ia fazer uma coisa muito simples só com piano e voz e que ia pedir o arranjo ao Luís. Ele fez um excelente arranjo de cordas que remete para bossa-nova, o jazz, os arranjos de uma Billie Holiday.

Duas das cenas mais vibrantes e criativas no Portugal musical atual são a do jazz e a dos cantautores. E ‘Amar pelos Dois’ acaba por juntar as duas numa só canção... Será por isso que chegou a tanta gente?
Uma grande mostra disso é que tanto os músicos nossos amigos como as pessoas que ouvem habitualmente outras músicas adoram a canção. E isso é muito raro acontecer. Todos os músicos ficaram mesmo felizes de ver uma canção como esta neste festival...

Falava há pouco de uma certa resistência ao entretenimento. Referia-se, no fundo, à experiência anterior em televisão, num concurso de novos talentos?
Sim, falava de televisão. E os concursos são mesmo assim. Os “Ídolos” era mais um concurso de entretenimento, nunca de música. Era um programa de entretenimento. Eu tinha 19 anos e estava a ali sem perceber bem onde haveria de me encaixar musicalmente. E eles iam criando um personagem que fazia sentido naquele formato. Havia um que era pop, depois um rocker e depois aqui este que é meio crooner...

Sentiu-se a ser manipulado?
Na altura não... Mas também não era culpa toda deles porque eu não sabia quem era e aceitava. Se fosse uma pessoa com força, dizia não. Como de resto hoje em dia faço. Na altura não tinha maturidade. Mas foi uma experiência que foi legítima e contou também para eu saber o que não queria. E de certeza que trouxe coisas boas, como o saber como lidar com o público. Não posso ser superfundamentalista. Mas acho que, se uma pessoa quer seguir este caminho na música, não deve fazer estes concursos. Deve dar prioridade aos estudos. Estudar, se é isso que quer mesmo fazer...

Antes de começar a estudar música, o que de facto só aconteceu mais tarde, já tinha certamente uma primeira etapa de formação do gosto feita em casa...
O meu pai é baterista. No carro e em casa estávamos sempre a ouvir música. E a fazer harmonias, que é uma coisa mesmo muito importante para o ouvido. Fazíamos harmonias em cima das outras vozes. Ouvíamos Beatles, que são os reis de tudo! Têm tudo nas letras, melodias lindíssimas, harmonias, arranjos... Foram o ingrediente principal na nossa educação musical.

Sentiu então que estava a progredir na aprendizagem quando passou do álbum vermelho para o azul? Ou seja, ao passar das canções mais simples dos primeiros tempos dos Beatles para aquelas que surgem na segunda metade da sua obra, bem mais complexas?
Sim [risos]... É um processo gradual. Isso faz-me lembrar uma conversa que tive com o Jordi Rossy [um baterista de jazz] quando estava em Barcelona. Ele dizia-me que o filho dele, que hoje toca trompete, aos cinco anos tinha começado a ouvir Chet Baker. Depois, um bocadinho mais tarde, ali pelos 12 anos, tinha sido a fase de ouvir o Miles Davis. Assim, sempre um bocadinho mais complicado, porque a educação musical dele foi muito pensada. Mas com o meu pai foi uma coisa mais natural. Ele adora os Beatles. E ouvia também Rui Veloso... E eu ia ouvindo tudo...

Lembra-se de qual foi o primeiro disco que comprou com o seu próprio dinheiro?
Será Stevie Wonder?... Bom, para ser totalmente sincero, tenho de ir mais atrás no tempo... Eu pensava que ter muitas moedas significava ter muito dinheiro. E então a minha irmã trocou-me umas duas moedas grandes por muitos escudinhos pequeninos. E eu comprei-lhe um disco dos Backstreet Boys... Fui logo aldrabado! [risos]
O nascimento de uma mais profunda identidade musical chega então mais tarde, como é natural... Que músicos ou discos sugeriram esses outros e novos caminhos?
Eu comecei a ouvir os discos do Stevie Wonder e do Ray Charles sozinho. O meu pai não os ouvia tanto...

CÁTIA CASTEL-BRANCO

Foi pela rádio?
Não faço mesmo ideia... O meu pai tinha o “Songs in the Key of Life” [álbum de Stevie Wonder editado em 1976] e acho que ouvi o disco e, por minha própria iniciativa, comecei depois a comprar mais. O Ray Charles creio que foi ainda antes do filme. O jazz chega mais tarde, já quando estou em Maiorca...

É, de facto, frequente haver momentos de descoberta maior de outras músicas nas nossas vidas em etapas em que começamos a viver noutros lugares, sobretudo quando se é universitário...
É bem verdade! Eu estava em Maiorca a estudar Psicologia, que depois larguei. E comecei a tocar versões. Tocava covers de canções de Amy Winehouse, de Stevie Wonder, de Ray Charles, do Otis Redding... Cantava também o ‘Ain’t No Love in the Heart of the City’ [um tema originalmente gravado em 1974 por Bobby “Blue” Bland]... Tocava com um tipo que um dia me mostrou um disco do Chet Baker. Mostrou-me o ‘But not for Me’ para eu ouvir em casa... E foi uma completa epifania musical. Saquei a melodia e a letra... E o solo de trompete e também a intro... E no dia seguinte, quando o voltei a encontrar, disse-lhe: é isto! E pedi-lhe que me mostrasse mais coisas... E então apaixonei-me completamente pelo Chet Baker. Por isso, a minha entrada no jazz fez-se precisamente com o Chet Baker.

E então houve todo um mundo novo a descobrir... Essa outra etapa fê-la por si... E onde e como ia fazendo as descobertas?
Nesta altura já tenho 21 anos, já havia internet e fui fazendo as descobertas por mim mesmo. Comecei pelo Miles Davis e, por aqueles dias, não percebia bem o John Coltrane. Na verdade, também não percebia bem o Miles no início... Diziam-me que o “Kind of Blue” [de 1959] era o melhor disco e, quando o ouvi pela primeira vez, senti que não o conseguia perceber bem... Não estava preparado... Então fui ao “Cookin’” e ao “Relaxin’” [discos respetivamente de 1957 e 1958, ambos gravados pelo Miles Davis Quintet] e a coisa foi por aí... Uns tempos depois voltei ao “Kind of Blue” e senti: já percebi tudo! Percebi a luz! Depois avancei para outras coisas, como o “A Love Supreme” do Coltrane [de 1965]. E depois comecei a descobrir coisas mais contemporâneas.

E as vozes do jazz? Quais foram aquelas que o cativaram em primeiro lugar?
A Billie Holiday! Apaixonei-me logo por ela e pelo sofrimento. Que voz tão carregada de emoções! Depois a Ella Fitzgerald, obviamente, pelas partes mais técnicas. E também de emoção, claro. Na verdade, nunca ouvi muito a Sarah Vaughan... Gosto de solos vocais que ela faz... Gosto daquele disco do Johnny Hartman com o Coltrane [de 1963]. O Hartman tem uma voz grave... Gosto dele... Mas, na verdade, entrei nas vozes do jazz um pouco antes. Porque antes do Chet Baker eu já gostava do Jamie Cullum. Era uma cena mais pop, comercial, em que se entra com facilidade... E eu era viciado no Jamie Cullum... Era super cool, saltava no piano...

Foram essas músicas que o ajudaram a encontrar a sua identidade?
Sim. A música e outras coisas também. Mas estas músicas, sim.

E a psicologia surgiu porquê?
A psicologia surgiu porque adoro pessoas. E também na música espero que as pessoas percebam a mensagem que eu transmito. Que gostem de me ouvir. E isso faz parte de uma perceção das pessoas. Mas gosto mesmo de pessoas. E por isso falo as várias línguas em que sei falar... Interessa-me a mente humana. E por isso decidi estudar Psicologia. Mas não era tão romântico, obviamente, como estava à espera. Há muita teoria. Falam de teorias de outros até podermos fazer uma coisa nossa.

Foi importante para ser quem hoje é essa passagem como universitário por um curso de Psicologia?
Sinceramente, não sei bem... Possivelmente ajudou-me como tudo aquilo por que passamos na vida nos ajuda.

Não chegou a acabar o curso de Psicologia...
Não cheguei, não... Fiquei no terceiro ano, quando estava em Maiorca. Mas no terceiro ano fiz só uma cadeira. Era Psicologia da Arte. Eu nunca ia às aulas, mas queria muito fazer o trabalho para essa cadeira. E esse trabalho consistia em interpretar uma canção. E então interpretei o ‘Blowin’ in the Wind’ do Bob Dylan, inserido no contexto de época, falando depois também da psicologia envolvida na canção. Adorei essa aula. No final da aula cantei a canção e os restantes alunos adoraram. Foi o dia mais giro de toda a universidade.

Quando resolveu deixar o curso de Psicologia para seguir um caminho na música sentiu desde logo que teria de ter estudos nessa nova área? Ou limitou-se a tocar?
Nessa altura eu estava em Maiorca a tocar em bares e em restaurantes. São lugares onde ninguém nos ouve. Estamos ali... O que até é bom para estudar. E também para experimentar coisas com a voz, escalas. Mas depois aquilo é uma ilha. E o verão acaba e passa-se a ganhar menos dinheiro. A minha irmã dizia-me que achava que eu deveria estudar música. E eu costumo ouvir o que a minha irmã me diz. Escuto sempre os seus conselhos com muita atenção porque ela é uma pessoa supersensata e eu admiro muito essa sensatez. E fiquei a pensar. Não podia ficar ali a minha vida inteira... Eu queria passar uma mensagem às pessoas que me ouvissem. E não podia estar sempre a cantar as canções dos outros já escritas há muito tempo. Isso apesar de estar agora a cantar até uma canção de outra pessoa...

Mas ‘Amar pelos Dois’, mesmo sendo da autoria da sua irmã, foi feita para si...
Sim, foi feita para mim...

Os conselhos que a sua irmã lhe deu levaram-no a fazer novamente as malas...
Sim, e fui para Barcelona [para estudar na escola Taller de Musics] motivado por ela. E também porque pensei que tinha razão. Porque se era aquilo o que eu queria tinha mesmo de estudar. Então, vamos lá.

Há quem por vezes afirme que, depois de uma educação musical, há um trabalho mais pessoal que conduz cada um ao seu caminho e à descoberta de uma identidade como músico. Há até quem por vezes fale num desaprender... Como aconteceu consigo?
Há um momento em que se está a estudar harmonia, a ver o que está a acontecer, os acordes... E estamos tão obcecados que ao escutar cada canção ficamos a notar todos os detalhes... A minha irmã dizia-me: eh pá, ouve a canção, desfruta a canção... Mas é típico de estudantes... Mas não me se senti forçado a desaprender. E parece-me que é óbvio para todos que estou a desfrutar da música.

E quando foi que sentiu que tinha encontrado uma voz criativa pessoal?
Gostava de dizer que foi com as minhas composições. Mas não sinto que seja tanto assim... Acho que é para mim tão importante cantar essas minhas canções como as canções dos outros.

De resto, o alinhamento de “Excuse Me”, o seu primeiro álbum, em que é acompanhado por Júlio Resende [piano], André Rosinha [contrabaixo] e Bruno Pedroso [bateria], traduz mesmo a presença dessas duas realidades. Como é que escolheu as canções dos outros que gravou neste álbum?
De facto, o disco reflete isso. O ‘Ay Amor’ [com letra e música de Bola de Nieve] é uma música que canto há anos! E, na verdade, até me apaixonei inicialmente pela versão do Caetano Veloso antes de ouvir a versão do Bola de Nieve. Achei que fazia sentido porque aquela canção já fazia parte da minha vida. O ‘Autumn in New York’ é para mim o standard mais bonito... O Wynton Marsalis disse um dia que nunca se ouviu jazz até se escutar a Billie Holiday a cantar o ‘Autumn in New York’... É o meu standard preferido. E depois gravámos ainda o ‘After You’ve Gone’, com o qual fizemos um vídeo que ficou ‘viralinho’... E também fazia sentido na história do disco, porque fi-lo com o Leo [Aldrey] e essa foi a canção que nos juntou. Há depois o ‘Nem Eu’ do Dorival Caymmi. E há também uma canção da minha irmã. É o ‘I Might Just Stay Away’, que foi escrita quando estava na minha época do Chet Baker... E ela fê-la a dizer que era para eu não estar sempre a cantar as coisas dos outros. E assim fez uma canção que podia ser cantada por ele. Tem a vibe dele. E foi por isso que a cantei.

Em dezembro fechará o ciclo deste álbum. E para depois fala de um novo disco. Tem já planos concretos a esta distância?
Faz sentido acabar este ciclo no fim do ano. Não sou da opinião de ‘esmifrar’ isto porque agora somos famosos e explorar o álbum até mais não. O “Excuse Me” tem o seu tempo de vida. Como tudo na vida. Em dezembro acaba e vou concentrar-me noutra coisa. Estou já a trabalhar com o Leo nesse sentido. Escrevi muitas letras. E todas são em português. E gostava de fazer mais em português...

Há vozes com quem gostasse de cantar?
Entre as vozes portuguesas gostaria de cantar com a Márcia. E também com o Samuel Úria. Não sei se encontraríamos um terreno comum, mas acho que sim... Há uma canção muito gira no disco dele e estou sempre a pedir que me convide para a cantar nos concertos. Chama-se ‘Graça Comum’ e está no álbum “Carga de Ombro”, o mais recente. É a minha música preferida dele. Gosto muito destas vozes portuguesas. A Susana Travassos tem uma voz muito bonita.

E, num plano internacional, com quem gostaria de poder trabalhar?
Aí há a Sílvia Pérez Cruz, que para mim é top. Ou o Caetano Veloso... Mas isso já seria um sonho...

Que futuro imagina agora para ‘Amar pelos Dois’ depois do Festival da Eurovisão?
A canção não está ainda em nenhum disco meu... Se a gravar será numa versão com banda, tal como a toco ao vivo. Em vez de fazer só piano e voz, faria uma versão com banda, com o Júlio, o Bruno e o André. E acho até que faz sentido pô-la num próximo disco. Gostava que ficasse na memória das pessoas. De resto, vou continuar a fazer a minha vida. b
e@expresso.impresa.pt

* Consultor do Festival da Canção

PORQUE GANHOU SALVADOR. E PORQUE GOSTÁMOS DE GANHAR

Texto de Miguel Cadete

Quando Sobral usa uma T-shirt onde se pode ler “S.O.S. Refugiados” está a utilizar as suas armas para afirmar uma mensagem política, que é o que distingue qualquer artista pop, um território onde a música por si só não chega

Quando Sobral usa uma T-shirt onde se pode ler “S.O.S. Refugiados” está a utilizar as suas armas para afirmar uma mensagem política, que é o que distingue qualquer artista pop, um território onde a música por si só não chega

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As notícias do fim da “música descartável, da música fast food sem qualquer conteúdo”, tal como proclamado por Salvador Sobral logo após a vitória da canção que interpretou no Festival da Eurovisão, podem ser manifestamente exageradas. No calor da emoção, depois de uma vitória inédita ao cabo de 48 participações em que Portugal pouco brilhou, é natural que Sobral se sentisse Salvador do mundo da música. Mas nem a música assente na falta de genuinidade deixou de existir a 13 de maio de 2017 nem a balada que levou Salvador Sobral escapa a uma certa tradição do Festival da Eurovisão.

Antes pelo contrário, uma das razões do êxito de ‘Amar pelos Dois’, que tecnicamente me dizem ser em compasso ternário, que devido à acentuação do piano no segundo tempo dá ares de valsinha, é precisamente o facto de se inserir numa longa história de canções de amor delicodoces senão mesmo melodramáticas, capazes de induzir no espectador um estado emotivo ou patético, no verdadeiro sentido da palavra. É, porventura, uma das duas grandes tendências que se notam ao longo da história da Eurovisão, que dividem os seus concorrentes mais garbosos entre os capazes de criar espalhafato, como era o caso dos Lordi, de Conchita Wurst ou mesmo dos Abba, e os que são capazes de um ensimesmamento que procura ser confessional, como sucedeu com Marie Myriam, Céline Dion ou Salvador Sobral.

Estou muito à vontade para escrever isto pois tive a oportunidade, na véspera da final do Festival da Eurovisão, de dizer o mesmo em artigo publicado no Expresso Diário (“As três razões por que Salvador Sobral pode ganhar o Festival da Eurovisão”) e reproduzido no site da “Blitz” na manhã do dia seguinte. É paradoxal que um festival como a Eurovisão, muitas vezes considerado como o pináculo da música comercial, seja muito mais uma reunião de artistas que se afastam do mainstream e da música dita ‘normal’ para fazerem alarde de tendências que escapam ao que na gíria do meio musical é considerado middle of the road.
Não é preciso lembrar que já saíram vitoriosos desta competição grupos de heavy metal, transexuais ou que, na edição deste ano, um dos favoritos era acompanhado por um gorila de peluche em tamanho real e que outro concorrente atuava mascarado com uma cabeça de cavalo. Inesquecível, porventura, será o momento em que, durante a interpretação da canção vencedora em 2016, um elemento da comitiva ucraniana entrou em palco para mostrar o rabo perante os cerca de onze mil espectadores presentes na sala mais os 200 milhões que assistiam pela televisão.

Não só a canção que Salvador Sobral defendeu se inscreve numa tradição festivaleira – provavelmente ao nível de outras tão pungentes quanto ‘E Depois do Adeus’ ou ‘Desfolhada’ – como o seu perfil de artista encaixa no intérprete de exceção capaz de acrescentar sentimento e vibração à composição escrita por outrem, neste caso a sua irmã, Luísa Sobral. Violando o cânone do cantautor, muito querido em Portugal nalgumas épocas e nalguns círculos, mas seguindo um caminho que entre muitos outros foi trilhado por Frank Sinatra, Elvis Presley ou Amália Rodrigues, Sobral apresentou-se como sendo maior do que a música. É provável que desde António Variações não tenha surgido em Portugal outro artista assim, capaz de criar carinho e afeição não só entre os que gostam do fenómeno musical mas também em muitos que não ligam patavina ao assunto. Isto é, entre tantos, as donas de casa de Portugal. Para o efeito, não terá sido despiciendo o estado de saúde de Sobral, amiúde divulgado nalguma imprensa, mas também a sensibilidade ou mesmo a vulnerabilidade e fragilidade que pautam as suas prestações. Ele não é o artista super-herói, capaz de derrotar todos os males e maus do mundo. Pelo contrário, Sobral é alguém que precisa de um colo amigo. E isso não só enternece largas camadas do público como pode ter um poder tão revolucionário como a maior canção de protesto. Em resumo, chama-se a isto um artista pop.

E ser pop não quer dizer superficialidade. Quando Sobral usa uma T-shirt onde se pode ler “S.O.S. Refugiados” está a utilizar as suas armas para afirmar uma mensagem política, que é o que distingue qualquer artista pop, um território onde a música por si só não chega. Que o digam Madonna, John Lennon, Prince, os Heróis do Mar ou tantos outros capazes de usar os media para tentar mudar o mundo. E o Festival da Eurovisão é um habitat natural, desde os seus primórdios, para exibir – não há outra maneira de o dizer – essas mensagens. O lema deste ano era a diversidade. Mas desde a sua primeira edição, um ano antes de o Tratado de Roma instituir a Comunidade Económica Europeia, em 1957, que a Eurovisão é uma espécie de concerto das nações, o lugar onde os horrores das guerras que assolaram o continente eram exorcizados. Não deve ser menosprezado que a concorrente russa tenha sido impedida de participar na final de Kiev precisamente devido ao conflito que por estes dias opõe o seu país à Ucrânia.

A maneira como a própria Eurovisão é entendida pelos povos decorre do seu posicionamento político e do seu lugar na história. Até entrar na CEE, cada final do festival era vista em Portugal como algo que almejávamos intensamente. Apesar dos resultados menos bons, ou mesmo péssimos, à hora da transmissão do concurso pelo canal um – quando apenas existiam dois canais, pertencentes à mesma empresa – não se encontrava vivalma nas ruas. Queríamos fazer parte do clube europeu e por isso éramos fervorosos espectadores do Festival da Eurovisão. As votações eram discutidas no dia seguinte, realçando invariavelmente o favor com que os nossos vizinhos espanhóis atribuíam pontos à nossa canção. Até que entrámos na CEE.

A partir daí, como bem notou o cronista do Expresso Henrique Raposo num das suas prédicas matinais na Rádio Renascença, o país deixou de se interessar. Já fazíamos parte do clube Europa e o festival da Eurovisão passou a ser piroso e pindérico. O mesmo sucedeu à sua rampa de lançamento, o Festival da Canção, que servia de eliminatória de todos os concorrentes até se escolher o eleito que iria representar Portugal. Nos últimos anos, esse frisson de fazer figura na Eurovisão tem percorrido a população dos países que pertenciam à União Soviética, e que entraram, ou querem entrar na União Europeia, sendo notória a forma como em edições recentes se favoreceram uns em detrimento de outros ao atribuírem a pontuação.

22 anos após entrarmos na Europa, renovámos o gosto por fazer boa figura. Ganhámos o campeonato da Europa de Futebol – e quantos nas redes sociais se admiravam, quando da votação de sábado à noite, pelo facto de a França ter atribuído 12 pontos à canção portuguesa – depois de termos trilhado o caminho das pedras que foi a estada da troika em Portugal. De alguma forma, vingámos a nossa infância e por isso não se pode estranhar que Salvador Sobral tenha dito, entusiasmado por uma conquista inédita, que a “música não é fogo de artifício, são sentimentos. Vamos tentar mudar isto e trazer a música de volta, que é o que realmente importa”. Ganhar com muitos pontos não chegava. Era preciso revolucionar tudo. Mesmo que seja de ciência certa que, depois do 13 de maio, a música não mude assim tanto. Porém, era obrigatório proclamá-lo, para que se tornasse possível voltar a gostar da Eurovisão. E deliciarmo-nos com esta vitória de Salvador Sobral.